O candidato à Presidência da República pelo Missão, Renan Santos, defendeu, nesta quarta-feira (26), que o Brasil desenvolva armas nucleares, faça uma nova reforma da Previdência e adote uma postura de resistência a decisões judiciais que considere ilegais. As declarações foram dadas durante entrevista concedida aos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro.
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A sabatina integra a série de entrevistas da Globo com os candidatos ao Palácio do Planalto. Renan foi o terceiro presidenciável ouvido pela emissora, depois de Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD). A programação segue nesta quinta-feira (27), com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e terá ainda Flávio Bolsonaro (PL) e Augusto Cury (Avante).
Ao longo da entrevista, Renan apresentou um programa marcado pelo endurecimento na segurança pública, forte redução de despesas do Estado, mudanças nas regras previdenciárias e uma política externa orientada pelo aumento da capacidade militar brasileira.
Candidato diz que decisões judiciais ilegais não devem ser cumpridas
Um dos momentos de maior tensão da entrevista ocorreu quando Renan foi questionado sobre declarações anteriores nas quais havia afirmado que poderia descumprir decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) que considerasse ilegais.
O candidato procurou diferenciar uma eventual resistência a decisões específicas de um enfrentamento geral ao Judiciário. Segundo ele, não se trata de ignorar todas as determinações da Corte, mas de não cumprir decisões que, em sua avaliação, ultrapassem os limites da legalidade.
“Qualquer cidadão, diante de uma decisão ilegal, pode não cumprir. Na verdade, ele tem um dever de não cumprir”, afirmou.
Renan sustentou que uma determinação judicial considerada ilegal poderia produzir consequências graves e, por isso, não deveria ser automaticamente obedecida.
A questão coloca no centro da campanha do candidato um tema recorrente de sua atuação política: a relação entre os Poderes da República e os limites da atuação do Judiciário. Uma eventual política de enfrentamento institucional, contudo, dependeria da interpretação das competências previstas na Constituição e poderia provocar conflitos entre o Executivo, o Legislativo e o Supremo.
Nova reforma da Previdência é defendida como necessária
Na área econômica, Renan afirmou que pretende promover uma nova reforma da Previdência caso seja eleito.
O candidato disse que as mudanças seriam necessárias para evitar uma deterioração das contas públicas e criticou adversários que, segundo ele, evitariam discutir medidas impopulares durante a campanha eleitoral.
“Vamos precisar fazer outra reforma da Previdência. Vai quebrar em três anos, você não tem aposentadoria”, declarou.
A proposta está associada ao programa de ajuste fiscal defendido pelo Missão. O plano apresentado pela candidatura prevê uma economia de aproximadamente R$ 1,1 trilhão até 2031, por meio de uma combinação de redução de despesas, mudanças em benefícios, revisão de isenções e alterações na estrutura do gasto público.
Entre as medidas previstas estão mudanças na forma de reajuste de aposentadorias e benefícios previdenciários. O programa também propõe que benefícios deixem de acompanhar automaticamente a valorização do salário mínimo, passando a ter correção vinculada à inflação.
Corte de R$ 1 trilhão e mudanças em saúde e educação
Renan também reafirmou a intenção de reduzir em cerca de R$ 1 trilhão os gastos públicos, afirmando que a medida teria como objetivo interromper a trajetória de crescimento da dívida e abrir espaço para investimentos.
O candidato defendeu ainda a desvinculação dos pisos constitucionais destinados a saúde e educação. Na avaliação dele, a regra atual não leva em conta as diferentes necessidades de municípios e regiões brasileiras.
Como exemplo, citou cidades do interior do Rio Grande do Sul que passaram por envelhecimento populacional e redução do número de crianças.
A proposta significaria uma mudança relevante no modelo de financiamento das duas áreas, que atualmente possuem vinculações constitucionais. Renan argumentou que municípios com populações diferentes deveriam ter maior liberdade para direcionar seus recursos conforme as demandas locais.
O candidato também relacionou a redução de gastos à possibilidade de diminuir os juros e estimular investimentos privados em infraestrutura.
Renan defende que Brasil tenha armas nucleares
Na política externa e de defesa, Renan Santos voltou a defender que o Brasil desenvolva armas nucleares.
