Diretora de “Black Mirror” recusa convite para “Harry Potter” e critica financiamento de transfobia

No universo de Harry Potter, dizer “não” nunca pareceu uma tarefa simples. Para a diretora Ally Pankiw, no entanto, a resposta veio sem hesitação.

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Conhecida por dirigir episódios de Black Mirror e The Great, a cineasta revelou que recusou um convite para comandar episódios da nova adaptação de Harry Potter, produzida pela HBO. E fez questão de explicar publicamente o motivo: não queria associar seu trabalho a um projeto ligado às posições de J.K. Rowling sobre pessoas trans.

Novo elenco de “Harry Potter” reúne atores que darão vida aos personagens da saga na adaptação da HBO— Foto: Divulgação

Pankiw publicou nas redes sociais uma captura de tela de uma conversa com seu representante. Na mensagem, ele pergunta se a resposta para um possível convite para Harry Potter seria um “não” definitivo. A diretora não deixou espaço para dúvidas.

“Absolutely f***ing not!”, respondeu.

Depois, ao compartilhar a conversa, Pankiw resumiu sua decisão em uma frase ainda mais direta: “It simply is this easy to say no to funding transphobia”. A diretora ainda fez uma observação bem-humorada para evitar qualquer confusão: a proposta era para dirigir, e não para atuar na série.

Ally Pankiw, diretora de episódios de “Black Mirror” e “The Great” recusou convite para dirigir a nova série de “Harry Potter” — Foto: Reprodução

A publicação rapidamente chamou atenção não apenas pela franquia envolvida, mas pela forma como Pankiw transformou uma decisão profissional em um posicionamento público. Afinal, recusar um trabalho de uma das maiores propriedades intelectuais da cultura pop significa abrir mão de uma oportunidade importante em uma indústria na qual grandes produções podem representar visibilidade, prestígio e novos contratos.

Mas, para ela, a questão parecia ser justamente outra: qual é o limite entre uma oportunidade profissional e aquilo que um artista está disposto a colocar seu nome para financiar?

Um “não” que ganhou companhia

Pankiw não foi a única diretora a revelar que recusou a produção.

Nos comentários da publicação, Kate Herron, responsável por episódios de Loki e Doctor Who, contou que também recebeu convites para trabalhar na série. E, segundo ela, a resposta precisou ser repetida.

“Eles me perguntaram duas vezes e eu tive que explicar que minha resposta nunca vai mudar de não”, afirmou Herron, em apoio à colega.

Kate Herron, diretora de “Loki” e “Doctor Who”, também afirmou ter recusado convites para trabalhar na nova série — Foto: Reprodução

A declaração adicionou uma nova camada à discussão. Não se trata apenas de uma profissional que recusou uma proposta, mas de duas diretoras com experiência em grandes produções de fantasia e ficção científica que decidiram não participar do projeto.

A nova série de Harry Potter já nasceu cercada por expectativas e também por controvérsias. A produção pretende adaptar novamente os sete livros da saga, desta vez em formato de série, com cada temporada dedicada a uma parte da história. A HBO descreve o projeto como uma adaptação fiel dos livros e confirma J.K. Rowling como produtora executiva.

É justamente a presença de Rowling na produção que mantém acesa uma discussão que ultrapassa Hogwarts.

O conflito entre a obra e a autora

Nos últimos anos, Rowling se tornou uma das figuras mais controversas do entretenimento quando o assunto é identidade de gênero. A autora já rejeitou a caracterização de que seria transfóbica e afirmou respeitar o direito de pessoas trans de viverem de maneira autêntica. Ao mesmo tempo, suas manifestações públicas sobre sexo, gênero e direitos de pessoas trans provocaram fortes críticas de organizações e ativistas LGBTQIA+ e fizeram com que ela fosse associada ao chamado movimento feminista radical trans-excludente, conhecido pela sigla TERF.

A controvérsia chegou a atingir diretamente a relação da autora com parte do elenco original de Harry Potter. Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint se manifestaram em defesa das pessoas trans ao longo dos últimos anos, criando uma espécie de fissura pública entre alguns dos rostos mais conhecidos da franquia e sua criadora.

Daniel Radcliffe, JK Rowling, Emma Watson e Rupert Grint na estreia mundial de ‘Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2’ em Londres, em 7 de julho de 2011 — Foto: GettyImages

Agora, o debate reaparece justamente quando o mundo mágico está prestes a ganhar uma nova geração de atores.

E existe uma ironia difícil de ignorar: uma história construída em torno de personagens que encontram pertencimento justamente por serem diferentes volta às telas em meio a uma discussão real sobre quem se sente, ou não, representado e acolhido por esse mesmo universo.

Dentro do elenco, opiniões diferentes

A controvérsia não está restrita a quem decidiu ficar de fora.

Bel Powley, escalada para interpretar Petunia Dursley na nova produção, afirmou recentemente que discorda fortemente das posições de Rowling sobre identidade de gênero. A atriz declarou seu apoio à comunidade trans e defendeu que pessoas trans tenham segurança, dignidade, respeito e aceitação. Ao mesmo tempo, Powley revelou manter uma relação afetiva com a obra e com o universo criado por Rowling.

Outro exemplo é Paapa Essiedu, escolhido para interpretar Severus Snape. O ator assinou, ao lado de centenas de profissionais do cinema e da televisão, uma carta em defesa das comunidades trans, não binárias e intersexo. O documento pedia que instituições da indústria audiovisual adotassem medidas para proteger essas pessoas contra discriminação e assédio.

A situação de Essiedu ganhou ainda mais repercussão porque ele fará parte justamente de uma produção associada a Rowling. A própria autora afirmou, em 2025, que não tinha poder para demitir o ator e que, mesmo se tivesse, não usaria essa possibilidade para retirar seu emprego por causa de suas opiniões legalmente protegidas.

J.K. Rowling, autora dos livros de “Harry Potter”, é produtora executiva da nova série da HBO — Foto: Reprodução

O cenário, portanto, está longe de ser preto no branco. Há quem recuse participar, quem aceite trabalhar na produção e manifeste publicamente discordância em relação à autora e quem simplesmente prefira separar sua relação com a obra das opiniões de sua criadora.

O novo “Harry Potter” chega em meio ao debate

Enquanto a discussão continua fora das telas, a produção segue avançando.

O elenco da série já conta com Dominic McLaughlin como Harry Potter, Arabella Stanton como Hermione Granger e Alastair Stout como Ron Weasley, além de nomes como John Lithgow, Janet McTeer, Nick Frost, Paapa Essiedu e Bel Powley. A HBO confirmou que a primeira temporada terá oito episódios.

E a segunda temporada também já começa a ganhar forma. Nicholas Hoult foi anunciado recentemente como Gilderoy Lockhart, o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas que aparece em Harry Potter e a Câmara Secreta.

A primeira temporada está prevista para chegar no Natal de 2026, dando início a uma nova versão de uma história que, para milhões de pessoas, marcou a infância e a adolescência.

Mas antes mesmo de Hogwarts abrir novamente seus portões, a produção já enfrenta uma questão que nenhuma varinha pode resolver: até que ponto é possível separar uma obra de quem a criou?

Para Ally Pankiw, a resposta parece simples. Entre a chance de dirigir Harry Potter e a decisão de não associar seu trabalho ao que considera financiamento da transfobia, ela escolheu dizer não.

E, desta vez, não precisou de feitiço nenhum para deixar sua posição clara.

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