Morre aos 85 anos James Burrows, diretor responsável por clássicos da TV como Friends e Cheers

Durante décadas, bastou uma sala de estar, um grupo de amigos ou um bar cheio de histórias para milhões de pessoas encontrarem motivos para rir. Por trás de algumas dessas cenas que atravessaram gerações estava James Burrows, um dos grandes arquitetos da comédia televisiva americana. O diretor, responsável por episódios marcantes de séries como Cheers, Friends, Will & Grace e The Big Bang Theory, morreu aos 85 anos.

A informação foi confirmada pela família em comunicado enviado à revista People. “Celebramos a vida extraordinária e o legado duradouro de James ‘Jimmy’ Burrows, que faleceu hoje em paz, cercado por sua amada família”, afirmou a nota. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Burrows se tornou um dos nomes mais respeitados da televisão, deixando uma marca em produções que ajudaram a definir o humor nas telas.

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James Burrows participa de uma conversa com David Schwimmer no 92nd Street Y, em Nova York, no dia 8 de junho de 2022. — Foto: Dominik Bindl/Getty Images)

Mais do que um diretor, ele era conhecido como alguém capaz de entender o coração de uma história. Para Burrows, uma boa comédia não dependia apenas de uma piada bem construída, mas da conexão entre personagens e público. “A grande comédia nunca se resumia apenas ao riso. Tratava-se de humanidade, conexão e verdade”, destacou a família na homenagem.

E foi justamente essa sensibilidade que fez com que seu trabalho permanecesse vivo. Burrows dirigiu mais de mil episódios de televisão e esteve por trás de algumas das séries mais populares da história, incluindo The Mary Tyler Moore Show, Taxi, Frasier, Friends, Will & Grace e The Big Bang Theory.

Os criadores David Kohan e Max Mutchnick (ao fundo) e Megan Mullally, Eric McCormack, James Burrows, Debra Messing e Sean Hayer no set de ‘Will & Grace’ — Foto: GettyImages

Nascido em Los Angeles, em 1940, James Burrows cresceu em uma família ligada ao entretenimento. Filho do escritor e compositor da Broadway Abe Burrows, ele teve desde cedo contato com o universo artístico. Ainda jovem, mudou-se para Nova York, estudou na High School of Music & Art, formou-se no Oberlin College e concluiu mestrado na Yale School of Drama.

Sua trajetória profissional começou nos bastidores do teatro, mas ganhou força quando entrou para a MTM Enterprises, produtora responsável por The Mary Tyler Moore Show. Foi nesse período que desenvolveu o estilo que se tornaria sua assinatura: uma direção baseada no ritmo teatral, na química entre os atores e na capacidade de transformar diálogos simples em momentos memoráveis.

James Burrows nos bastidores de uma gravação: o diretor ficou conhecido pela proximidade com os atores e pelo cuidado na construção de cada cena. — Foto: Chris Pizzello/Invision/AP, Arquivo

Em entrevista à IndieWire, em 2023, Burrows explicou que nunca se enxergou como um diretor de cinema tradicional.

“Não sou diretor de cinema. A câmera, isso eu deixo para Spielberg e Scorsese”, afirmou. Para ele, sua principal ferramenta era entender os personagens e a dinâmica da cena. “

Sou um rato de teatro. Eu enceno uma peça toda semana, uma peça de 20 a 25 minutos, e então minha câmera entra em cena e a filma.”

Essa visão ajudou a consolidar o formato das sitcoms multicâmera, em que os atores e suas interações eram o centro da narrativa. Para Burrows, se uma história não funcionasse diante do público, nenhum recurso de edição seria capaz de salvar a cena.

Um dos maiores capítulos de sua carreira veio com Cheers, série ambientada em um bar de Boston que acompanhava as histórias de funcionários e clientes do local. Exibida entre 1982 e 1993, a produção se tornou um dos maiores sucessos da televisão americana e rendeu ao diretor seis prêmios Emmy.

