Seis meses após o cancelamento turbulento da última edição do Cena 2K, considerado o maior festival de rap do país, artistas, fornecedores e fãs ainda aguardam pagamentos e respostas. O que deveria ser mais uma celebração da cultura hip-hop terminou em processos judiciais, acusações de desorganização e uma série de prejuízos financeiros que seguem sem solução.
LEIA TAMBÉM: Olívia Rodrigo revela as 13 faixas do álbum “you seem pretty sad for a girl so in love”; Confira
Realizado em novembro de 2025, na Neo Química Arena, o festival chegou à sua quarta edição consolidado como um dos principais eventos do gênero no Brasil. Desde sua estreia, em 2019, o Cena construiu uma reputação forte ao reunir grandes nomes nacionais e internacionais do rap e do trap. Artistas como Quavo, Djonga, Filipe Ret, Playboi Carti e Racionais MC’s ajudaram a transformar o evento em referência dentro da cena urbana.
Mas a edição de 2025 entrou para a história por motivos bem diferentes.
Ainda antes da abertura dos portões, os problemas já se acumulavam nos bastidores. Inicialmente marcado para os dias 28, 29 e 30 de novembro, o festival precisou alterar as datas para 21, 22 e 23 do mesmo mês por conta da agenda de jogos do Corinthians na arena. A mudança gerou revolta entre parte do público, especialmente entre pessoas que haviam comprado passagens e reservado hospedagens para acompanhar os shows.
Foi o caso de Maria Clara Alencar, que adquiriu dois ingressos na pré-venda por R$ 403. Com a alteração, ela não conseguiu comparecer ao evento e tentou solicitar o reembolso. Sem sucesso.
Segundo a advogada Juciara Abreu, representante de Maria Clara, a cliente procurou o Procon e tentou contato com a plataforma de vendas, mas foi informada de que a responsabilidade pelos reembolsos seria exclusivamente da produção do festival.
Enquanto consumidores buscavam respostas, o evento também enfrentava uma crise interna. Nos bastidores, já circulavam relatos de problemas financeiros envolvendo investidores da Four Even, além de dificuldades de fluxo de caixa. A situação piorou quando o Cena perdeu a parceria com a empresa responsável pela venda de ingressos dias antes do evento.
A Bilheteria Digital afirmou, em nota, que atuou apenas como intermediadora das vendas e que todos os valores arrecadados foram integralmente repassados à organização do festival. A empresa também declarou que o contrato entre as partes havia sido encerrado semanas antes do cancelamento definitivo.
Paralelamente, o festival perdeu a assessoria jurídica responsável pelos contratos com artistas. Segundo apuração do g1, a ruptura teria acontecido após desconfortos envolvendo negociações do festival com o rapper Kanye West, alvo de críticas internacionais após declarações antissemitas e referências ao nazismo nos últimos anos.
Sem respaldo jurídico estruturado, parte das negociações passou a acontecer informalmente, via WhatsApp.
Quando o festival finalmente começou, os problemas ficaram evidentes para artistas, equipes e público. A programação dos shows foi divulgada poucas horas antes da abertura dos portões, e diversos artistas menores relataram interrupções abruptas nas apresentações. O rapper Ryu, The Runner afirmou que teve o show cancelado de última hora sem qualquer explicação.
Nicole Kirsanoff, que trabalhou na produção do evento, descreve os bastidores como um cenário de improviso constante.
“Faltava tudo. Pulseira para equipe, organização, pagamento de fornecedores. Era tudo muito confuso”, relata.
Segundo ela, até hoje parte do valor combinado pelo trabalho não foi quitada.
Entre os artistas afetados está Yuri Redicopa, que teria fechado um cachê de R$ 15 mil para se apresentar no primeiro dia do festival. O rapper recebeu apenas R$ 700 de sinal. A produção afirma ter investido mais de R$ 40 mil no show e agora tenta recuperar judicialmente o restante do pagamento.
Nas redes sociais, a rapper Nanda Tsunami também denunciou a falta de pagamento por parte da organização.
O segundo dia de festival aprofundou ainda mais o caos. Sem horários oficiais divulgados, artistas passaram a anunciar por conta própria suas apresentações nas redes sociais, muitas vezes com informações conflitantes. Nenhum dos headliners internacionais subiu ao palco.
O festival anunciou, em cima da hora, o cancelamento dos shows de Young Thug, A$AP Ferg, Oodaredevil e Zukenee, alegando “motivos internos e externos”. Já o rapper Lil Gotit afirmou nas redes sociais que não compareceria por “problemas do festival”.
Nos bastidores, uma briga envolvendo a equipe do rapper Major RD e seguranças da arena agravou ainda mais a situação. Vidros e objetos foram quebrados durante a confusão. Segundo o artista, o desentendimento começou após ele ser impedido de acessar o próprio camarim.
No domingo, terceiro e último dia do evento, a situação chegou ao limite. Sem garantia de estrutura mínima de funcionamento, incluindo serviços médicos e montagem adequada dos palcos, o festival foi oficialmente cancelado após vistoria da Polícia Militar.
Em nota, a Neo Química Arena informou que o evento não apresentava condições de segurança necessárias para continuar.
Seis meses depois, o cenário ainda é de incerteza. Consumidores seguem recorrendo à Justiça para tentar recuperar valores gastos com ingressos, passagens e hospedagem. Advogados que representam fãs do festival afirmam que, até o momento, não houve transparência ou retorno efetivo por parte dos organizadores.
Para Ícaro Lamas, advogado que representa parte dos consumidores, o caso se enquadra como falha grave na prestação de serviço.
“O consumidor não perdeu apenas o ingresso. Muitas pessoas viajaram, reservaram hotel, organizaram financeiramente toda uma experiência que simplesmente não aconteceu”, afirma.
O silêncio prolongado ajuda a ampliar a sensação de abandono entre fãs e trabalhadores que fizeram parte do evento. Para muitos deles, o Cena 2K deixou de ser apenas um festival cancelado e se tornou símbolo de uma crise que expôs a fragilidade dos bastidores do entretenimento independente no Brasil.









