“Indicados ao Oscar 2026” | O Agente Secreto: o silêncio como arma e o esquecimento como ferida

Há filmes que se contentam em contar uma história. Outros ousam decifrar um país. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, é dos segundos, e talvez vá além: tenta resgatar um Brasil que insiste em desaparecer nas brumas da própria negação. O longa, estrelado por um Wagner Moura em estado de urgência e contenção, é um thriller de espionagem, sim, mas também um espelho rachado onde o passado encara o presente com olhos cansados e memória curta.

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Kleber, mestre das frestas e dos fantasmas, faz do Recife dos anos 1970 não apenas cenário, mas sintoma. O Brasil que ele filma não é o país da ditadura apenas, é o país do apagamento, das lacunas, das histórias rasuradas por mãos oficiais. O protagonista Marcelo, vivido por Moura, é menos um agente secreto e mais um homem em busca de si mesmo, um arquivo vivo tentando sobreviver à censura do tempo. Ele foge de algo que nunca se revela por completo, e é nesse não dito que o filme encontra sua força: o silêncio é o verdadeiro vilão da trama.

Mendonça Filho constrói sua narrativa com a precisão de quem entende que o suspense está menos nas perseguições do que nos intervalos entre elas. Cada telefonema, cada sombra projetada em parede descascada, é um lembrete de que a ditadura não se limitou a torturar corpos, ela apagou memórias, demoliu símbolos, reescreveu o cotidiano. Recife, filmado com a lente amorosa e arqueológica do diretor, torna-se um personagem de carne e ruína: o cinema São Luiz, a Praça do Sebo, as vielas onde o passado ainda respira, tudo é ao mesmo tempo documento e fantasma.

Cena do filme ‘O Agente Secreto’, de Kleber Mendonça Filho - Foto: Victor Jucá/Divulgação
Cena do filme ‘O Agente Secreto’, de Kleber Mendonça Filho – Foto: Victor Jucá/Divulgação

Wagner Moura, com um olhar que alterna fúria e desalento, conduz o espectador por esse labirinto de identidades. Seu Marcelo é o retrato de um país que finge não saber de onde veio, mas sente o peso do que perdeu. A cada gesto contido, a cada respiração hesitante, o ator traduz o absurdo de viver em um território onde existir é, por si só, um ato subversivo. Seu desempenho é uma aula de contenção: Moura não grita, mas faz o silêncio reverberar.

E, como todo grande cineasta, Kleber não se contenta com a sobriedade do drama político, ele tempera a narrativa com o realismo mágico que é a cara do Brasil. A lenda da Perna Cabeluda, trazida com humor e ironia, serve de metáfora para o medo coletivo, para o monstro invisível que assombra gerações e ainda ronda os becos da memória nacional. É um toque de absurdo que, longe de enfraquecer o filme, o potencializa: afinal, há algo mais surreal do que a história real deste país?

Cena do filme ‘O Agente Secreto’, de Kleber Mendonça Filho - Foto: Victor Jucá/Divulgação
Cena do filme ‘O Agente Secreto’, de Kleber Mendonça Filho – Foto: Victor Jucá/Divulgação

A direção, sempre elegante e inquieta, transforma o ordinário em épico. A fotografia é uma carta de amor à decadência, os prédios mofados, os cinemas de rua, as luzes que piscam e falham como lembranças. Há algo de sagrado nos enquadramentos de Mendonça Filho: como se filmar fosse uma forma de exorcizar o esquecimento.

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Mas o grande segredo de O Agente Secreto está no seu tom: melancólico, sim, mas também profundamente humano. O filme não quer apenas lembrar o que foi perdido; quer entender por que continuamos perdendo. Ao fim, quando a história se dobra sobre si mesma e revela que nada é tão sólido quanto parece, resta a sensação de que todos somos, de algum modo, agentes secretos, tentando sobreviver num país que insiste em esconder seus próprios rostos.

O elenco secundário é outro acerto cirúrgico. Tânia Maria rouba cada cena em que aparece, trazendo humor e ternura à narrativa densa. É ela, com sua língua afiada e coração imenso, quem simboliza o povo que resiste, o mesmo povo que comenta, fofoca, observa e, sem perceber, preserva o que o poder tenta apagar.

