John Galliano será o tema da próxima exposição do Costume Institute

Há estilistas que criam roupas. Outros constroem narrativas. John Galliano sempre pertenceu ao segundo grupo. Dono de uma das carreiras mais brilhantes e controversas da história da moda, o designer britânico será o protagonista da grande exposição de primavera de 2027 do Costume Institute, no Metropolitan Museum of Art (Met), em Nova York.

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Anunciada no fim de julho, a mostra “John Galliano: Horizontes” representa um marco histórico. Em mais de oito décadas de existência do Costume Institute, Galliano torna-se apenas o terceiro estilista vivo a receber uma exposição monográfica da instituição. Antes dele, apenas Yves Saint Laurent, em 1983, e Rei Kawakubo, da Comme des Garçons, em 2017, receberam essa distinção.

Mais do que celebrar uma trajetória de sucesso, a exposição propõe um olhar amplo sobre um criador cuja obra revolucionou a alta-costura e cuja vida pessoal também provocou profundas reflexões sobre responsabilidade, cancelamento e reconstrução.

Um contador de histórias que transformou a moda

Desde a coleção de formatura “Les Incroyables“, apresentada em 1984 na Central Saint Martins, Galliano demonstrava que sua criatividade extrapolava os limites da passarela. Inspirado pela França pós-Revolução e pela estética New Romantic, o desfile chamou tanta atenção que foi comprado integralmente pela tradicional loja britânica Browns, lançando imediatamente seu nome no cenário internacional.

A coleção “Les Incroyables”, apresentada em 1984, revelou o talento de Galliano e marcou sua entrada na moda internacional — Foto: Getty Images

Ao longo das décadas seguintes, Galliano consolidou um estilo próprio, marcado pela teatralidade, pela pesquisa histórica e por uma habilidade singular de transformar referências culturais em roupas carregadas de emoção.

Sua passagem pela Givenchy abriu caminho para um dos capítulos mais marcantes da moda contemporânea: a direção criativa da Christian Dior, onde redefiniu a alta-costura entre os anos 1990 e 2000 com desfiles considerados verdadeiros espetáculos visuais.

Criações da coleção Christian Dior Haute Couture Primavera/Verão 1998, um dos desfiles que consolidaram John Galliano como um dos maiores nomes da alta-costura. —  Foto: Getty Images

Cada coleção parecia um universo completo, onde cinema, literatura, pintura, história e performance dialogavam em construções exuberantes que desafiaram os padrões da moda tradicional.

“Horizontes”: uma viagem pelo processo criativo

Com curadoria de Andrew Bolton, responsável pelas exposições mais emblemáticas do Costume Institute, “Horizontes” pretende ir além das roupas.

A mostra reunirá peças do acervo do museu, acessórios, croquis, cadernos de pesquisa, protótipos e documentos inéditos que ajudam a revelar como Galliano desenvolvia suas coleções.

Segundo Bolton, o objetivo é mostrar como o estilista conectava referências de diferentes épocas, culturas e linguagens para construir novas narrativas.

Em comunicado divulgado pelo museu, o curador define a exposição como uma espécie de cartografia criativa.

“Cada coleção de Galliano começa como uma jornada entre coisas separadas pelo tempo, lugar ou meio (…) ‘Horizontes’ aborda a moda como uma forma de cartografia, mapeando afinidades, tensões e transformações.”

O percurso expositivo acompanhará todas as fases da carreira do estilista: do jovem talento londrino que confeccionava peças a partir de retalhos, passando pelo estrelato na Givenchy e Dior, até sua reinvenção na Maison Margiela.

Entre genialidade e queda

A história de John Galliano, no entanto, não pode ser contada apenas por seus desfiles.

Em 2011, o estilista foi preso em Paris após fazer comentários antissemitas em um bar. O episódio levou à sua demissão imediata da Christian Dior e provocou um dos maiores escândalos da indústria da moda.

Durante anos, Galliano permaneceu afastado dos grandes holofotes. Passou por tratamento de reabilitação e iniciou um lento processo de reconstrução profissional.

Seu retorno aconteceu na Maison Margiela, onde encontrou espaço para recomeçar. Ao longo dos anos seguintes, voltou a conquistar reconhecimento da crítica especializada graças a coleções que recuperaram sua capacidade de unir técnica impecável, emoção e experimentação.

 Looks da coleção Maison Margiela Artisanal 2024, último desfile de alta-costura de John Galliano para a maison e um dos mais aclamados de sua carreira. — Foto: Getty Images

Sua última coleção Artisanal para a maison tornou-se um fenômeno nas redes sociais e reafirmou sua influência sobre uma nova geração de criadores.

Um legado que não ignora as controvérsias

A decisão do Costume Institute também reacendeu discussões sobre como instituições culturais devem abordar figuras marcadas por episódios controversos.

Segundo Anna Wintour, diretora editorial global da Vogue e diretora de conteúdo da Condé Nast, a exposição não pretende apagar esse capítulo da vida do estilista.

Anna Wintour defendeu que a exposição apresente tanto a genialidade quanto os momentos controversos da trajetória de Galliano. — Foto: Reprodução/Instagram

“O trabalho de Galliano combina erudição e criatividade, escuridão e luz. Sua carreira não pode ser reduzida a um único momento, mas esse episódio também faz parte de sua história e será abordado na exposição”, afirmou.

A proposta, portanto, não é separar o artista da pessoa, mas apresentar toda a complexidade de uma trajetória que mistura inovação criativa, fracassos pessoais e reconstrução.

Um dos nomes mais influentes da moda contemporânea

A homenagem chega em um momento especialmente simbólico para Galliano.

Neste ano, vestidos criados por ele para a Dior bateram recordes em um leilão de alta-costura, com peças ultrapassando meio milhão de euros, reforçando o crescente interesse de colecionadores por seu trabalho.

Além disso, o estilista prepara uma colaboração inédita com a Zara. O projeto, previsto para chegar às lojas em setembro, propõe releituras dos arquivos da varejista espanhola sob seu olhar criativo, uma iniciativa que promete aproximar o universo conceitual de Galliano de um público muito mais amplo.

Para Max Hollein, diretor e CEO do Metropolitan Museum of Art, a influência do estilista continua em expansão.

“John Galliano exerceu uma profunda influência na moda nas últimas quatro décadas”, afirmou.

Moda como memória e transformação

Ao dedicar sua próxima grande exposição a John Galliano, o Costume Institute não celebra apenas um designer. Reconhece um criador que transformou o desfile em linguagem artística, ampliou as possibilidades narrativas da moda e influenciou gerações de estilistas ao redor do mundo.

O Costume Institute, no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, receberá a exposição “John Galliano: Horizontes” em 2027 — Foto:  The Metropolitan Museum of Art

Ao mesmo tempo, a mostra propõe uma reflexão contemporânea: é possível admirar uma obra sem ignorar as falhas de quem a criou? “Horizontes” parece responder que compreender um legado exige olhar tanto para os momentos de genialidade quanto para aqueles que desafiam nossa percepção sobre responsabilidade, redenção e permanência.

Mais do que uma retrospectiva, a exposição promete ser um retrato da moda como expressão cultural, capaz de refletir tanto a beleza da criação quanto as complexidades da condição humana.

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