De acenos ao bolsonarismo a uma “herança maldita”: os seis principais pontos da entrevista de Romeu Zema à TV Globo

Na estreia da série de entrevistas com candidatos à Presidência da República, Romeu Zema (Novo) tentou ocupar o espaço político à direita sem assumir integralmente a agenda do bolsonarismo. Entrevistado pela TV Globo na segunda-feira (24), o ex-governador de Minas Gerais direcionou boa parte de seu discurso ao Supremo Tribunal Federal (STF), criticou o governo federal e defendeu medidas de caráter liberal na economia.

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A entrevista ocorreu um dia depois de Zema não participar do primeiro debate entre os candidatos ao Palácio do Planalto, realizado pela TV Bandeirantes. Com a ausência, a sabatina na televisão ganhou importância para a estratégia do candidato, que concorre pela primeira vez à Presidência depois de oito anos à frente do governo de Minas.

Ao longo da conversa, conduzida pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, Zema procurou transformar sua experiência como governador em principal argumento eleitoral, ao mesmo tempo em que tentou responder a questionamentos sobre indicadores negativos de sua administração.

A entrevista também expôs contradições e afirmações foram submetidas à checagem para entender: o que seria realidade e o que seria exagero. Entre os temas mais relevantes estiveram a situação fiscal de Minas, a segurança pública, a vacinação contra a Covid-19, as privatizações e a relação com o Judiciário.

Confira os seis principais pontos da entrevista.

1. STF vira principal alvo do discurso de Zema

Sem direcionar ataques nominais a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL), dois dos principais nomes da disputa presidencial, Zema escolheu o Supremo Tribunal Federal como alvo central de suas críticas.

O candidato classificou a Corte como um “tribunal político” ao comentar os processos relacionados aos atos de 8 de janeiro de 2023. Para ele, a depredação das sedes dos Três Poderes deveria ser tratada como vandalismo, e não como tentativa de golpe de Estado.

Zema também falou em “perseguição” contra os envolvidos nos processos e defendeu a possibilidade de anistia ou, alternativamente, que os casos fossem julgados por uma estrutura que, segundo ele, não tivesse caráter político.

Apesar do discurso, o candidato não assumiu explicitamente um compromisso com uma anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

A estratégia permitiu a Zema dialogar com parte do eleitorado identificado com Bolsonaro sem declarar uma adesão completa ao ex-presidente. O movimento é relevante em uma eleição na qual o espaço político da direita deverá ser disputado por diferentes candidaturas.

Em outro momento, Zema classificou o sistema judicial brasileiro como caro e lento. A crítica à Justiça, portanto, apareceu não apenas vinculada aos processos do 8 de janeiro, mas também como parte de uma argumentação mais ampla sobre eficiência do Estado.

2. Acenos à direita, mas tentativa de se diferenciar de Bolsonaro

A aproximação com o eleitorado bolsonarista apareceu em diferentes momentos da entrevista, mas Zema também procurou estabelecer uma diferença em relação a posições adotadas pelo ex-presidente durante a pandemia de Covid-19.

O candidato afirmou ter tomado todas as vacinas contra a doença e declarou acreditar na ciência. Também disse ter recomendado a vacinação infantil quando governava Minas Gerais.

Ao mesmo tempo, afirmou ser contrário à obrigatoriedade da vacinação de crianças.

A posição combina duas mensagens eleitorais: de um lado, Zema tenta afastar-se do negacionismo associado a parcelas do bolsonarismo durante a pandemia; de outro, preserva um discurso de defesa da liberdade individual e de menor intervenção estatal.

Segundo o candidato, o governo deveria priorizar campanhas de conscientização e ampliar a vacinação, mas não punir quem optasse por não se vacinar.

A postura segue uma característica recorrente de sua campanha: aproximar-se da direita sem se apresentar como uma simples continuidade do bolsonarismo.

3. Corrupção: discurso de “outsider” e defesa de apurações

Zema também explorou durante a entrevista a imagem de político distante da estrutura tradicional de poder.

Questionado sobre uma operação da Polícia Federal que identificou suspeitas de irregularidades envolvendo a área ambiental durante sua gestão, o candidato afirmou que os fatos deveriam ser investigados e que não haveria espaço para proteção de envolvidos.

