O sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix, virou alvo, entrando oficialmente na lista de conflitos comerciais entre Brasília e Washington. Em um relatório divulgado pela Casa Branca na última quinta-feira (01/04), o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) classificou a ferramenta criada pelo Banco Central como uma ameaça à livre concorrência e aos interesses das gigantes financeiras americanas.
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Quando o Pix é visto como uma ameaça, os Estados Unidos possuem instrumentos legais para a aplicação de retaliações econômicas unilaterais, segundo a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Parte do documento do USTR deixa bem clara a visão de Washington sobre o sistema, apesar de não o citar nominalmente:
“O Brasil parece se envolver em uma série de práticas desleais em relação a serviços de pagamento eletrônico, incluindo, mas não se limitando a favorecer seus serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo”, afirmou o Escritório do Representante de Comércio dos EUA.
O fato de o Pix ser gratuito e obrigatório para grandes instituições financeiras cria uma “reserva de mercado” que prejudica empresas americanas como Visa e Mastercard. O que antes era visto como um modelo de inclusão bancária mundial, agora está sendo interpretado como um subsídio estatal que distorce o comércio internacional.
Presidente da Colômbia defende PIX
Após o documento do USTR, a reação mais fervorosa em defesa do sistema não veio de Brasília, mas de Bogotá. O presidente colombiano Gustavo Petro, que vive uma relação de tensão com a Casa Branca desde a posse de Donald Trump em 2025, transformou o Pix em uma bandeira de resistência e soberania. Em resposta, Petro publicou em suas redes sociais:
“Le pido a Brasil extender el sistema PIX a Colombia”
O líder colombiano vem sofrendo sanções do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Tesouro americano, que incluiu membros de seu círculo íntimo em listas de restrição e revogou vistos oficiais. A justificativa de Washington é o fracasso da Colômbia na erradicação de cultivos de coca e uma suposta colaboração com o narcoterrorismo..
Petro classifica o OFAC como uma “ferramenta de controle político e não de combate ao crime”, sendo usada pelos Estados Unidos para asfixiar governos enquanto permitem que grandes traficantes lavem dinheiro em paraísos fiscais. Se o Brasil aceitar o desafio de levar o Pix à Colômbia, o país poderá realizar transações comerciais e de varejo sem depender do sistema de compensação em dólares (SWIFT), efetivamente “furando” o bloqueio econômico e as sanções de Trump.
O Pix é do Brasil e Ninguém Vai Mexer”
Em um evento em Salvador (BA), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu as críticas contidas no relatório do USTR. Para Lula, as queixas americanas não são sobre “práticas desleais”, mas sim sobre o medo da perda de controle do fluxo sobre capitais globais.
“O que é importante a gente dizer para quem quiser nos ouvir. O PIX é do Brasil, e ninguém vai fazer a gente mudar o PIX pelo serviço que ele está prestando à sociedade brasileira”, Afirmou o presidente.
já nos bastidores do Banco Central, o clima é de trabalho intenso com a real possibilidade de uma expansão do Pix, visando romper o monopólio das taxas de intercâmbio cobradas pelas empresas de cartões.
O Pix como arma contra as sanções americanas?
Uma das possíveis preocupações do presidente americano Donald Trump e do Departamento do Tesouro dos EUA seria a possibilidade de o Pix se tornar uma infraestrutura financeira que deixe as sanções econômicas americanas obsoletas. Se o Brasil exportar o Pix para a Colômbia e integrá-lo a parceiros globais, o dólar perde sua função de controle por meio de sanções a outros países.
Outra preocupação dos EUA é o conflito com o Irã. Diante do fechamento do Estreito de Ormuz e da escalada do conflito no Oriente Médio, a instabilidade financeira global leva países a buscarem alternativas para suas negociações sem a necessidade de passar pelo sistema americano. Ao usar uma tecnologia de pagamento instantâneo ponto a ponto, transações poderiam ocorrer sem o uso do sistema SWIFT, permitindo negociações até mesmo com países sancionados pelos EUA, sem a possibilidade de congelamento dos pagamentos.
Gigantes na Bolsa de NY
O mercado financeiro já sentiu o golpe. Nas últimas 24 horas, as ações da Visa (V) e da Mastercard (MA) na Bolsa de Nova York (NYSE) operaram em queda acentuada, com perdas estimadas entre 1,8% e 2,5%. Investidores temem que o sucesso do Pix Internacional crie um “efeito dominó”, onde outros países emergentes abandonem as redes de crédito tradicionais americanas para adotar sistemas públicos gratuitos.









