O último capítulo: morre Benedito Ruy Barbosa, autor de Pantanal e O Rei do Gado, aos 95 anos

Morreu nesta terça-feira (7), aos 95 anos, um dos maiores nomes da teledramaturgia brasileira. Autor de clássicos como Pantanal, O Rei do Gado, Renascer, Cabocla, Sinhá Moça e Terra Nostra, Benedito faleceu em decorrência de complicações causadas por insuficiência renal crônica, na capital paulista.

A informação foi confirmada pelo Hospital do Coração (HCor), ao onde o escritor estava internado, ao g1.

Leia mais: Madonna está de volta com “Confessions II”, novo capítulo de uma de suas eras mais icônicas

Sua morte encerra uma trajetória de mais de seis décadas dedicadas à dramaturgia, mas deixa um legado que dificilmente encontrará um ponto final. Afinal, foi ele quem fez a televisão descobrir que o Brasil também cabia nas fazendas, nos rios, nas plantações de café, nos pampas e no Pantanal.

Enquanto grande parte das novelas era ambientada nas metrópoles, Benedito escolheu outro caminho. Voltou seu olhar para o interior do país e transformou paisagens rurais em cenários de grandes histórias. Mais do que isso: fez da terra, da natureza e das tradições brasileiras personagens tão importantes quanto seus protagonistas.

O homem que colocou o Brasil profundo na televisão

Nascido em 17 de abril de 1931, em Gália, no interior de São Paulo, Benedito Ruy Barbosa cresceu cercado pelo universo rural que mais tarde serviria de inspiração para suas histórias. Antes de conquistar espaço na televisão, trabalhou no rádio, escreveu para o teatro e passou pela publicidade, experiências que ajudaram a moldar seu olhar sensível para a construção de personagens e diálogos.

Benedito Ruy Barbosa, 2008. — Foto: Cícero Rodrigues/Memória Globo
Benedito Ruy Barbosa, 2008. — Foto: Cícero Rodrigues/Memória Globo

Sua estreia como novelista aconteceu na década de 1960, na extinta TV Tupi. Já nos anos seguintes, consolidou um estilo próprio ao escrever produções como Cabocla, Sinhá Moça e Paraíso. Em todas elas, havia um elemento em comum: personagens profundamente ligados às suas origens e histórias que valorizavam a cultura popular, a religiosidade, os costumes do interior e a relação entre o homem e a terra.

Esse olhar contrastava com a tendência da televisão da época, que privilegiava narrativas urbanas. Benedito mostrou que o Brasil rural também possuía dramas universais, romances arrebatadores e conflitos capazes de emocionar milhões de espectadores.

A novela que mudou a história da TV brasileira

Em 1990, Benedito Ruy Barbosa escreveu aquele que se tornaria o maior marco de sua carreira: Pantanal.

"Pantanal" revolucionou a teledramaturgia em 1990 ao apostar em locações reais e na força das paisagens brasileiras. — Reprodução: TV Manchete
“Pantanal” revolucionou a teledramaturgia em 1990 ao apostar em locações reais e na força das paisagens brasileiras. — Reprodução: TV Manchete

Exibida pela extinta TV Manchete, a novela contrariou todas as expectativas. Gravada em locações reais, com fotografia cinematográfica e um ritmo que valorizava a contemplação da natureza, a produção conquistou o público e fez história ao romper a hegemonia da TV Globo no horário nobre.

Juma Marruá, José Leôncio, o Velho do Rio e tantos outros personagens passaram a integrar o imaginário coletivo dos brasileiros. Mais do que um sucesso de audiência, Pantanal redefiniu a forma de fazer televisão no país e provou que a beleza natural do Brasil também podia ser protagonista.

Mais de 30 anos depois, a obra ganhou um remake exibido pela TV Globo em 2022, adaptado por Bruno Luperi, neto de Benedito. O sucesso da nova versão demonstrou que a essência da história permanecia atual e capaz de emocionar diferentes gerações.

Histórias que contaram o Brasil

Depois de revolucionar a dramaturgia com Pantanal, Benedito continuou construindo obras que misturavam entretenimento e reflexão.