Segundo o candidato, a posse desse tipo de armamento seria necessária para que o país ampliasse sua capacidade de influência internacional e pudesse negociar em condições mais equilibradas com grandes potências.
“Se o Brasil quiser ser uma das cinco maiores nações do mundo, que se presta a sentar na mesa com Estados Unidos, Índia, Rússia e China, ele vai precisar ter soberania”, afirmou.
Renan reconheceu, entretanto, que o Brasil não teria condições de desenvolver armas nucleares militares imediatamente e estimou que isso não ocorreria nos próximos dez anos.
Ele também argumentou que não considera necessário um estudo técnico específico para defender a ideia, porque sua posição estaria baseada em uma avaliação geopolítica sobre a distribuição do poder militar no mundo.
O candidato citou a existência de arsenais nucleares entre algumas das principais potências militares como argumento para sua proposta.
Saída do Tratado de Não Proliferação
A posição de Renan vai além da defesa abstrata de um programa nuclear militar. O candidato afirmou que o Brasil deveria deixar o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP).
Na entrevista, mencionou a Coreia do Norte como exemplo de país que abandonou o acordo e passou a desenvolver seu próprio arsenal.
Renan reconheceu que considera o regime norte-coreano opressivo, mas afirmou que a capacidade militar do país contribuiu para aumentar seu poder de dissuasão internacional.
A proposta representa uma ruptura com a política tradicional brasileira de defesa, baseada no uso pacífico da energia nuclear e no compromisso internacional com a não proliferação de armas atômicas.
Segurança pública ocupa lugar central na candidatura
A segurança pública é um dos principais eixos da campanha de Renan Santos. O candidato afirmou que pretende declarar guerra ao crime organizado já no início de um eventual governo e recuperar áreas dominadas por facções criminosas.
Segundo ele, a meta seria retomar os territórios controlados por organizações criminosas e impedir que seus integrantes voltem rapidamente às ruas.
Renan classificou a situação brasileira como uma “guerra declarada unilateralmente” pelo crime organizado e afirmou que milhões de pessoas vivem sob influência direta ou indireta de grupos criminosos.
A estimativa de 40 milhões de brasileiros citada pelo candidato, porém, foi classificada como “não é bem assim” pela equipe de checagem. Levantamentos citados na checagem apontam números diferentes, dependendo do conceito utilizado para medir a presença ou influência de organizações criminosas.
Estado de defesa e “regime de exceção” em favelas
Na tentativa de explicar como pretende recuperar áreas dominadas por facções, Renan defendeu a adoção de medidas de exceção em territórios sob controle criminoso.
O candidato afirmou que pretende recorrer ao estado de defesa em determinadas regiões e descreveu a proposta como um “regime de exceção” em favelas.
A estratégia tem inspiração declarada nas políticas de segurança implementadas pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele.
Renan também defendeu alterações na legislação penal para aumentar a punição de integrantes de organizações criminosas. Seu plano de governo incorpora o chamado “Direito Penal do Inimigo”, conceito que prevê tratamento jurídico mais severo para determinados grupos classificados como ameaças ao Estado.
A proposta é uma das mais controversas do programa do candidato porque envolve mudanças profundas nas garantias processuais e na maneira como o Estado trata pessoas acusadas de integrar organizações criminosas.
Plano prevê dez grandes presídios federais
Como parte da política de segurança, Renan afirmou que pretende destinar R$ 6 bilhões para a construção de dez novos presídios federais.
O candidato falou em unidades com capacidade de 30 mil a 40 mil presos cada.
A proposta representa uma expansão de escala muito superior ao sistema penitenciário federal existente, que atualmente possui cinco unidades de segurança máxima voltadas principalmente para lideranças de organizações criminosas.
Renan argumentou que não seria suficiente prender integrantes de facções se eles retornarem rapidamente às ruas. Por isso, defendeu alterações na execução penal e uma política de encarceramento de longo prazo para criminosos considerados de alta periculosidade.
Modelo de Bukele influencia programa de segurança
A experiência de Nayib Bukele em El Salvador aparece como uma das principais referências do programa de segurança de Renan.
O candidato afirmou que pretende adotar medidas semelhantes às utilizadas pelo governo salvadorenho para combater organizações criminosas, incluindo operações de retomada territorial e maior concentração de presos de alta periculosidade em unidades de segurança máxima.
