A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas decidiu mexer em uma de suas engrenagens mais tradicionais e, ao mesmo tempo, mais criticadas: as regras de elegibilidade para o Oscar. As mudanças anunciadas na última sexta-feira (1) redesenham o caminho até a estatueta, especialmente para produções internacionais, e sinalizam um esforço da premiação em acompanhar as transformações do cinema global e da tecnologia.
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A principal novidade afeta diretamente a categoria de melhor filme internacional. A partir da edição de 2027, produções em língua não inglesa poderão disputar a categoria não apenas pelo método clássico, a indicação oficial de um país, mas também por um novo “atalho”: o reconhecimento em grandes festivais internacionais. Filmes que conquistarem prêmios como a Palma de Ouro em Festival de Cannes, o Leão de Ouro no Festival de Veneza ou o Urso de Ouro no Festival de Berlim passam automaticamente a ser elegíveis.
A lista inclui ainda honrarias do Festival de Sundance, do Festival de Toronto e do Festival de Busan, ampliando o alcance geográfico e simbólico da disputa. Na prática, trata-se de uma tentativa de corrigir distorções históricas. Um exemplo emblemático é Tropa de Elite, de José Padilha, que venceu o Urso de Ouro em Berlim, mas ficou fora da corrida pelo Oscar por não ter sido escolhido como representante oficial do Brasil.
A nova regra também busca evitar situações controversas, como a que envolveu Anatomia de uma Queda. Apesar do sucesso em Cannes e de múltiplas indicações em outras categorias, o filme ficou de fora da disputa internacional por uma decisão interna da França, algo que agora poderia ser contornado.
Outra mudança simbólica, mas significativa, está no destino da estatueta: a partir de 2027, o prêmio de melhor filme internacional será entregue diretamente ao filme vencedor, e não mais ao país que o inscreveu. A alteração reforça a ideia de autoria e desloca o foco das disputas nacionais para o reconhecimento da obra em si.
Além das mudanças voltadas à diversidade global, a Academia também apertou o cerco contra o uso indiscriminado de inteligência artificial. As novas diretrizes deixam claro que performances e roteiros devem ser realizados por humanos para serem elegíveis. A discussão ganhou força recentemente após um projeto que utilizava uma recriação digital do ator Val Kilmer, com autorização da família, reacender debates sobre os limites éticos da tecnologia em Hollywood.
Por fim, outra novidade chama atenção no campo da atuação: atores poderão receber mais de uma indicação na mesma categoria por trabalhos diferentes. Até então, mesmo que um artista tivesse múltiplas performances elegíveis, apenas a mais votada era considerada.
As mudanças chegam em um momento de reconfiguração do cinema mundial, em que fronteiras linguísticas e tecnológicas se tornam cada vez mais fluidas. Para o Brasil, que conquistou sua primeira vitória na categoria em 2025 com Ainda Estou Aqui, o novo cenário abre portas e também eleva a concorrência.
A próxima edição sob essas novas regras já tem data marcada: 14 de março de 2027, em Los Angeles. Até lá, a indústria deve acompanhar de perto como essas transformações vão impactar não só a corrida pelo Oscar, mas também a forma como o cinema é produzido, premiado e reconhecido ao redor do mundo.