Em Renascer (1993), ambientada nas fazendas de cacau da Bahia, explorou temas como herança, poder, religiosidade e os laços familiares. A força da narrativa foi tamanha que, mais de três décadas depois, a novela voltou ao horário nobre em um remake exibido em 2024.

O Rei do Gado (1996) entrou para a história ao unir um romance inspirado em “Romeu e Julieta” aos debates sobre reforma agrária, concentração de terras e os conflitos no campo. Em um momento em que esses assuntos dominavam o cenário político brasileiro, Benedito levou a discussão para milhões de lares sem abrir mão do caráter popular da novela.

 "O Rei do Gado" uniu romance e debate social, abordando temas como reforma agrária e os conflitos no campo. — Foto: Jorge Baumann/Globo
 “O Rei do Gado” uniu romance e debate social, abordando temas como reforma agrária e os conflitos no campo. — Foto: Jorge Baumann/Globo

No fim da década de 1990, foi a vez de Terra Nostra revisitar a imigração italiana no Brasil. A produção retratou os desafios enfrentados pelos imigrantes e destacou sua contribuição para a formação econômica, social e cultural do país. Poucos anos depois, Esperança ampliou esse olhar ao abordar a Europa às vésperas da Segunda Guerra Mundial e o sonho de uma nova vida em terras brasileiras.

Sua última novela inédita, Velho Chico (2016), simbolizou um retorno às origens. Às margens do Rio São Francisco, Benedito voltou a reunir natureza, disputas familiares, política, memória e preservação ambiental em uma narrativa que reafirmava tudo aquilo que sempre marcou sua carreira.

Rodrigo Santoro na primeira fase da novela ‘Velho Chico’ — Foto: Caiuá Franco/Globo

Ao longo de sua trajetória, suas novelas conquistaram dezenas de prêmios, foram exportadas para diversos países e ganharam remakes que aproximaram uma nova geração de espectadores de suas histórias. Sua influência também atravessou a própria família: as filhas Edmara e Edilene Barbosa colaboraram em diferentes projetos, enquanto o neto Bruno Luperi assumiu a missão de adaptar alguns de seus maiores clássicos.

Muito além das novelas

Embora tenha sido reconhecido pelos grandes sucessos da televisão, Benedito Ruy Barbosa nunca se limitou ao entretenimento.

Em suas histórias, discutiu preservação ambiental antes que o tema se tornasse recorrente, retratou o avanço do agronegócio, abordou conflitos por terra, valorizou povos tradicionais, apresentou costumes regionais e ajudou a preservar parte da identidade cultural brasileira em horário nobre.

Sua dramaturgia aproximou o público de diferentes regiões do país e mostrou que o Brasil não podia ser contado apenas a partir dos grandes centros urbanos. Era preciso olhar também para o campo, para os rios, para os sotaques, para as festas populares e para as pessoas que construíram a história longe das capitais.

Um legado que continua vivo

Poucos autores conseguiram construir uma obra tão conectada à identidade brasileira quanto Benedito Ruy Barbosa.

Benedito Ruy Barbosa, 2008. — Foto: Cícero Rodrigues/Memória Globo

Seus personagens continuam vivos na memória do público. Suas novelas seguem sendo reprisadas, estudadas e revisitadas. Seus textos continuam inspirando roteiristas, diretores e novos autores, enquanto suas histórias atravessam gerações sem perder força.

Com sua morte, a televisão brasileira perde um de seus maiores contadores de histórias.

Mas as grandes obras têm uma característica rara: sobrevivem aos seus criadores.

Toda vez que o berrante ecoar em O Rei do Gado, que a onça voltar a correr pelo Pantanal ou que um novo telespectador descobrir uma de suas novelas, Benedito Ruy Barbosa continuará fazendo aquilo que sempre soube fazer melhor: contar o Brasil por meio de suas próprias raízes.

O último capítulo foi escrito nesta terça-feira. O legado, porém, seguirá sendo reprisado por muitas gerações.

Autor

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *