Em 2010, durante a Copa do Mundo da África do Sul, a Seleção Brasileira vivia mais um período de reformulação. O ciclo havia sido marcado por turbulências dentro da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), pela ausência de nomes históricos como Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho e pela responsabilidade depositada sobre Kaká, então principal referência técnica da equipe.
Nos bastidores, porém, um jovem chamava a atenção do país. Revelado pela tradicional Vila Belmiro, o atacante Neymar Jr. encantava o futebol brasileiro com um talento raro, mesmo ainda no início da carreira.
Leia mais: Trump faz agradecimento público após FIFA cancelar cartão vermelho de Balogun e Bélgica reage
Na época, cabia ao técnico Dunga — capitão da conquista do tetracampeonato em 1994 — decidir se levaria ou não o jovem santista para o Mundial. Conhecido pelo perfil rígido, Dunga optou por não convocá-lo. O desfecho daquela Copa ficou marcado pela eliminação brasileira nas quartas de final diante da Holanda.
Foi justamente naquele momento que começou a nascer a esperança de uma nova geração. Sobre os ombros do então “Menino Ney” passou a repousar o sonho da sexta estrela.
Curiosamente, sua estreia pela Seleção Brasileira aconteceu justamente no palco da partida disputada no último domingo (05), no MetLife Stadium, em Nova York. Naquela ocasião, o jovem atacante marcou um gol. Assim como voltou a marcar anos depois no mesmo estádio. Parecia o início de uma história destinada à glória.
Mas o roteiro tomou outro caminho.
A Copa em casa e o sonho interrompido
O ciclo para a Copa do Mundo de 2014 parecia perfeito.
Um ano antes, o Brasil havia conquistado a Copa das Confederações com autoridade, vencendo por 3 a 0 a então campeã mundial Espanha, no Maracanã. A equipe comandada por Luiz Felipe Scolari recuperava a confiança do torcedor, e a imprensa falava sobre a “Nova Família Scolari”.
O país inteiro acreditava.
A geração que viu Romário e Bebeto em 1994, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho em 2002 e tantas outras equipes históricas voltava a sonhar. Agora, sob a liderança de outro garoto revelado pelo Santos, o mesmo clube que apresentou Pelé ao mundo.
Tudo parecia caminhar para um final feliz.
Até as quartas de final.
Contra a Colômbia, Neymar sofreu uma forte entrada nas costas e sofreu uma grave lesão na coluna, encerrando sua participação na Copa do Mundo.
Sem seu principal jogador, o Brasil enfrentou a Alemanha na semifinal.
O resultado entrou para a história da pior maneira possível: a derrota por 7 a 1, considerada até hoje a maior tragédia esportiva da Seleção Brasileira em Copas do Mundo.
Rússia 2018: talento sem recompensa
Quatro anos depois, o cenário era diferente.
O Brasil fez uma campanha sólida nas Eliminatórias, chegou embalado para o Mundial da Rússia e apresentava uma equipe equilibrada.
Mais uma vez, porém, o destino reservou as quartas de final.
Desta vez, diante da talentosa geração belga.
Mesmo com Neymar em campo vivendo grande fase técnica, o Brasil acabou eliminado. O jogo ficou marcado por um pênalti não assinalado sobre a Seleção Brasileira, lance posteriormente reconhecido pela própria FIFA como um erro da arbitragem.
Ainda assim, a eliminação se confirmou.
Apesar da frustração, a esperança permanecia.
Neymar brilhava no futebol europeu, primeiro formando ao lado de Lionel Messi um dos ataques mais marcantes da história recente do Barcelona e, posteriormente, protagonizando sua transferência para o Paris Saint-Germain.
Para muitos brasileiros, ele representava a essência do futebol nacional: dribles, criatividade, irreverência e espetáculo. Era o herdeiro da camisa 10 de Pelé.
Catar 2022: o sonho novamente interrompido
O ciclo para a Copa do Catar também foi considerado excelente.
O Brasil conquistou títulos, venceu seleções tradicionais, permaneceu entre as primeiras colocadas do ranking da FIFA e chegava como um dos favoritos ao título mundial.
O país respirava Copa do Mundo.
