Quem anda pelas ruas de São Paulo e de municípios da região metropolitana provavelmente já se deparou com uma cena que começa a parecer parte da paisagem urbana: uma nova academia ocupa um imóvel grande, instala aparelhos, iluminação e catracas; algumas quadras adiante, uma adega acende seus letreiros, enche os refrigeradores e começa a receber clientes.
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Às vezes, nem é preciso andar tanto.
Academias e adegas, dois estabelecimentos associados a hábitos aparentemente contraditórios, ganharam espaço simultaneamente nos bairros brasileiros. Enquanto um vende exercício, condicionamento físico e bem-estar, o outro encontrou mercado no consumo de bebidas, na conveniência e na socialização.
A impressão de que há academias surgindo por todos os lados encontra respaldo nos números.
O Panorama Setorial Fitness Brasil aponta que o país passou de 22.581 centros de atividades físicas com CNPJ ativo em 2015 para 62.718 em 2025, crescimento próximo de 178% em apenas uma década. Mantido o ritmo de expansão, a projeção apresentada pelo levantamento é que o Brasil ultrapasse 70 mil estabelecimentos em 2027.
O avanço não ficou restrito às regiões mais ricas das grandes cidades. Segundo o levantamento, a expansão também alcançou municípios do interior, periferias e mercados anteriormente menos explorados pelo setor.
No outro lado dessa transformação está um comércio que ganhou características próprias, sobretudo em São Paulo.
A palavra “adega”, nesse contexto, já não descreve necessariamente aquele espaço tradicional destinado ao armazenamento de vinhos. Nas periferias paulistas, o termo passou a identificar estabelecimentos que funcionam como lojas de bebidas e conveniência, vendendo cerveja, destilados, energéticos, refrigerantes, gelo e outros produtos, muitas vezes com atendimento noturno e delivery.
O fenômeno não nasceu ontem.
Dados do Sebrae baseados nos registros da Receita Federal mostram que o comércio varejista de bebidas experimentou uma explosão durante a pandemia. Entre janeiro e outubro de 2020, 48,4 mil novas distribuidoras varejistas de bebidas foram registradas no país, número 76% superior ao observado no mesmo período anterior.
No primeiro semestre de 2021, o movimento continuou: foram 38.289 formalizações de MEIs no comércio varejista de bebidas, ante 20.778 no mesmo período de 2020, alta superior a 84%.
Separados, os números contam duas histórias de crescimento.
Juntos, ajudam a explicar uma transformação mais ampla.
O brasileiro que treina não necessariamente deixou de beber. E aquele que frequenta uma adega não necessariamente abandonou a preocupação com saúde, aparência ou atividade física. Academia e adega podem disputar imóveis comerciais, mas não precisam disputar o mesmo consumidor. Muitas vezes, atendem a mesma pessoa em horários diferentes.
Da academia de bairro ao negócio de escala
Poucos personagens representam tão claramente a transformação do mercado fitness brasileiro quanto Edgard Corona, fundador do Grupo Smart Fit.
Aos 70 anos, Corona continuava treinando diariamente e acompanhando a operação da empresa que ajudou a transformar uma atividade antes concentrada em academias tradicionais em um negócio de grande escala. No fim de 2025, o grupo havia alcançado 2.084 academias em 16 países e mais de 5 milhões de clientes.
A expansão é significativa também porque demonstra uma mudança no modelo econômico das academias.

Durante décadas, matricular-se em uma academia podia significar frequentar um estabelecimento independente, geralmente administrado pelo próprio proprietário e concentrado em determinado bairro. O crescimento das grandes redes modificou essa dinâmica.
Entraram em cena unidades maiores, planos padronizados, mensalidades recorrentes, aplicativos, equipamentos em escala industrial e, em determinados modelos, funcionamento durante 24 horas.
A academia deixou de depender exclusivamente do público disposto a pagar por um serviço considerado especializado e passou a perseguir volume.
É uma lógica semelhante à utilizada por outros negócios de assinatura: ampliar a base de clientes, diluir custos fixos e manter pagamentos recorrentes.
A própria Smart Fit é um exemplo extremo dessa estratégia. Somente em 2025, a companhia acrescentou 341 unidades à sua operação, encerrando o ano com mais de 2.000 academias.
Mas as grandes redes são apenas uma parte do fenômeno.
Dados do Observatório do Sebrae mostram a dimensão pulverizada do setor de academias e atividades físicas: a esmagadora maioria das empresas registradas nesse universo é formada por microempresas e empresas de pequeno porte. O segmento também empregava mais de 186 mil trabalhadores em 2025, segundo dados compilados pela instituição.
É justamente essa combinação, redes gigantes de um lado e milhares de pequenos empreendedores do outro, que ajuda a colocar academias em regiões onde antes elas eram escassas.
E então vieram as adegas
Se as academias encontraram uma fórmula baseada em recorrência, escala e proximidade, as adegas prosperaram por outra combinação: conveniência, consumo imediato e baixo grau de complexidade percebida para a entrada no negócio.
O impulso mais evidente aconteceu durante a pandemia.
Com bares e restaurantes submetidos a restrições, o comércio de vizinhança ganhou relevância. A compra de bebidas por aplicativos e canais digitais também entrou definitivamente na rotina de uma parcela dos consumidores.
O Sebrae identificou justamente esse movimento ao analisar a abertura de distribuidoras em 2020. Os meses de julho, agosto, setembro e outubro daquele ano registraram os maiores números de novos negócios do segmento. A entidade apontou ainda a consolidação dos aplicativos e do comércio eletrônico como canais importantes para a venda de bebidas.
Em 2021, o comércio varejista de bebidas apareceu entre as dez atividades com maior número de formalizações do país, com 73.526 registros, segundo levantamento do Sebrae.
O que nasceu ou ganhou força em uma circunstância excepcional acabou permanecendo nas ruas.
E, em São Paulo, adquiriu identidade própria.
Um exemplo dessa transformação apareceu ainda em 2020, quando o chamado “Chevette”, combinação de bebida alcoólica, refresco em pó e gelo de água de coco, virou fenômeno entre jovens da capital e da região metropolitana.
Dayana Sousa Silva, então com 34 anos e proprietária da Imperium Adega, na Vila Regente Feijó, zona leste paulistana, relatou naquele período que a bebida havia substituído outras modas entre o público jovem. O produto chegou a representar aproximadamente metade dos drinques vendidos pelo estabelecimento.

