Ney Matogrosso ganha exposição no Solar, no Rio, em celebração aos seus 85 anos

“Homem com H”. O título de uma das músicas mais marcantes da carreira de Ney Matogrosso parece resumir a trajetória de um artista que sempre recusou definições prontas. Com uma voz inconfundível, uma estética revolucionária e uma presença de palco que desafiou padrões, Ney transformou o próprio corpo em linguagem e a arte em uma forma de liberdade. Aos 85 anos, completados em agosto, ele ganha uma homenagem que não tenta explicar quem é, porque talvez essa seja justamente a sua maior característica: ser impossível de colocar em uma única categoria.

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A exposição “Ney Matogrosso: Eu Prefiro Ser” abre as portas no Solar – Mercado Central, no Rio de Janeiro, propondo uma experiência que foge do tradicional formato biográfico. Em vez de seguir uma linha do tempo com datas e acontecimentos, a mostra escolhe mergulhar no impacto deixado pelo artista na cultura brasileira, nas artes visuais e na maneira como diferentes gerações enxergam liberdade e identidade.

O título da exposição já carrega uma provocação. “Eu prefiro ser” é quase uma declaração de independência de alguém que passou mais de cinco décadas recusando rótulos. Desde sua passagem pelo grupo Secos & Molhados, nos anos 1970, Ney rompeu padrões com sua voz aguda, maquiagem marcante, figurinos extravagantes e uma presença de palco que misturava delicadeza e força.

Pôster dos Secos e Molhados — Foto: Divulgação

Mais do que um cantor, ele se tornou uma imagem. Um corpo que questionava limites, que brincava com masculinidades e que transformava o palco em espaço de expressão e resistência.

“Não é uma exposição cronológica ou biográfica. Nos últimos anos, tivemos livros, documentários, filmes e até enredos de escola de samba que já cumpriram essa missão”, explica Bernardo Mosqueira, diretor artístico do Solar e um dos curadores da mostra, ao lado de Matheus Morani e Pablo León de la Barra.

Segundo ele, a proposta é criar “uma imersão experimental nesses mais de 50 anos de criação”, olhando principalmente para a influência de Ney na sociedade e na cultura visual brasileira.

A exposição reúne trabalhos de mais de 40 artistas brasileiros e internacionais que dialogam com temas presentes na trajetória de Ney: transformação, desejo, diversidade e a possibilidade de construir novas formas de existir. Entre os nomes estão José Leonilson, Feliciano Centurión, Hudinilson Jr., Tunga, Keith Haring e Madalena Schwartz, além de artistas contemporâneos como Tadáskía, Rafa Bqueer e UÝRA.

“Secos e molhados” (1974), de Mirian Inêz da Silva, é um dos destaques de “Eu prefiro ser”, no Solar — Foto: Divulgação

A ideia não é mostrar apenas a história de Ney, mas aquilo que nasceu depois dele. As marcas deixadas em outros artistas, os caminhos abertos por sua ousadia e as possibilidades criadas por alguém que nunca aceitou permanecer dentro de uma única definição.

Algumas obras foram criadas especialmente para a exposição. O coletivo vivid astro focus reúne diferentes fases da carreira de Ney em uma instalação que mistura passado e presente, como um retrato em constante transformação. Já Laura Lima apresenta um espaço pensado para abrigar aves, conectando a mostra ao cuidado que Ney mantém com animais em seu sítio.

A relação com a natureza também aparece como parte dessa leitura sobre o artista. A exposição aproxima Ney de elementos que sempre fizeram parte de sua imagem: liberdade, instinto e a quebra das fronteiras entre aquilo que é humano e aquilo que é selvagem.

‘De unhas negras e íris cor de mel’, de Thix — Foto: Acervo Pessoal da artista

A homenagem chega ao público após anos de preparação. O projeto começou a ser pensado pelo Solar ainda em 2017, inicialmente com a intenção de celebrar os 80 anos do cantor, mas acabou sendo adiado pela pandemia. Durante esse período, os curadores ouviram artistas de diferentes gerações e regiões do país sobre suas memórias relacionadas a Ney.

O resultado é uma exposição sobre influência, mas também sobre coragem. Porque celebrar Ney Matogrosso não é apenas revisitar uma carreira de sucesso. É olhar para um artista que ensinou que existir também pode ser uma forma de criação.

Entre plumas, cores, performances e provocações, Ney continua fazendo aquilo que sempre fez: recusando o óbvio e mostrando que a liberdade talvez seja a maior obra de arte.

A exposição “Ney Matogrosso: Eu Prefiro Ser” fica em cartaz no Solar – Mercado Central, localizado na Rua do Senado, 48, no Centro do Rio de Janeiro, entre os dias 20 de junho e 17 de outubro de 2026. A mostra integra o eixo curatorial dedicado à liberdade e celebra não apenas a trajetória de Ney, mas o impacto de sua arte em diferentes gerações.

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