O clima era de festa. Churrasco, reuniões em família, ruas decoradas e a expectativa de uma geração inteira que jamais havia visto o Brasil conquistar um Mundial.
Entre os torcedores estava também quem escreve esta reportagem.
Durante o torneio, Neymar voltou a sofrer uma lesão, mas conseguiu se recuperar a tempo de disputar as quartas de final.
O adversário era a Croácia, liderada por Luka Modrić, vencedor da Bola de Ouro, ao lado de Ivan Rakitić.
Mesmo com o Brasil abrindo o placar na prorrogação graças a um belo gol de Neymar, um erro defensivo permitiu o empate croata. A decisão foi para os pênaltis, e novamente o sonho brasileiro terminou antes da semifinal.
Mais uma vez, a sexta estrela ficou pelo caminho.
A última dança
Quatro anos depois, o cenário já era completamente diferente.
Neymar não era mais o mesmo jogador.
Após deixar o futebol europeu, conviveu com lesões graves e passou a ter sua convocação constantemente questionada. Em busca da recuperação física, retornou ao Santos na tentativa de disputar sua última Copa do Mundo.
Enquanto isso, a Seleção Brasileira atravessava um dos ciclos mais instáveis de sua história recente.
Foram quatro treinadores em quatro anos. A CBF enfrentou novas mudanças administrativas fora de campo e, pela primeira vez na história, chegou a uma Copa do Mundo comandada por um treinador estrangeiro: Carlo Ancelotti, maior vencedor da Liga dos Campeões da UEFA como técnico e único profissional a conquistar os cinco principais campeonatos nacionais da Europa.
A convocação confirmou aquilo que muitos esperavam.
Neymar estava entre os escolhidos.
A narrativa parecia repetir 2002: um craque desacreditado, voltando de lesão, cercado por dúvidas, mas carregando consigo a esperança de redenção.
Entretanto, o roteiro tomou outro rumo.
Enquanto Lionel Messi e Cristiano Ronaldo brilhavam com gols, o camisa 10 brasileiro ainda aguardava sua oportunidade.
Na fase eliminatória, diante do Japão, o Brasil venceu, mas Neymar sequer entrou em campo.
A preocupação do torcedor aumentava.
Até que chegaram as oitavas de final.
Brasil e Noruega.
De um lado, Erling Haaland.
Do outro, Neymar.
Jogadores que já haviam protagonizado grandes confrontos na Liga dos Campeões.
Com o placar empatado em 0 a 0 e uma atuação pouco inspirada da Seleção, Ancelotti decidiu colocar Neymar no segundo tempo.
A expectativa era enorme.
Mas, em dois ataques decisivos, Haaland marcou duas vezes e definiu a eliminação brasileira.
Aquele jogador que durante tantos anos simbolizou a esperança de um país parecia já não possuir o mesmo brilho.
O sonho da sexta estrela chegava ao fim.
E também encerrava o ciclo do maior artilheiro da história da Seleção Brasileira.
O legado e a pergunta que permanece
Neymar encerra sua trajetória vestindo a camisa da Seleção como seu maior artilheiro, com 80 gols, superando uma marca histórica que parecia inalcançável.
Ao longo da carreira, conviveu com lesões graves, decisões controversas fora de campo, mudanças de clubes e expectativas quase impossíveis de serem suportadas.
Foi um talento geracional.
Um dos jogadores mais habilidosos produzidos pelo futebol brasileiro nas últimas décadas.
Mas também será lembrado por nunca ter conquistado a Copa do Mundo.
Seu legado inevitavelmente divide opiniões.
Para alguns, Neymar foi vítima das circunstâncias: lesões nos momentos decisivos, equipes que não corresponderam e ciclos marcados por instabilidade.
Para outros, decisões tomadas ao longo da carreira impediram que seu talento alcançasse o auge esperado.
Ao final de sua história com a camisa amarela, permanece a pergunta que talvez nunca tenha uma resposta definitiva:
O Brasil desperdiçou um craque geracional ou foi o próprio Neymar quem desperdiçou as oportunidades que teve para entrar definitivamente na história como campeão do mundo?