Ao defender uma política mais agressiva contra criminosos, Renan utilizou uma retórica de confronto direto.
“Eu acho que o sangue que tem que jorrar não é o dele. O sangue que tem que jorrar é o do bandido”, afirmou, ao comentar um caso de violência em São Paulo.
Direito ao voto não será restringido, diz candidato
Renan também foi questionado sobre uma declaração de Orlando Lima, colaborador do programa de governo do Missão, segundo a qual pessoas sem propriedade e beneficiárias de programas sociais não seriam “cidadãos plenos” e, portanto, não deveriam ter direito ao voto.
Renan rejeitou a ideia de restringir o sufrágio.
O candidato classificou a manifestação de Lima como uma opinião pessoal e afirmou que ela não representa sua posição.
Renan, entretanto, defendeu a participação do colaborador na elaboração do chamado Livro Amarelo, programa de governo da legenda. Segundo ele, mais de 200 pesquisadores participaram da construção do documento.
Feminicídio e violência contra a mulher
Questionado sobre a ausência de políticas específicas de combate ao feminicídio em seu programa, Renan afirmou que a questão estaria inserida em uma estratégia mais ampla de segurança pública.
Para o candidato, políticas específicas contra a violência doméstica e o feminicídio devem ser formuladas principalmente por estados e municípios, respeitando o princípio federativo.

Ele afirmou que um eventual governo federal estabeleceria metas de desempenho para governadores e prefeitos, permitindo acompanhar indicadores relacionados à violência contra mulheres e crianças.
Renan argumentou que o governo federal não possui atribuição direta para executar determinadas ações de segurança cotidiana.
Maioria masculina no Missão
Outro ponto abordado durante a entrevista foi a composição interna do partido. Cerca de 92% dos filiados ao Missão são homens, proporção considerada elevada em comparação com outras siglas.
Renan atribuiu o desequilíbrio, entre outros fatores, a episódios de violência política contra mulheres ligadas ao partido.
Ele citou a vereadora por São Paulo Amanda Vettorazzo, coordenadora de sua campanha, que, segundo o candidato, teria sido vítima de perseguição, imagens falsas produzidas digitalmente e violência contra familiares.
Para Renan, esses episódios contribuem para afastar mulheres da atividade política.
Arthur do Val e declarações sobre ucranianas
A entrevista também abordou o deputado estadual cassado Arthur do Val, aliado político de Renan, que ficou conhecido por declarações feitas durante viagem à Ucrânia, em 2022, no contexto da guerra contra a Rússia.
Em áudio enviado a um grupo privado, Do Val fez comentários de teor sexual sobre mulheres ucranianas.
Renan classificou as declarações como inadequadas, mas ressaltou que o conteúdo foi produzido em um ambiente privado e lembrou que o político perdeu o mandato.
Mudanças climáticas entram no debate
Renan foi questionado ainda sobre a ausência de políticas mais detalhadas para enfrentar desastres climáticos em seu programa de governo.
O candidato respondeu que as medidas de prevenção deveriam estar inseridas nos planos de infraestrutura de estados e municípios, principalmente nas regiões consideradas de maior risco.
Ao falar das enchentes no Rio Grande do Sul, afirmou que já existiam planos de manutenção da infraestrutura de contenção de cheias, mas faltariam recursos para executar as obras.
Para Renan, o principal obstáculo seria fiscal: o Estado não conseguiria liberar dinheiro para investimentos porque estaria comprometido com despesas obrigatórias.
A solução apresentada pelo candidato é novamente a redução do gasto público. Segundo ele, as reformas previstas poderiam gerar R$ 1,1 trilhão de economia nos primeiros cinco anos.
Críticas à relação do Brasil com a China
Na política externa, Renan fez críticas contundentes ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O candidato afirmou que o Brasil estaria excessivamente alinhado aos interesses chineses e classificou o país como “vassalo da China”.
Segundo Renan, o governo brasileiro deveria adotar uma política externa mais independente diante da disputa geopolítica entre Estados Unidos e China.
O candidato também criticou manifestações de Lula sobre conflitos internacionais, argumentando que o Brasil deveria evitar posicionamentos que não produzam ganhos concretos para o país.
