A vacinação produziu um paradoxo na saúde pública: ao controlar doenças que durante décadas fizeram parte do cotidiano, tornou seus riscos menos perceptíveis para novas gerações. O resultado pode contribuir para a queda da percepção sobre a necessidade de imunização e abrir espaço para a desinformação.
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Uma criança que nunca viu um caso de sarampo, um adulto que jamais conheceu alguém com poliomielite ou uma família sem qualquer lembrança de difteria dificilmente terá a mesma percepção sobre essas doenças que as gerações anteriores. Não se trata de uma mudança na gravidade das infecções, mas de uma consequência indireta do próprio êxito das campanhas de vacinação.
Quanto mais eficiente é a imunização, menos visível tende a ser o problema que ela evita. Doenças que já provocaram milhares de mortes, sequelas e internações passaram a ocupar um espaço menor na memória coletiva. O desaparecimento do cotidiano, porém, não significa que o risco tenha deixado de existir.
Esse fenômeno ajuda a explicar um dos principais desafios enfrentados pelos programas de imunização no Brasil e em outros países: como convencer uma população da necessidade de se proteger contra uma doença que, para boa parte dela, parece pertencer ao passado?
A percepção de risco é um dos elementos que influenciam a decisão de buscar a vacinação. Segundo Rosana Ritchmann, infectologista e integrante do comitê de imunizações da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a própria Organização Mundial da Saúde considera esse fator relevante para a adesão aos imunizantes.
Quando a doença deixa de ser vista, explica a especialista, a sensação de ameaça diminui. O paradoxo é que a ausência de casos pode ser justamente uma das maiores demonstrações de que a vacinação funcionou.
O sarampo como exemplo
O sarampo ilustra de maneira clara essa relação entre memória coletiva, vacinação e percepção de risco.
Durante grande parte do século 20, a doença era conhecida de perto por milhões de famílias. Pais viam os filhos adoecerem, avós conviviam com pessoas que carregavam sequelas e comunidades acompanhavam casos graves e mortes. A vacina, nesse contexto, não era uma proteção contra uma ameaça abstrata: era uma barreira contra uma doença conhecida e presente.
A realidade mudou com a expansão da vacinação.
Em 2016, o Brasil recebeu da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) a certificação de eliminação do sarampo. Naquele ano e em 2017, não houve casos confirmados no país. A conquista, no entanto, não significava que o vírus havia sido eliminado mundialmente.
A partir de 2018, o sarampo voltou a circular no Brasil, em um cenário marcado pela entrada de casos importados e pela redução da cobertura vacinal. Em 2019, após mais de 12 meses de transmissão contínua, o país perdeu a certificação de eliminação.
Entre 2018 e 2022, foram registrados mais de 39,8 mil casos de sarampo no Brasil. O maior número ocorreu em 2019, quando foram contabilizados cerca de 21,7 mil registros.
Depois do pico, houve forte redução. Em 2022, foram registrados 41 casos, enquanto 2023 terminou sem casos confirmados. Em 2024, foram cinco registros. Em 2025, o número voltou a crescer, chegando a 38 casos. Em 2026, até o período considerado no levantamento, já haviam sido confirmados 24 casos.
A evolução dos números reforça uma questão fundamental: a interrupção da circulação de uma doença não elimina automaticamente a possibilidade de seu retorno.
Enquanto houver circulação do agente infeccioso em outras partes do mundo, regiões que reduziram sua cobertura vacinal permanecem suscetíveis à reintrodução.
Akira Homma, assessor científico sênior do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), destaca que a manutenção da vacinação é necessária enquanto o agente causador da doença continuar existindo.
A lógica é simples. Se a quantidade de pessoas protegidas diminui, aumenta o número de indivíduos suscetíveis à infecção. Quando essa parcela cresce, uma doença anteriormente controlada encontra novamente espaço para circular.
A varíola representa uma exceção importante. Foi erradicada mundialmente e, por isso, a vacinação de rotina contra a doença deixou de ser necessária. O sarampo, entretanto, ainda não chegou a esse estágio.
A cobertura precisa permanecer alta
A vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, depende de elevada cobertura populacional para impedir que o vírus encontre pessoas suscetíveis em quantidade suficiente para manter uma cadeia de transmissão.
Segundo Rosana Ritchmann, uma cobertura de aproximadamente 95% é fundamental para o controle do sarampo, justamente por se tratar de uma doença altamente transmissível.