Da esquerda para a direita: Ted Danson, James Burrows e Shelley Long no set de filmagem de ‘Cheers’. — Foto: Banco de fotos da NBCU

A famosa recepção ao personagem Norm Peterson, sempre acompanhada pelo coro de “Norm!”, se transformou em uma das cenas mais reconhecidas da televisão. Décadas depois, a lembrança continuava fazendo parte da cultura pop, algo que o próprio Burrows valorizava.

“Cheers acabou sendo um sucesso porque fizemos isso melhor do que qualquer outra pessoa”, disse ele em entrevista à Smashing Interviews.

Anos mais tarde, seu talento ajudaria a criar outro fenômeno mundial: Friends. Burrows dirigiu o episódio piloto da série estrelada por Jennifer Aniston, Courteney Cox, Lisa Kudrow, Matt LeBlanc, Matthew Perry e David Schwimmer, e percebeu rapidamente que havia algo especial naquele grupo.

O diretor James Burrows (ao centro) com o elenco de Friends em especial de sua carreira. — Foto: Chris Haston /NBC

Eu tinha um bom pressentimento sobre Friends e soube duas coisas imediatamente: primeiro, eu não tinha tempo para dirigi-lo, e segundo, eu tinha que dirigi-lo”, contou o diretor ao relembrar sua participação na produção.

Segundo Burrows, a conexão com os seis protagonistas aconteceu desde o primeiro encontro. Antes da estreia da série, ele levou o elenco para Las Vegas e entregou cerca de US$ 200 para cada integrante apostar nos cassinos. A ideia era proporcionar um momento de diversão antes da fama que viria com a série.

Esta é a última chance de vocês manterem o anonimato. Depois que a série for ao ar, vocês nunca mais vão conseguir ir a lugar nenhum sem serem assediados”, escreveu em sua autobiografia. Na época, os atores ainda não imaginavam que se tornariam alguns dos rostos mais conhecidos da televisão mundial.

O universo de “Friends” se tornou um dos maiores símbolos da cultura pop mundial. — Foto: Divulgação

Outro grande marco da carreira foi Will & Grace, série que ajudou a ampliar a representação LGBTQIA+ na televisão americana. Burrows dirigiu todos os episódios exibidos entre 1998 e 2006 e defendia que a comédia também poderia ser uma ferramenta de aproximação e mudança.

Ao recordar o episódio piloto da produção, ele contou ao The Hollywood Reporter que um executivo da NBC havia questionado a quantidade de piadas envolvendo sexualidade. A resposta do diretor mostrou sua confiança no projeto: “Se não for aqui, onde?”.

Ao longo da carreira, Burrows também comandou os episódios pilotos de Two and a Half Men e The Big Bang Theory, além de centenas de outros episódios de séries de sucesso. Seu trabalho foi reconhecido com 46 indicações ao Emmy e 11 vitórias.

O elenco e os produtores de ‘Will & Grace’ comemorando suas vitórias no Emmy em 2000 — Foto: GettyImages

Em 2016, recebeu uma homenagem especial da NBC com a presença dos elencos de Friends e Will & Grace. Na ocasião, brincou dizendo que estava feliz por receber aquele reconhecimento enquanto ainda estava vivo. Ao relembrar sua trajetória, resumiu a carreira com números impressionantes: “40 anos, 1.000 shows, 5.000 dias de ensaio, 10.000 reescritas, 500.000 anotações da emissora e um milhão de risadas”.

Mas o maior legado de James Burrows não está apenas nos prêmios ou na quantidade de episódios dirigidos. Colegas e familiares destacaram sua generosidade, sua capacidade de lembrar o nome de cada pessoa que trabalhava ao seu lado e seu talento para fazer todos se sentirem parte da história.

James Burrows deixa a esposa Debbie Easton, quatro filhas e sete netos. Sua influência permanece viva cada vez que alguém revê uma conversa entre amigos no Central Perk, uma noite no bar de Cheers ou qualquer uma das cenas que ajudaram a provar que grandes histórias nascem, principalmente, de personagens humanos e verdadeiros.

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