Na vizinha Água Rasa, a Adega 77 chegava a comercializar aproximadamente 80 unidades da bebida nos fins de semana. Raywillys de Souza, que trabalhava no local, relatou também aumento dos pedidos por delivery durante a pandemia.

Era um pequeno retrato de uma mudança maior: a adega havia deixado de ser somente o lugar onde alguém passava para comprar uma garrafa. Em alguns bairros, tornara-se parte da cultura de lazer local.
Dois negócios opostos… ou nem tanto?
É justamente aqui que a aparente contradição começa a desaparecer.
Uma academia vende algo que pode ser resumido em uma promessa de longo prazo: treine hoje para ter resultados amanhã.
A adega opera quase no sentido inverso: atende uma demanda imediata por conveniência, consumo e entretenimento.
Uma comercializa disciplina. A outra, recompensa.
Isso não significa, porém, que existam dois grupos completamente separados de consumidores.
A vida cotidiana contemporânea comporta comportamentos que décadas atrás poderiam parecer incompatíveis. Uma pessoa pode controlar calorias durante parte da semana, treinar musculação cinco vezes, correr, utilizar relógios para acompanhar o gasto energético e, ainda assim, beber cerveja com amigos no sábado.
Não há necessariamente incoerência econômica nisso.
Há ocasiões de consumo diferentes.
É essa fragmentação dos hábitos que permite que negócios aparentemente antagônicos prosperem simultaneamente.
O mesmo consumidor pode pagar a mensalidade de uma academia e comprar bebidas no comércio do bairro. Pode pedir suplemento alimentar pela manhã e gelo e energético à noite.
O corpo virou investimento, mas o lazer não desapareceu.
O bairro voltou ao centro do consumo
Existe ainda outra explicação para a proliferação dos dois estabelecimentos: localização.
Academias e adegas são negócios profundamente dependentes de proximidade.
Poucas pessoas querem atravessar uma cidade todos os dias para fazer musculação quando existe uma academia a cinco minutos de casa. Da mesma forma, quem procura gelo, cerveja ou refrigerante durante uma confraternização tende a privilegiar rapidez.
O comércio de bairro oferece exatamente isso.
A pandemia acelerou uma tendência que já existia: consumidores redescobriram estabelecimentos próximos de casa. No mercado de bebidas, esse efeito foi particularmente visível.
Nesse sentido, academia e adega pertencem à mesma economia da conveniência.

Uma precisa estar perto porque frequência é fundamental.
A outra precisa estar perto porque rapidez é parte do produto.
O endereço deixa de ser apenas um lugar onde o estabelecimento funciona e se transforma em vantagem competitiva.
É também uma das razões pelas quais unidades podem aparecer tão próximas umas das outras.
Empreender onde existe demanda
Há outro componente nessa história: a transformação do empreendedorismo brasileiro.
Abrir uma indústria exige máquinas, cadeia logística complexa, fornecedores especializados e capital elevado. Negócios de serviços e comércio local apresentam, em determinados modelos, barreiras de entrada menores.
Isso não significa que sejam investimentos simples, muito menos garantia de lucro.
Uma academia exige equipamentos, imóvel adequado, profissionais, manutenção, energia e número suficiente de alunos para sustentar custos fixos elevados.
Uma adega precisa administrar estoque, capital de giro, fornecedores, refrigeração, licenças, segurança e perdas, além de competir com supermercados, aplicativos, atacarejos e outros estabelecimentos semelhantes.
A facilidade aparente de abrir um negócio não equivale à facilidade de fazê-lo sobreviver.
Esse detalhe é especialmente importante porque a proliferação de estabelecimentos pode produzir uma falsa impressão: se todo mundo está abrindo, deve ser fácil ganhar dinheiro.
Não necessariamente.
Quanto mais negócios entram em um mercado, maior tende a ser a disputa pelos mesmos clientes.
O outro lado da multiplicação das adegas
A expansão do comércio de bebidas também trouxe problemas que não podem ser ignorados.
Barulho, ocupação de espaços públicos, venda irregular, procedência de produtos e fiscalização passaram a fazer parte do debate em cidades onde esses estabelecimentos se multiplicaram.
A discussão ganhou dimensão ainda maior após os episódios envolvendo bebidas contaminadas com metanol em São Paulo.
Em janeiro de 2026, a Polícia Civil realizou uma operação em uma adega de Cidade Tiradentes, na zona leste da capital, após a morte de uma adolescente de 15 anos que teria consumido bebidas compradas no estabelecimento. A causa da morte e a eventual relação das bebidas comercializadas no local estavam sob investigação. O proprietário acabou preso por outros motivos: segundo as autoridades, havia ligação clandestina de energia e armazenamento irregular de fogos de artifício.