Os dados históricos mostram como essa proteção pode sofrer alterações. Em 2015 e 2016, mais de 95% da população brasileira recebeu pelo menos a primeira dose da tríplice viral. Em 2017, o índice caiu para 86% e chegou a 80% em 2020.
A redução não produz necessariamente consequências imediatas. É possível que uma comunidade permaneça durante algum tempo sem grandes surtos mesmo com uma parcela menor da população imunizada.
O problema aparece quando um vírus volta a entrar nesse ambiente.
Quanto maior o número de pessoas suscetíveis, maior a possibilidade de uma infecção importada desencadear novos casos e restabelecer a transmissão local.
Foi o que ajudou a ocorrer com o sarampo no Brasil.
A doença desaparece, mas a necessidade da vacina permanece
O sucesso das campanhas de imunização modifica a relação das pessoas com as doenças.
Quando uma enfermidade deixa de circular, as novas gerações passam a conhecê-la principalmente por meio de livros, campanhas, aulas, notícias ou relatos de familiares. O conhecimento deixa de ser baseado na experiência direta.
Esse processo é particularmente relevante para doenças como poliomielite e difteria.
O desaparecimento desses males do cotidiano é uma vitória da saúde pública, não uma indicação de que deixaram de ser perigosos.

A dificuldade está em transmitir essa diferença.
Para alguém que nunca viu uma criança com sequelas provocadas pela poliomielite, por exemplo, a necessidade de tomar uma vacina pode parecer menos urgente. Para quem nunca presenciou um surto de sarampo, a doença pode ser confundida com uma infecção infantil relativamente simples.
Essa distância entre a realidade atual e a memória das gerações anteriores pode criar um terreno fértil para dúvidas, negligência e informações falsas.
O desafio para médicos e sistemas de saúde
A redução da circulação das doenças também produz um segundo efeito menos evidente: profissionais de saúde mais jovens podem ter pouca experiência prática com determinadas infecções.
Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), aponta que o retorno do sarampo em 2018 apresentou justamente esse desafio. Muitos profissionais que estavam começando a carreira nunca haviam diagnosticado um caso da doença.
Isso não significa que médicos não estejam preparados para reconhecer o sarampo. O problema é que enfermidades raras deixam de fazer parte da experiência cotidiana dos consultórios e podem não aparecer imediatamente entre as primeiras hipóteses diante de um paciente com sintomas inespecíficos.
Por isso, sistemas de vigilância, protocolos de identificação, treinamento e notificação continuam importantes mesmo quando determinada doença parece controlada.
No caso do sarampo, a velocidade de transmissão exige atenção especial. Um caso suspeito pode desencadear investigação epidemiológica e medidas para impedir que a infecção se espalhe.
A própria existência desses mecanismos revela outro paradoxo da vacinação: quanto melhor funciona o controle de uma doença, mais necessário se torna preservar estruturas capazes de detectar rapidamente qualquer sinal de retorno.
Quando a ciência perde espaço para a política
A queda na percepção de risco, porém, não explica sozinha a hesitação vacinal.
A decisão de se vacinar também está relacionada à confiança nas instituições, à percepção sobre a segurança e eficácia dos imunizantes, ao acesso aos serviços de saúde e à qualidade das informações recebidas pela população.
É nesse espaço de dúvida que movimentos antivacinação e campanhas de desinformação podem ganhar força.

No Brasil, o debate sobre vacinas adquiriu uma dimensão política especialmente durante e depois da pandemia de covid-19. Questionamentos sobre imunizantes passaram a ser associados, em determinados grupos, a argumentos sobre liberdade individual, autonomia familiar e limites da atuação do Estado.
Esse discurso não representa toda a direita brasileira nem pode ser atribuído indistintamente a um campo político. Mas manifestações de políticos e influenciadores mostram que a vacinação deixou de ser tratada apenas como uma questão sanitária e passou, em alguns setores, a integrar disputas ideológicas.
Em agosto de 2026, por exemplo, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro declarou publicamente ser contrário ao esquema de vacinação brasileiro e afirmou que sua filha não seria vacinada. Em outro episódio recente, o deputado federal Nikolas Ferreira publicou conteúdos questionando aspectos relacionados à vacinação e à pandemia de coronavírus.
