Há filmes que passam. Outros, ficam. Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, pertence a essa rara linhagem dos que permanecem: como uma ferida aberta que insiste em ensinar algo sobre o que fomos, o que somos e o que fingimos esquecer. É cinema que pulsa nas entrelinhas da história, onde o trauma e a ternura travam um duelo silencioso.
LEIA TAMBÉM: A gênese do horror: o retorno de Derry às suas próprias sombras
Walter Salles, que há anos filma o Brasil com a delicadeza de quem o compreende por dentro, retorna não apenas com uma obra, mas com uma confissão em forma de película. Baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, o longa mergulha na vida de Eunice Paiva, vivida com desarme e potência por Fernanda Torres, em uma atuação que não se interpreta: se sente, se atravessa, se habita.
A câmera de Salles é como um olho que respeita o luto. Ela não invade; observa. Cada plano é uma respiração contida, uma prece sem som. A fotografia de Adrián Tejido transforma o Leblon em território de memória e assombro: a casa ensolarada, os copos de cristal e o mar ao fundo são ironicamente belos, paisagem de uma vida que se desmancha à beira do abismo político.
E então há Fernanda.
Ah, Fernanda.

Sua Eunice é feita de carne, medo e luz. É uma mulher que não grita para sobreviver, ela sussurra e, mesmo assim, o mundo a escuta. Nos olhos dela, o amor é resistência. A dor é ferramenta. E a memória, um ato de guerra. Quando ela se curva para proteger os filhos, há algo de sagrado naquele gesto, como se o instinto materno fosse a última trincheira contra o esquecimento.
Salles entende que o horror não precisa de alarde. Basta um olhar perdido, uma ligação interrompida, o som de um helicóptero rasgando o céu e o espectador sente o peso invisível de um país sob censura. O filme não denuncia com megafone, denuncia com silêncio. Cada pausa é um testemunho. Cada sombra, uma ausência.

A estrutura narrativa dança entre tempos, memórias e feridas que nunca cicatrizaram. O uso de imagens em Super 8 é mais que um recurso nostálgico: é a tentativa de aprisionar o efêmero, de guardar no grão da película o que a história tentou apagar. Como se o cinema fosse o último abrigo contra a amnésia coletiva.
Fernanda Montenegro surge em uma ponta delicada, quase etérea, como a Eunice idosa, e sua presença é uma ponte simbólica entre gerações. Mãe e filha, duas atrizes e duas épocas, unidas pelo mesmo fio de emoção e verdade. É o tipo de encontro que só o cinema ousa oferecer.

Ainda Estou Aqui não é sobre política, embora respire política. Não é sobre o passado, embora se alimente dele. É um filme sobre o ato de permanecer. Permanecer humano em meio à brutalidade. Permanecer lúcido quando a mentira se torna oficial. Permanecer vivo, ainda que a vida doa.
O título é um manifesto.
É Eunice dizendo ao tempo: “não me apagaram”.
É o Brasil sussurrando, cansado: “ainda estou aqui”.
Em uma era que idolatra o efêmero, Walter Salles entrega o contrário: um filme que ecoa, que permanece, que se infiltra na alma e planta raízes. O sucesso de público e crítica não é acaso — é consequência de uma verdade filmada com coragem e compaixão.

Quando as luzes se acendem, há um silêncio na sala que não é vazio, mas plenitude. É o eco de uma história que nos atravessa. E talvez essa seja a maior vitória de Ainda Estou Aqui: lembrar que a memória é a forma mais bonita de resistência.
Veja trailer do filme
Reconhecimento e Prêmios
O filme Ainda Estou Aqui conquistou projeção internacional e tornou-se um marco do cinema brasileiro contemporâneo. A obra venceu o Oscar 2025 na categoria de Melhor Filme Internacional, consolidando-se como uma das produções mais premiadas do ano. Além disso, recebeu indicações em outras duas categorias, Melhor Filme e Melhor Atriz (Fernanda Torres), destacando a força de sua narrativa e a excelência de seu elenco.
A atriz Fernanda Torres fez história ao vencer o Globo de Ouro 2025 de Melhor Atriz em Filme de Drama, sendo a primeira brasileira a conquistar esse prêmio. A atuação intensa e comovente rendeu ainda o Prêmio Platino e reconhecimentos em diversos festivais internacionais.