Ele atribuiu à Controladoria-Geral do Estado, órgão subordinado ao Executivo mineiro, a realização de investigações sobre o caso.

O discurso foi utilizado para reforçar a imagem de Zema como gestor que se coloca fora da política tradicional e que defende a apuração de denúncias, mesmo quando elas atingem integrantes de sua própria administração.

Ao comentar o episódio, entretanto, o candidato também ampliou a crítica para o cenário nacional e fez referências à corrupção em Brasília.

A mesma estratégia apareceu quando a entrevista tratava de vacinação. Ao ser questionado sobre a necessidade de ampliar a cobertura vacinal, Zema desviou o foco para a segurança pública e passou a falar sobre criminosos que, segundo ele, representam uma ameaça maior do que muitas doenças.

O movimento revela uma característica marcante da entrevista: quando pressionado sobre um problema específico de sua gestão, Zema frequentemente ampliou o debate para temas nacionais ou para críticas ao governo federal.

4. El Salvador e a contradição envolvendo Nayib Bukele

A segurança pública foi outro eixo importante da entrevista. Zema citou sua visita a El Salvador e elogiou os resultados apresentados pelo governo de Nayib Bukele na redução dos homicídios.

Segundo o candidato, o país teria registrado uma queda extraordinária nos assassinatos e poderia oferecer experiências úteis para o Brasil.

O problema apareceu quando Zema foi questionado sobre as políticas adotadas pelo governo salvadorenho. Embora tenha elogiado os resultados de Bukele, afirmou não concordar com as medidas implementadas pelo presidente de El Salvador.

O candidato, porém, não especificou quais políticas salvadorenhas pretende reproduzir no Brasil.

A questão ganhou ainda mais relevância porque a administração de Bukele é alvo de críticas de organizações de direitos humanos por medidas como prisões em massa, julgamentos coletivos e denúncias relacionadas ao tratamento de suspeitos.

Outro ponto checado posteriormente foi a afirmação de Zema de que El Salvador teria reduzido os homicídios em 99% em quatro anos.

A checagem classificou a declaração como “não é bem assim”. O país realmente apresentou uma redução muito expressiva dos homicídios, mas a comparação utilizada pelo candidato mistura períodos diferentes.

Em 2015, El Salvador registrava 106,3 homicídios por 100 mil habitantes. Em 2019, ano em que Bukele assumiu a Presidência, a taxa havia caído para cerca de 38 homicídios por 100 mil habitantes. Em 2025, chegou a 1,3 por 100 mil.

A redução próxima de 99% ocorreu ao longo de aproximadamente uma década, e não de quatro anos, como afirmou Zema.

O candidato também afirmou ter sido o único presidenciável brasileiro a visitar El Salvador. A informação foi classificada como falsa, já que Flávio Bolsonaro esteve no país em novembro de 2025.

5. Privatizações, Previdência e mudanças nas leis trabalhistas

Na área econômica, Zema manteve o discurso liberal que marcou seus dois mandatos como governador.

O candidato defendeu privatizações de empresas estatais, incluindo Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, sob o argumento de que essas companhias poderiam ser mais eficientes fora do controle direto do Estado.

Também criticou a gestão de empresas públicas e afirmou que algumas delas estariam subavaliadas em razão de problemas administrativos.

Na Previdência, Zema evitou assumir uma proposta imediata de aumento da idade mínima para aposentadoria. Disse que, “por ora”, não pretende elevar o limite, mas afirmou que a questão poderia ser reavaliada diante do aumento da expectativa de vida e da necessidade de equilíbrio das contas públicas.

O ex-governador de Minas, Romeu Zema (Novo), abriu a série de entrevistas da TV Globo com candidatos à Presidência - Foto: Manoella Mello/TV Globo
O ex-governador de Minas, Romeu Zema (Novo), abriu a série de entrevistas da TV Globo com candidatos à Presidência – Foto: Manoella Mello/TV Globo

Uma das alternativas apresentadas pelo candidato para melhorar a arrecadação seria ampliar a formalização do mercado de trabalho.