Cena do filme ‘O Agente Secreto’, de Kleber Mendonça Filho - Foto: Victor Jucá/Divulgação
Cena do filme ‘O Agente Secreto’, de Kleber Mendonça Filho – Foto: Victor Jucá/Divulgação

No final, O Agente Secreto não entrega respostas, porém oferece feridas. É um filme que se recusa a cicatrizar, e é justamente por isso que emociona. Kleber Mendonça Filho reafirma-se como um dos grandes arquitetos do cinema brasileiro contemporâneo: seu olhar é ao mesmo tempo microscópico e universal, capaz de enxergar a ditadura e o cotidiano com a mesma lente crítica.

Em tempos de revisionismos e amnésias coletivas, O Agente Secreto é um lembrete: o país que não encara sua história está condenado a repeti-la. E, no escuro da sala de cinema, enquanto as luzes do São Luiz refletem na tela, percebemos que talvez o maior ato de espionagem brasileira tenha sido esse: o desaparecimento da verdade diante dos nossos olhos.

MAS, E A NOTA?

O Agente Secreto não é apenas um filme, é uma senha para adentrar os subterrâneos da memória nacional. Kleber Mendonça Filho, sempre cirúrgico e simbólico, entrega uma obra que pulsa como um coração encoberto por névoa, onde cada batida é um lembrete de que a história do Brasil nunca foi totalmente revelada, apenas disfarçada.

Ambientado no Recife dos anos 1970, o longa transforma o thriller de espionagem em um espelho político, onde cada disfarce é também uma metáfora do país. Marcelo, interpretado por Wagner Moura, é um homem dividido entre o anonimato e a verdade, um fugitivo que não foge apenas do regime militar, mas de um passado que o país preferiu rasurar. Moura brilha em estado de contenção, fazendo do olhar sua principal arma: um olhar que denuncia, que teme, que lembra.

Kleber filma o Brasil como quem monta um quebra-cabeça cujas peças foram censuradas. Sua câmera não corre, ela observa, respira, interroga. Cada esquina do Recife é um arquivo vivo, cada ruína um testemunho. E é nesse cenário que a ficção se enrosca no real, criando uma narrativa que soa tanto como uma lembrança quanto como um aviso.

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A fotografia é um monumento à decadência poética: há beleza nos prédios descascados, nas luzes que tremem, nos reflexos de um tempo que insiste em não morrer. A lenda da Perna Cabeluda surge como uma deliciosa e inesperada ironia, um sopro de absurdo que traduz com perfeição o surrealismo político brasileiro, onde o medo e o humor caminham lado a lado.

Tânia Maria, descoberta tardia e agora inevitável, rouba o filme com sua Dona Sebastiana, uma mulher que fofoca para sobreviver e, sem saber, preserva as histórias que o poder tenta apagar. É ela quem injeta humanidade no enredo, transformando o ordinário em resistência.

No desfecho, Kleber muda o tom, desmonta a estrutura e encara o espectador de frente. O que sobra é a melancolia, não de quem perdeu, mas de quem percebe que ainda está perdendo. Porque O Agente Secreto fala de ontem, mas aponta o dedo para hoje: a ditadura mudou de uniforme, mas o silêncio continua armado.

NOTA: 9/10 — O Agente Secreto é um épico silencioso sobre o esquecimento, um thriller político que prefere a poesia à pólvora. Kleber Mendonça Filho confirma-se como o mais lúcido cartógrafo do Brasil contemporâneo, e Wagner Moura entrega uma atuação densa, humana e inesquecível. É cinema que investiga, que denuncia e que emociona, um filme que não se vê, se decifra. Porque, no fim, todos somos agentes secretos tentando não desaparecer da própria história.

Curiosidade “A Lenda da Perna Cabeluda”

A lenda da Perna Cabeluda surgiu em Recife, Pernambuco, na década de 1970, criada pelo escritor e jornalista Raimundo Carrero, então redator do Diário de Pernambuco. A história conta sobre uma perna peluda e sem corpo, que se move sozinha pelas ruas da cidade, atacando pessoas de forma repentina, com chutes e rasteiras, antes de desaparecer misteriosamente.

