Uma investigação da Polícia Federal aponta que o Banco Master concentrou ao menos R$ 1,87 bilhão em recursos de fundos previdenciários de servidores públicos de estados e municípios até dezembro de 2024, um ano antes da liquidação da instituição financeira pelo Banco Central.
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Segundo documentos obtidos pela investigação, parte desses recursos teria sido direcionada ao banco por meio da compra de letras financeiras, uma espécie de investimento emitido por instituições bancárias para captar dinheiro no mercado. Para a PF, há indícios de que algumas dessas aplicações ocorreram sem critérios técnicos adequados e com exposição considerada excessiva a ativos de alto risco.
“O Banco Master passou a concentrar grande volume de recursos oriundos de diversos regimes próprios de previdência social do país”, afirma um dos trechos do inquérito.
No centro da investigação está o uso de dinheiro destinado à aposentadoria de servidores públicos municipais e estaduais, recursos que, em tese, deveriam seguir regras rígidas de segurança e diversificação.
Cajamar entra no foco da investigação
A apuração ganhou novo capítulo na última quarta-feira (13), quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Off-Balance e cumpriu seis mandados de busca e apreensão ligados ao Instituto de Previdência Social dos Servidores de Cajamar (IPSSC), na Grande São Paulo.
Segundo os investigadores, cerca de R$107 milhões do patrimônio previdenciário municipal foram direcionados entre agosto de 2023 e março de 2024 para investimentos considerados de altíssimo risco.

Desse total, aproximadamente R$ 87 milhões foram aplicados em letras financeiras ligadas ao Banco Master, enquanto cerca de R$ 20 milhões foram destinados ao Banco Daycoval. A PF investiga suspeitas de gestão temerária, deficiência na análise de riscos, falhas de governança e eventual direcionamento das aplicações financeiras.
Embora a investigação não aponte, neste momento, prejuízo direto aos pagamentos de aposentadorias, os investigadores sustentam que houve exposição elevada do patrimônio previdenciário a operações consideradas sensíveis.
O que são os RPPS e por que isso importa
Os chamados Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) funcionam como fundos de aposentadoria de servidores públicos municipais e estaduais.
São estruturas responsáveis por administrar contribuições feitas ao longo de décadas por professores, guardas municipais, profissionais da saúde e outros funcionários públicos. Esses recursos costumam ser aplicados no mercado financeiro para garantir o pagamento futuro de aposentadorias e pensões.
Para especialistas do setor, decisões de investimento em fundos previdenciários exigem critérios técnicos rígidos, avaliação constante de risco e diversificação dos ativos. A preocupação da PF é justamente que parte desses parâmetros possa ter sido ignorada.
Gestores afastados
Além das buscas, a Justiça Federal autorizou o afastamento cautelar de integrantes da estrutura de gestão e do comitê de investimentos do instituto previdenciário de Cajamar.
Entre os investigados estão o ex-diretor executivo do IPSSC, Luiz Henrique Miranda Teixeira, além de integrantes do comitê responsável pelas aplicações financeiras do fundo. Segundo a PF, há risco de ocultação patrimonial e comprometimento das investigações caso os envolvidos permanecessem nos cargos.
As medidas foram autorizadas pela 9ª Vara Criminal Federal de São Paulo.
Relação política aparece no entorno do caso
À época dos investimentos investigados, Danilo Joan (PP) era o prefeito à frente da Prefeitura de Cajamar, ele é atualmente vice-presidente estadual do Progressistas em São Paulo e aliado político do senador Ciro Nogueira. Apesar disso, a PF afirma que Danilo Joan não é alvo desta fase da operação.
A investigação tenta agora entender se houve direcionamento sistemático de recursos previdenciários ao banco antes de sua liquidação.

O que diz a Prefeitura
Em nota, a Prefeitura de Cajamar afirmou que o instituto previdenciário possui autonomia administrativa, financeira e patrimonial, sendo responsável pelas decisões de investimento. A administração municipal também declarou que as aplicações realizadas ocorreram, à época, dentro das normas legais vigentes e que não há confirmação de prejuízo aos pagamentos de aposentadorias e pensões dos servidores.
Segundo a prefeitura, os benefícios seguem sendo pagos normalmente.
O que a investigação tenta responder
Bilhões de reais destinados à aposentadoria de servidores circulam por estruturas financeiras pouco conhecidas da maior parte da população, mas capazes de concentrar riscos elevados em poucas decisões. Agora, a Polícia Federal tenta entender se parte desse dinheiro foi direcionada ao Banco Master apenas como estratégia de mercado ou por influência política e institucional dentro dos próprios fundos previdenciários.