A produção também conquistou o Prêmio Goya 2025 de Melhor Filme Ibero-Americano, feito inédito para o cinema nacional, e somou mais de 40 prêmios ao redor do mundo, incluindo honrarias em festivais como Berlim, Toronto e Gramado.
Com esse percurso vitorioso, Ainda Estou Aqui não apenas elevou o nome do Brasil no cenário cinematográfico global, como reafirmou a potência das histórias que nascem de nossa realidade e ressoam universalmente.

MAS, E A NOTA?
Ainda Estou Aqui é um daqueles filmes que não se assiste: se atravessa. Walter Salles retorna ao cinema nacional com uma delicadeza que beira o sagrado, construindo um drama que respira memória, dor e resistência. Baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, o longa transforma a tragédia real de Eunice Paiva, interpretada de forma monumental por Fernanda Torres, em uma meditação sobre o amor, a ausência e a luta silenciosa contra o esquecimento.
Ambientado entre os anos 1960 e 1980, o filme acompanha uma família marcada pela violência da ditadura militar. Eunice, esposa do deputado Rubens Paiva (Selton Mello), vê sua vida ruir com o sequestro do marido, desaparecido nos porões do regime. A partir desse trauma, Salles constrói um retrato íntimo e devastador da maternidade em tempos de medo, emoldurado pela opressão política e pela desintegração emocional.
A câmera, sempre sensível, nunca explora a dor, ela a observa com respeito, como quem pede licença para filmar o que é humano demais. A fotografia de Adrián Tejido é um espetáculo à parte: sombras que falam, luzes que ferem, reflexos que contam o que os personagens não podem dizer. A trilha sonora de Warren Ellis, melancólica e minimalista, amarra o filme em uma atmosfera de contemplação e resistência.
Fernanda Torres entrega uma atuação que ultrapassa o domínio da técnica, ela vive Eunice com o corpo, com os silêncios, com o olhar. Sua transformação, da mulher elegante da Zona Sul ao símbolo de uma geração ferida, é conduzida com uma honestidade quase insuportável. Há algo de ancestral em sua dor: é o grito contido de milhares de vozes que o tempo tentou calar.
A aparição de Fernanda Montenegro como a Eunice idosa é o toque final de uma herança emocional. Duas Fernandas, mãe e filha, encarnam o mesmo espírito de resistência, uma passagem de tocha que transcende o cinema e se transforma em rito.

No subtexto, Ainda Estou Aqui fala menos sobre a política em si e mais sobre o preço da memória. O país que insiste em não lembrar é o mesmo que repete, e Salles parece filmar essa ideia com o cuidado de quem sabe que o esquecimento também é uma forma de violência.
O resultado é uma obra impecável em técnica e emocionante em essência, que não se limita à reconstrução histórica: é também um espelho do presente. Porque a sombra que cercava a casa dos Paiva ainda ronda as nossas esquinas, e continua observando.
NOTA: 9/10 — Walter Salles entrega um filme comovente, político e universal, que encontra beleza no luto e poesia na resistência. Ainda Estou Aqui não é apenas um retrato da dor, mas uma celebração da memória, e Fernanda Torres, em uma das atuações mais intensas do cinema brasileiro recente, transforma sofrimento em arte. Um drama que fala do passado, mas ecoa no agora, lembrando que o esquecimento é o mais cruel dos crimes.
Ficha Técnica

- Título: Ainda Estou Aqui.
- País: Brasil.
- Estreia: 2024.
- Direção: Walter Salles.
- Roteiro: Murilo Hauser, Heitor Lorega e Marcelo Rubens Paiva, baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva.
- Elenco: Fernanda Torres, Selton Mello, Fernanda Montenegro, Valentina Herszage, Maria Manoella, Marjorie Estiano, Humberto Carrão, entre outros.
- Duração: 2h17min.
- Gênero: Drama histórico, biográfico.
- Classificação: 14 anos.