A discussão revela uma mudança importante no ambiente em que as campanhas de imunização precisam atuar. Informações médicas disputam atenção com conteúdos políticos, opiniões pessoais e alegações sem respaldo científico.
Para especialistas, decisões de saúde pública devem ser orientadas por evidências científicas e dados epidemiológicos, e não por alinhamentos partidários ou ideológicos.
Um fenômeno que ultrapassa o Brasil
A politização das vacinas não é uma particularidade brasileira.
Nos Estados Unidos, a oposição à imunização também ganhou espaço no debate público e político. O país voltou a registrar surtos de doenças que durante anos permaneceram sob controle.
Em apenas seis meses de 2026, os Estados Unidos haviam contabilizado 2.295 casos de sarampo, número superior aos 2.289 registrados durante todo o ano anterior. Ao todo, 44 dos 50 Estados haviam registrado casos, em um cenário apontado como o mais grave em décadas.
O exemplo americano reforça uma constatação conhecida na epidemiologia: doenças controladas por vacinação podem retornar quando a proteção coletiva diminui.
Não é necessário que toda uma população abandone as vacinas. Uma redução suficientemente grande da cobertura já pode criar bolsões de pessoas suscetíveis.
Não existe apenas um tipo de hesitação
A discussão sobre vacinação também precisa distinguir situações diferentes.
Uma pessoa pode não estar vacinada porque não conseguiu acessar o serviço de saúde. Outra pode ter perdido uma dose por dificuldades de deslocamento ou falhas no acompanhamento. Há ainda quem tenha dúvidas sobre os imunizantes e adie a vacinação.
Existe, por fim, a recusa deliberada baseada em informações falsas ou em convicções ideológicas.
Tratar todos esses casos como se fossem iguais dificulta a construção de políticas públicas eficientes.
Problemas de acesso exigem ampliação dos serviços e estratégias de busca ativa. Dúvidas exigem comunicação clara e profissionais preparados para conversar com os pacientes. Já a desinformação exige monitoramento e resposta baseada em evidências.
A própria experiência brasileira mostra que campanhas de vacinação não dependem apenas da existência de doses disponíveis. É preciso garantir que a população saiba onde encontrá-las, entenda sua importância e confie nas instituições responsáveis por sua aplicação.
A dimensão coletiva da escolha individual
A vacinação costuma ser apresentada como uma decisão pessoal. Há, porém, uma dimensão coletiva que não pode ser ignorada.
Uma pessoa não imunizada pode se infectar e transmitir uma doença para indivíduos que não tiveram escolha, como bebês ainda fora da faixa etária para determinadas vacinas ou pessoas que não podem receber certos imunizantes por razões médicas.
A proteção coletiva funciona justamente porque reduz as oportunidades de circulação de um agente infeccioso.
Quando a cobertura cai, essa barreira fica mais frágil.
Por isso, programas de imunização precisam acompanhar não apenas quantas doses foram aplicadas, mas também onde estão os grupos com menor cobertura, quais são as razões para a ausência da vacinação e quais estratégias podem recuperar a adesão.
O trabalho envolve União, Estados e municípios, além de profissionais de saúde, escolas, pesquisadores e meios de comunicação.
O paradoxo da vitória
O caso do sarampo expõe uma das contradições mais difíceis de comunicar em saúde pública.
A vacina é vítima do próprio sucesso.
Quando funciona, a doença desaparece. Quando desaparece, deixa de assustar. Quando deixa de assustar, parte da população pode considerar a vacinação menos necessária. Se a cobertura cai, o vírus encontra novamente pessoas vulneráveis. E, quando os casos retornam, a sociedade volta a perceber o perigo que havia esquecido.
Romper esse ciclo exige preservar a memória sobre o impacto das doenças sem recorrer ao alarmismo.
O objetivo não é convencer a população de que um surto está sempre prestes a acontecer. É explicar que a ausência de casos não significa ausência de risco, mas pode ser resultado direto de décadas de vacinação.
Sarampo, poliomielite e difteria não se tornaram inofensivos porque deixaram de ser comuns. Tornaram-se menos comuns porque medidas de prevenção funcionaram.
A manutenção desse resultado depende, portanto, de uma tarefa menos visível: continuar vacinando mesmo quando a doença parece distante.
Na saúde pública, talvez uma das maiores provas de sucesso seja justamente aquilo que ninguém mais vê.