Terras raras e disputa entre grandes potências
A disputa internacional por minerais estratégicos também apareceu na entrevista.
Renan afirmou que os Estados Unidos não possuem reservas, extração ou capacidade de processamento de terras raras em seu território. A afirmação foi classificada como falsa pela equipe do Fato ou Fake.
Os Estados Unidos possuem reservas desses minerais e contam com produção e processamento no país. A China, entretanto, mantém uma posição dominante no refino mundial de terras raras.
Em outro ponto, Renan acertou ao afirmar que o Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China, segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos.
O tema é considerado estratégico porque esses minerais são utilizados em equipamentos eletrônicos, veículos elétricos, turbinas eólicas e tecnologias relacionadas à indústria de defesa.
“Nova Ordem Mundial”
Renan afirmou que o sistema internacional passará por uma transformação profunda nas próximas décadas.
Para o candidato, a disputa entre Estados Unidos e China, a corrida por minerais estratégicos e o aumento das tensões militares devem produzir uma nova configuração global.
A avaliação de Renan é que o período de estabilidade internacional estaria chegando ao fim e que o Brasil precisaria aumentar sua capacidade de defesa para evitar uma posição de dependência diante das grandes potências.
Nesse contexto, a defesa de armas nucleares aparece como parte de uma estratégia mais ampla de soberania nacional proposta pelo candidato.
Programa prevê mudanças profundas no Estado
As propostas apresentadas por Renan Santos durante a entrevista fazem parte de um programa mais amplo de transformação da estrutura do Estado brasileiro.
Além das medidas de segurança e defesa, o plano do Missão prevê redução expressiva do número de municípios brasileiros, com a fusão de cidades consideradas fiscalmente inviáveis.
O programa também propõe alterações na legislação trabalhista, incluindo a substituição da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) por um modelo baseado em maior negociação direta entre trabalhadores e empregadores, além da extinção da Justiça do Trabalho.
Na área social, Renan defende a substituição do Bolsa Família por frentes de trabalho remuneradas para pessoas em idade economicamente ativa, com atividades voltadas ao atendimento de demandas da comunidade.
Na educação, o partido propõe mudanças no sistema de cotas, priorização da educação básica, ampliação de escolas militares e criação de um Código Nacional de Conduta nas escolas.
Primeira eleição presidencial de Renan
A candidatura de Renan Santos representa a primeira disputa eleitoral dele para a Presidência da República.
Aos 42 anos, o empresário e ativista político é uma das principais lideranças do Movimento Brasil Livre (MBL), organização que ajudou a fundar em 2014 e que ganhou projeção durante as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff.
O partido Missão foi criado em 2025 e passou a representar a transformação do movimento político em uma estrutura partidária formal.
Renan estudou Direito na Universidade de São Paulo (USP), mas não concluiu o curso.
Sua campanha tem como principal bandeira o combate ao crime organizado, acompanhado de uma agenda econômica de forte ajuste fiscal e de uma política externa voltada ao fortalecimento da capacidade militar brasileira.
Entrevistas com presidenciáveis continuam
A entrevista de Renan foi a terceira da série promovida pela Globo com candidatos à Presidência da República. A ordem dos entrevistados foi definida por sorteio, com representantes dos partidos.
Na segunda-feira (24), Romeu Zema foi entrevistado. Na terça-feira (25), foi a vez de Ronaldo Caiado.
Nesta quinta-feira (27), o entrevistado será Luiz Inácio Lula da Silva. Na sexta-feira (28), a emissora ouvirá Flávio Bolsonaro. A série será encerrada no sábado (29), com Augusto Cury.
O primeiro turno das eleições presidenciais está marcado para 4 de outubro de 2026.
A entrevista de Renan Santos, assim como as demais sabatinas, permanece disponível nos canais digitais da emissora. Ao colocar lado a lado propostas sobre economia, segurança, defesa, direitos civis e política externa, a série de entrevistas expõe as diferenças entre os projetos que disputarão o Palácio do Planalto.
No caso de Renan, a combinação entre ajuste fiscal radical, endurecimento penal, medidas de exceção em áreas dominadas pelo crime e defesa de um programa nuclear militar coloca sua candidatura entre as que propõem as mudanças mais profundas na relação entre Estado, sociedade e instituições democráticas.