Foto: Reprodução/Ingressos.com
Foto: Reprodução/Ingressos.com

Publicada pela primeira vez em 1º de fevereiro de 1976, a narrativa rapidamente se espalhou pelas rádios e relatos populares, ganhando força como um mito urbano. Embora tenha começado como uma brincadeira entre jornalistas, estudiosos interpretam a lenda como uma metáfora para a violência urbana e a censura durante a Ditadura Militar, representando um mal sem rosto nem identidade.

Em entrevista, Carrero revelou que a ideia nasceu de uma coluna policial absurda, criada justamente para contornar a censura da época. Com o tempo, a Perna Cabeluda ultrapassou os jornais, tornando-se parte do folclore popular pernambucano, inspirando livros, filmes, artesanatos e produções culturais.

Lançamento do filme "Recife Assombrado 2" - Foto: Reprodução
Lançamento do filme “Recife Assombrado 2” – Foto: Reprodução

Reconhecimento e Prêmios

O filme “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, conquistou uma série de prêmios de destaque no cenário internacional, consolidando-se como um dos maiores marcos recentes do cinema brasileiro.

Kleber Mendonca Filho foi eleito o melhor diretor em Cannes pelo filme "O Agente Secreto" - Foto: Miguel Medina/AFP
Kleber Mendonca Filho foi eleito o melhor diretor em Cannes pelo filme “O Agente Secreto” – Foto: Miguel Medina/AFP

A estreia no Festival de Cannes de 2025 foi histórica: Wagner Moura recebeu o prêmio de Melhor Ator por sua interpretação intensa e contida, tornando-se o primeiro brasileiro a vencer nessa categoria. Kleber Mendonça Filho também foi amplamente reconhecido, conquistando o prêmio de Melhor Diretor, sendo apenas o segundo brasileiro a receber esse título em Cannes, o primeiro havia sido Glauber Rocha, em 1969.

Além dos prêmios principais, “O Agente Secreto” também foi agraciado com duas distinções independentes durante o festival. Recebeu o Prêmio da Crítica Internacional (FIPRESCI), concedido pela Federação Internacional de Críticos de Cinema, e o Prix des Cinémas d’Art et Essai, oferecido pela Associação Francesa de Cinemas de Arte e Ensaio (AFCAE). Ambos os reconhecimentos destacaram o filme por sua força narrativa, originalidade estética e relevância política.

Em setembro de 2025, o longa voltou a ser celebrado internacionalmente ao vencer o Critics’ Choice Award Latino – Cinema & TV, onde Kleber Mendonça Filho foi premiado novamente como Melhor Diretor. A conquista reforçou o impacto do filme fora do Brasil, especialmente pela forma como retrata as tensões sociais e políticas do país sob uma ótica de thriller e espionagem.

Foto: festivaldecannes/Instagram
Foto: festivaldecannes/Instagram

Com essas premiações, “O Agente Secreto” não apenas consagrou Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura no circuito internacional, mas também reafirmou a força do cinema brasileiro em dialogar com o mundo por meio de uma obra densa, provocadora e profundamente contemporânea.

O AGENTE SECRETO

  • Título: O Agente Secreto
  • País: Brasil
  • Estreia: 6 de novembro de 2025
  • Direção: Kleber Mendonça Filho
  • Roteiro: Kleber Mendonça Filho
  • Elenco: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Alice Carvalho, Tânia Maria, Udo Kier, entre outros.
  • Duração: 2h38min
  • Gênero: Thriller político, suspense histórico (neo-noir)
  • Classificação: 16 anos

Autor

  • Nicolas Pedrosa

    Jornalista formado pela UNIP, com experiência em TV, rádio, podcasts e assessoria de imprensa, especialmente na área da saúde. Atuou na Prefeitura de São Vicente durante a pandemia e atualmente gerencia a comunicação da Caixa de Saúde e Pecúlio de São Vicente. Apaixonado por leitura e escrita, desenvolvo livros que abordam temas sociais e histórias de superação, unindo técnica e sensibilidade narrativa.

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