Em um momento em que a política brasileira segue atravessando o cinema, os streamings e até os debates familiares de domingo, o documentário A Colisão dos Destinos chegou aos cinemas na última quinta-feira (14) cercado de expectativa, controvérsia e sessões vazias. O longa de 70 minutos propõe revisitar a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, da infância humilde à vitória nas eleições de 2018, mas faz isso escolhendo cuidadosamente o que mostrar e, principalmente, o que deixar de fora.
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Dirigido por Doriel Francisco, em seu primeiro trabalho como cineasta, o filme aposta em uma narrativa quase messiânica sobre Bolsonaro. A produção conta com o envolvimento direto de aliados políticos do ex-presidente: o roteiro foi escrito por Doriel e William Alves, enquanto os créditos apontam argumento de Eduardo Bolsonaro e Mario Frias. Frias também assina a produção.
Desde o trailer divulgado no YouTube, já ficava evidente o tom da obra. O documentário reúne depoimentos dos filhos Carlos, Flávio e Eduardo Bolsonaro, além de irmãos do ex-presidente e nomes próximos ao bolsonarismo, como Nikolas Ferreira e Gil Diniz. O objetivo declarado, segundo a sinopse oficial, seria promover “uma compreensão mais profunda e empática” de Bolsonaro. Na prática, porém, o filme funciona como uma espécie de peça de exaltação política.
Um dos momentos centrais da narrativa é a facada sofrida durante a campanha eleitoral de 2018. O episódio ocupa espaço emocional importante no longa, com familiares relembrando o impacto do atentado e levantando dúvidas sobre as circunstâncias do caso. A câmera transforma a tragédia em símbolo quase religioso da ascensão política do então candidato.
Esse caráter simbólico se intensifica no encerramento. A sequência final mostra Bolsonaro sendo ovacionado por apoiadores, discursando em palanques e cercado por imagens de celebração popular. Antes dos créditos, filhos e irmãos afirmam que o ex-presidente teria uma “missão divina”, encerrando o documentário em tom épico e espiritualizado.
Mas o silêncio sobre acontecimentos recentes chama atenção tanto quanto o que aparece em cena. O filme ignora completamente a derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022, não menciona sua condenação em 2025 e também deixa de abordar as acusações relacionadas à tentativa de golpe investigada pela Justiça brasileira. A omissão se torna ainda mais evidente porque, em agosto do ano passado, Doriel Francisco chegou a afirmar nas redes sociais que o longa estava pronto, mas seria adiado por conta dos “últimos acontecimentos”, justamente o período em que Bolsonaro enfrentava julgamento.
Outra ausência notada é a de Michelle Bolsonaro. Figura central na construção da imagem pública do ex-presidente nos últimos anos, Michelle praticamente desaparece da narrativa, apesar de seu peso político dentro do bolsonarismo contemporâneo.
A estreia do documentário também acontece em meio a outro episódio turbulento. Na véspera do lançamento, vieram à tona mensagens divulgadas pelo site The Intercept Brasil envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro sobre o financiamento de um projeto chamado “Dark Horse”, filme de ficção estrelado pelo ator Jim Caviezel interpretando Bolsonaro. Apesar da coincidência temporal, “Dark Horse” não possui relação direta com “A Colisão dos Destinos”.
O lançamento nacional aconteceu em cinemas de 16 estados e no Distrito Federal, incluindo praças estratégicas como São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e Ceará. Antes disso, houve pré-estreias para convidados em cidades como Brasília, Curitiba, Recife e Fortaleza. Ainda assim, nas primeiras exibições abertas ao público, vídeos e relatos nas redes sociais mostraram sessões esvaziadas, cenário que contrastou com o tom grandioso adotado pela divulgação do longa.