Zema também defendeu a simplificação das leis trabalhistas e a criação de um regime de trabalho remunerado por hora.

A proposta foi apresentada como uma forma de reduzir a informalidade e facilitar a contratação de trabalhadores.

Dados do IBGE utilizados na checagem do Fato ou Fake mostram que 38,54 milhões de pessoas estavam em situação de informalidade no segundo trimestre de 2026, o equivalente a 37,4% da população ocupada.

Zema também evitou assumir compromisso com a manutenção da atual política de valorização real do salário mínimo. Disse que garantiria, caso eleito, ao menos a reposição da inflação.

O conjunto das propostas reforçou a tentativa do candidato de apresentar-se como gestor empresarial aplicado à administração pública, com foco em redução de custos, privatizações e flexibilização de regras.

6. A “herança maldita” deixada pelos antecessores

O ponto mais delicado para Zema durante a entrevista foi a avaliação de sua própria passagem pelo governo de Minas.

Questionado sobre problemas como o aumento da dívida pública e os índices de feminicídio, o candidato atribuiu parte significativa dos resultados negativos à situação encontrada quando assumiu o Estado.

Zema afirmou ter recebido Minas Gerais “arruinada” e responsabilizou administrações anteriores, principalmente de PT e PSDB, por problemas estruturais.

No caso da dívida, a argumentação do candidato contém um dado verdadeiro, mas exige contexto.

A dívida líquida pública de Minas Gerais era de aproximadamente R$ 106,5 bilhões em dezembro de 2018, antes de Zema assumir. O valor equivalia a cerca de 189% da receita corrente líquida.

Ao final de 2025, a dívida líquida havia chegado a aproximadamente R$ 187,1 bilhões, equivalente a 167,46% da receita corrente líquida.

Ou seja, a relação entre a dívida e a receita caiu durante o período, mas o valor nominal da dívida aumentou significativamente.

Zema também afirmou ter assumido o Estado com déficit de aproximadamente R$ 11 bilhões e deixado as contas com superávit.

A checagem apontou que o déficit de 2018 foi, de fato, de cerca de R$ 11,4 bilhões. Já o superávit de R$ 5,1 bilhões citado pelo candidato corresponde a 2024.

Em 2025, último ano completo de Zema antes de sua saída do governo para disputar a Presidência, o superávit foi de aproximadamente R$ 1,1 bilhão. Para 2026, a projeção apresentada pela Secretaria de Estado de Fazenda é de déficit de cerca de R$ 5 bilhões.

O número de 2024 também foi influenciado por receitas extraordinárias relacionadas aos acordos de Mariana e Brumadinho.

Portanto, a afirmação de Zema sobre a evolução das contas públicas é verdadeira apenas quando acompanhada da ressalva de que o resultado de R$ 5,1 bilhões se refere a um ano específico e contou com receitas extraordinárias.

Feminicídio expõe outro ponto de confronto

A segurança das mulheres foi outro tema no qual Zema foi confrontado com dados de seu governo.

O candidato afirmou que Minas Gerais apresentava uma taxa de feminicídio inferior à média nacional.

A afirmação foi classificada como falsa pela checagem.

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Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, referentes a 2025, Minas Gerais registrou taxa de 1,6 feminicídio para cada 100 mil mulheres, enquanto a média nacional foi de 1,4.

O índice mineiro permaneceu acima da média brasileira pelo segundo ano consecutivo.

A declaração é especialmente relevante porque o feminicídio foi utilizado durante a entrevista como exemplo de uma área em que o candidato precisou explicar resultados de sua administração.

A Copasa e a defesa das privatizações

Outro ponto confirmado pela checagem foi a explicação de Zema sobre o processo de privatização da Companhia de Saneamento de Minas Gerais, a Copasa.

O candidato afirmou que uma mudança feita na Constituição mineira havia estabelecido um quórum de três quintos da Assembleia Legislativa para autorizar a venda de determinadas estatais.

A alteração ocorreu em 2001, durante o governo de Itamar Franco.

