A gênese do horror: o retorno de Derry às suas próprias sombras

Há algo de apodrecido em Derry. Não apenas o mal cósmico que se alimenta de medo, mas o próprio ar que parece carregado de uma culpa ancestral. “It: Bem-Vindos a Derry”, série derivada do universo criado por Stephen King, inicia sua jornada com um episódio que é menos uma introdução e mais um ritual de reabertura, uma espécie de exumação de horrores esquecidos, que emergem não apenas do esgoto, mas da própria natureza humana.

A PARTIR DAQUI, PODEM HAVER SPOILERS!!! SIGA POR SUA CONTA E RISCO!!!

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O piloto dirigido por Andy Muschietti não tem pudor em mergulhar no grotesco. A primeira sequência, que mostra o jovem Matty Clements (Miles Ekhardt) fugindo da cidade e presenciando o nascimento de um bebê bicéfalo voador, é um daqueles momentos que dividem a plateia entre o riso e o desconforto. A cena, por mais absurda que pareça, serve a um propósito simbólico: o nascimento literal do medo. O bebê-monstro não é apenas um efeito de choque, é a metáfora de Derry parindo, mais uma vez, sua própria maldição.

A partir daí, o episódio constrói um tecido narrativo que mistura horror cósmico, trauma social e crítica histórica. A ambientação em 1962, no auge da Guerra Fria, não é mero cenário. O medo atômico, o racismo institucional e a paranoia política são ecos do mesmo tipo de energia que alimenta Pennywise: o medo coletivo que se torna estrutura, que se torna rotina. O comandante Leroy Hanlon (Jovan Adepo), recém-chegado à base militar, é a encarnação do homem que enxerga o sistema de dentro, e começa a perceber rachaduras que ninguém mais quer admitir.

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Enquanto isso, nas margens da cidade, Lilly Bainbridge (Clara Stack) e seus amigos Teddy, Phil e Susie encarnam o ciclo infantil do terror: a juventude que herda o medo dos adultos. Eles são a nova geração do “Clube dos Perdedores”, mas com uma inocência já corrompida. Lilly, marcada pela internação psiquiátrica e pela solidão, é uma personagem trágica, alguém que busca sanidade em um mundo que enlouqueceu primeiro. Quando o grupo tenta desvendar o desaparecimento de Matty, o que encontram é o reflexo distorcido de si mesmos: um espelho que devolve apenas o horror.

A nova geração do “Clube dos Perdedores”, mas com uma inocência já corrompida - Foto: Reprodução/It - Bem-Vindos a Derry"
A nova geração do “Clube dos Perdedores”, mas com uma inocência já corrompida – Foto: Reprodução/It – Bem-Vindos a Derry”

O massacre dentro do cinema é o ponto de virada. A sequência, que mescla o real e o ilusório, tem o mesmo efeito que o primeiro ataque de Pennywise em It: uma demonstração de poder, mas também uma quebra de inocência. Quase todas as crianças morrem, e o público percebe que Derry é um organismo que se alimenta do sofrimento. A cidade consome seus jovens como quem repete um ritual, e o silêncio que se instala depois é mais aterrador que o próprio sangue derramado.

No final, resta Lilly, isolada, traumatizada, desacreditada. Ela tenta explicar o que viu, mas Derry, como sempre, prefere o silêncio. É nesse ponto que o episódio encontra sua essência: o horror da indiferença. O verdadeiro monstro não é o palhaço, nem o bebê mutante. É o olhar vazio dos que fingem não ver.

Tecnicamente, o piloto é uma obra meticulosa. A fotografia de Daniel Vilar impregna a tela com tons pálidos, como se a cidade estivesse eternamente coberta por um véu de podridão. A trilha de Benjamin Wallfisch não apenas acompanha o medo, ela o anuncia, o antecipa, como um sussurro que cresce até se tornar grito. E a direção de Muschietti revela um cineasta mais autoconsciente, disposto a flertar com o absurdo sem perder a dimensão trágica do horror.