O episódio não permite generalizações sobre milhares de comerciantes regulares, mas expôs um problema central de qualquer mercado que cresce rapidamente: fiscalização e rastreabilidade precisam acompanhar a expansão.
No comércio de bebidas alcoólicas, saber de onde veio uma garrafa não é detalhe burocrático. É questão de segurança.
A academia também mudou de função
Do outro lado da rua, o crescimento das academias tampouco pode ser explicado apenas pela vontade de emagrecer.
O ambiente fitness passou a ocupar um espaço social que anteriormente pertencia a clubes, associações e outros ambientes comunitários.
A academia é lugar de exercício, mas também de convivência.
Pessoas passam uma, duas ou mais horas nesses espaços. Criam amizades, conhecem parceiros, conversam com funcionários e incorporam o treinamento à identidade pessoal.
Redes sociais intensificaram esse processo.
O treino deixou de terminar quando o aluno guarda o último halter. Ele continua em fotografias, vídeos, aplicativos de corrida, registros de carga, comparações de evolução física e conteúdos sobre alimentação.
O fitness deixou de ser apenas uma atividade e se transformou, para parte dos consumidores, em estilo de vida.

Isso amplia enormemente o mercado potencial.
E os números mostram o tamanho dessa transformação: sair de 22,5 mil para mais de 62 mil centros de atividades físicas em dez anos significa acrescentar, em média, milhares de estabelecimentos ao mercado brasileiro a cada ano.
A cidade entre a catraca e o balcão
Talvez seja justamente por parecerem tão diferentes que academias e adegas chamem atenção quando aparecem juntas.
Uma anuncia “projeto verão”.
A outra enche o freezer para sexta-feira.
Uma abre às 5h para receber quem treina antes do trabalho.
A outra pode permanecer funcionando madrugada adentro.
Uma vende a ideia de superar limites.
A outra vende o momento em que, pelo menos durante algumas horas, o consumidor quer esquecê-los.
Mas, economicamente, elas têm mais em comum do que parece.
As duas dependem de fluxo constante de pessoas. As duas valorizam localização. As duas se beneficiam da conveniência. As duas encontraram novas formas de alcançar consumidores por meios digitais. E ambas fazem parte de mercados capazes de se pulverizar pelos bairros.

A multiplicação desses estabelecimentos também ajuda a contar a história das cidades brasileiras depois da pandemia.
Trabalhar, comprar, treinar e se divertir passaram a acontecer mais perto de casa.
Ao mesmo tempo, saúde e prazer deixaram de ocupar necessariamente lados opostos da rotina.
O consumidor pode desejar envelhecer melhor sem abrir mão da cerveja de sábado. Pode buscar músculos sem abandonar a confraternização. Pode contar calorias na segunda-feira e esquecer completamente a conta na sexta.
É nessa aparente contradição que academia e adega encontram espaço para coexistir.
Não são simplesmente dois comércios que, por coincidência, começaram a abrir ao mesmo tempo.
São sintomas de uma mesma transformação.
De um lado está uma sociedade cada vez mais preocupada com corpo, aparência, desempenho e longevidade. Do outro, permanece uma necessidade tão antiga quanto a própria cidade: encontrar pessoas, beber, conversar e ocupar o tempo livre.
Entre uma coisa e outra existe o bairro.
E talvez seja por isso que, em tantas ruas brasileiras, a paisagem contemporânea possa ser resumida em duas portas iluminadas: uma para entrar e treinar; outra para parar depois do treino.
Nota de Apuração
*Há evidência muito mais robusta e atual para quantificar o boom das academias do que para afirmar que o número de “adegas” continua crescendo na mesma velocidade em 2025/2026. Isso ocorre, entre outras razões, porque “adega” é um nome comercial popular, especialmente em São Paulo, e não uma categoria estatística exclusiva: estabelecimentos podem aparecer nos registros como comércio varejista ou distribuidora de bebidas. Por isso, preferi não fabricar uma equivalência estatística entre os dois setores. Os dados disponíveis comprovam uma explosão do comércio varejista de bebidas sobretudo a partir de 2020/2021; já o avanço das academias permanece claramente mensurável até 2025.