Em 2023, Zema apresentou uma proposta para modificar novamente a Constituição estadual. O texto aprovado pela Assembleia Legislativa, porém, manteve a exigência de três quintos dos deputados para autorizações de desestatização.

Em 2025, a Assembleia Legislativa aprovou, por 53 votos a 19, a autorização para a privatização da Copasa.

A companhia acabou privatizada em 2026, tornando-se um dos principais exemplos da agenda de desestatização defendida por Zema.

O que a entrevista revela sobre a estratégia eleitoral de Zema

Mais do que apresentar um programa detalhado de governo, Zema utilizou a entrevista para estabelecer uma identidade política nacional.

Depois de oito anos concentrado na política mineira, o ex-governador precisa transformar a imagem de administrador estadual em uma candidatura competitiva no cenário nacional.

Para isso, combinou quatro elementos principais: liberalismo econômico, discurso anticorrupção, endurecimento na segurança pública e críticas ao Judiciário.

A estratégia também passa por uma equação delicada: disputar o eleitorado de direita sem ficar completamente subordinado ao bolsonarismo.

A defesa das vacinas contra a Covid-19, por exemplo, serve para estabelecer uma diferença em relação ao discurso adotado por Bolsonaro durante a pandemia. Ao mesmo tempo, a oposição à obrigatoriedade da vacinação infantil aproxima Zema de uma parcela do eleitorado que valoriza a liberdade individual.

Na economia, o candidato reforçou seu perfil liberal ao defender privatizações, mudanças nas relações trabalhistas e redução da presença do Estado na atividade empresarial.

Já na política, o STF apareceu como principal antagonista da noite, especialmente diante das discussões sobre o 8 de janeiro e os processos contra os envolvidos na tentativa de ruptura institucional.

O problema para Zema é que parte de suas respostas exigiu explicações adicionais quando confrontada com dados oficiais. As checagens posteriores mostraram que algumas declarações eram verdadeiras, mas careciam de contexto, enquanto outras foram classificadas como falsas.

Uma estreia marcada pela tentativa de ocupar espaço na direita

A primeira entrevista da série presidencial da TV Globo terminou, portanto, com Zema tentando consolidar uma posição própria na disputa.

O candidato não fez da entrevista um confronto direto com Lula ou Flávio Bolsonaro. Preferiu mirar instituições, governos anteriores e adversários genéricos, especialmente o Judiciário e a chamada velha política.

A escolha faz sentido dentro de sua trajetória política. Zema chegou ao governo de Minas em 2019 apresentado como um empresário sem experiência anterior na política tradicional e construiu sua marca em torno da promessa de eficiência administrativa.

Agora, no entanto, a disputa presidencial exige algo diferente: transformar a experiência de gestão estadual em uma narrativa capaz de convencer eleitores de todo o país.

A entrevista mostrou que Zema pretende disputar esse espaço com uma combinação de agenda econômica liberal, discurso de segurança pública e aproximação cuidadosa do eleitorado bolsonarista.

Resta saber se essa fórmula será suficiente para diferenciá-lo em uma eleição na qual a direita chega fragmentada e com nomes que já possuem forte reconhecimento nacional.

A série de entrevistas da TV Globo prossegue com outros candidatos ao Palácio do Planalto. A ordem foi definida por sorteio, com representantes dos partidos, e reúne os seis nomes mais bem colocados na pesquisa de intenção de voto da Quaest divulgada em 14 de agosto.

Depois de Zema, a programação prevê entrevistas com Ronaldo Caiado, Renan Santos, Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro e Augusto Cury.

Para Zema, a primeira sabatina cumpriu uma função essencial: apresentar ao eleitor nacional não apenas o ex-governador de Minas, mas o candidato que pretende transformar sua experiência administrativa em projeto para o país.

Autor

  • Nicolas Pedrosa

    Jornalista formado pela UNIP, com experiência em TV, rádio, podcasts e assessoria de imprensa. Atuou na Prefeitura de São Vicente durante a pandemia e atualmente gerencia a comunicação da Caixa de Saúde e Pecúlio de São Vicente. Apaixonado por leitura e escrita, desenvolvo livros que abordam temas sociais e histórias de superação, unindo técnica e sensibilidade narrativa.

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