Mas há desequilíbrio. O episódio, por vezes, parece oscilar entre a profundidade e o espetáculo, como se quisesse agradar ao público do streaming sem trair a densidade do texto original de King. Essa tensão, entre o medo filosófico e o susto gráfico, é o que torna o piloto fascinante e, ao mesmo tempo, instável.

Elenco de "Bem-vindos à Derry", prequel de "It - A Coisa" - Foto: Reprodução/ HBO Max
Elenco de “Bem-vindos à Derry”, prequel de “It – A Coisa” – Foto: Reprodução/ HBO Max

It: Bem-Vindos a Derry não é sobre Pennywise. É sobre o que o palhaço representa: a repetição infinita do medo, a complacência diante do mal, o ciclo de destruição que começa e termina no coração humano. O bebê voador é só o primeiro grito de uma cidade que se recusa a mudar.

Por ora, o público parece dividido entre o riso e o pavor, exatamente onde Pennywise gostaria que estivéssemos.

Veja trailer da série que estreou no último domingo (26)

MAS, E A NOTA?

O episódio inaugural estabelece as fundações de um terror que é tanto mitológico quanto humano. Ambientado nos anos 1960, ele retrata a decadência silenciosa de Derry, uma cidade cuja normalidade é apenas uma máscara para algo antigo e devorador. A morte brutal de Matty Clements, engolido por um pesadelo grotesco e sobrenatural, serve como catalisador para o enredo, introduzindo o grupo de jovens que enfrentará o mal: Lilly Bainbridge, fragilizada e corajosa; Teddy Uris e Phil Malkin, laços de amizade e desespero; a inocente Susie; e Ronnie Grogan, a testemunha adulta que atravessa o terror com lucidez e impotência.

À medida que as mortes se acumulam, o episódio revela que o horror em Derry não é apenas uma presença física, mas uma infecção moral, uma herança que permeia gerações. No plano paralelo, o comandante Leroy Hanlon descobre sinais de uma conspiração militar envolvendo forças que transcendem a razão.
O desfecho, com Lilly sobrevivendo ao massacre e encarando a indiferença da cidade, ecoa o tema central: em Derry, a maldade não surge do nada, ela é alimentada pelo esquecimento.

NOTA: 8/10 — O primeiro episódio é um início poderoso, denso e tematicamente ambicioso. A direção acerta ao priorizar o desconforto psicológico em vez do susto fácil, embora a cena do nascimento da criatura flerte com o grotesco excessivo. O roteiro, porém, sustenta a tensão ao combinar terror cósmico, crítica social e tragédia juvenil, evocando o espírito de Stephen King sem se limitar à imitação. “Bem-vindos a Derry” inaugura sua própria mitologia, uma cidade que não apenas abriga monstros, mas os cria.

Ficha Técnica

  • Título: It: Bem-Vindos a Derry – Episódio 1: O Piloto (It: Welcome to Derry – The Pilot)
  • País: EUA
  • Estreia: 26 de outubro de 2025
  • Desenvolvimento: Andy Muschietti, Barbara Muschietti, Jason Fuchs
  • Showrunners: Jason Fuchs, Brad Caleb Kane
  • Direção: Andy Muschietti
  • Roteiro: Jason Fuchs
  • Elenco: Taylour Paige, Jovan Adepo, James Remar, Stephen Rider, Matilda Lawler, Amanda Christine, Clara Stack, Miles Ekhardt, Mikkal Karim-Fidler, Jack Molloy Legault, Matilda Legault
  • Duração: 54 minutos

Autor

  • Nicolas Pedrosa

    Jornalista formado pela UNIP, com experiência em TV, rádio, podcasts e assessoria de imprensa. Atuou na Prefeitura de São Vicente durante a pandemia e atualmente gerencia a comunicação da Caixa de Saúde e Pecúlio de São Vicente. Apaixonado por leitura e escrita, desenvolvo livros que abordam temas sociais e histórias de superação, unindo técnica e sensibilidade narrativa.

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