Hamnet não é um filme sobre William Shakespeare, mas sobre tudo o que ele perdeu antes de se tornar Shakespeare. Ao deslocar o foco do gênio para a família, Chloé Zhao investiga como o luto, a ausência e o silêncio podem moldar uma das maiores obras da dramaturgia ocidental.
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Chegou ao Brasil, entre os dias 09 e 10 de janeiro, a pré-estreia de “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”. O filme é baseado no livro Best Seller de Maggie O’Farrell e tem uma tese simples: Como a morte do filho de Shakespeare, Hamnet, inspirou sua obra-prima, Hamlet.
O filme começa junto do romance de Agnes (Jessie Buckley) e William Shakespeare (Paul Mescal), com um pano de fundo místico e um relacionamento que de início até tem um quê de “Romeu e Julieta”. Agnes é expulsa de casa após engravidar inesperadamente de Will e é acolhida pela casa de Shakespeare.
Com o começo de sua família, William começa sua jornada nos teatros de Londres, deixando para trás a fazenda e sua recém formada família. Não é uma exaltação ao gênio Shakespeare que a obra procura fazer, mas sim mostrar o eco que sua ausência fez.
Agnes ainda teve um casal de gêmeos, Hamnet (Jacobi Jupe) e Judith (Olivia Lynes), que trouxeram consigo o auge da família. Em momentos pontuais, Shakespeare está lá para seus filhos, recriando mundos e histórias fantásticas com eles, esquecendo por um minuto que aquilo de certa forma é seu trabalho. Então, a peste negra volta à Europa e leva Hamnet, o menino que enganou a morte, e a verdadeira luta da família começa.
Chloé Zhao, como em muitos filmes de sua carreira, explora muito bem a natureza, palco para o misticismo de Agnes. O silêncio é utilizado de maneira que ecoa aquele cenário simples, em um tempo simples, com mais uma família vitimada pela peste. O filme é muito contemplativo e isso funciona com composições belas e diálogos fortes em um tom arcaico. É verdade que isso pode não ser um atrativo a todos os espectadores, mas vale a pena experimentar.
A atuação de Jessie Buckley como uma mulher sensitiva, uma mãe que cuida de seus filhos sozinha e tem de lidar com o luto é com certeza uma das melhores da temporada. Acumulando várias cenas de emoção, seu choro é cortante e desconforta o espectador. Há um receio de ser caricato, mas, afinal, é uma mãe que perdeu seu filho. O misticismo de Agnes é ferramenta para mostrar uma mãe forte que está disposta a fazer de tudo pelos seus filhos. Agnes às vezes nem parece humana, mas logo seu sofrimento nos traz de volta a realidade.
A redenção da família é sutilmente construída por Chloé Zhao ao mostrar um Shakespeare escondido no trabalho e Agnes tentando achar sentido em uma vida após a passagem de um meteoro como Hamnet de Jacobi Jupe, que também tem uma performance maravilhosa dentro de um elenco infantil muito bom.
Hamnet explora a desilusão de uma família construindo algo após o período feudal e algumas crianças que perderam a inocência cedo demais. O baque é pesado e sentido pelo silêncio daqueles anos após a morte de Hamnet. A escolha de um ambiente simples e um elenco enxuto dá espaço para a força sentimental dessa história. Nada tira o foco das relações que permeiam William Shakespeare. As atuações coroam uma narrativa sobre o ser-humano em seu momento mais vulnerável.
Para aqueles que vão assistir o filme pela devoção a Shakespeare, encontrarão um prato cheio na cena final, onde Agnes presencia uma exibição de Hamlet. Esse ato encapsula o luto da família que estava perdida, até então, na mesma jornada do protagonista da peça. Seja lá se a arte imita a vida ou vice-versa, Hamnet mostra que a dor pode ser externada de inúmeras formas, mas há de ser feita.
Não à toa o filme está muito bem cotado nas premiações. Trata-se do luto não como superação, mas como aceitação e, de bônus, conta a história da formação de uma das maiores peças da história. Cativante, com composições belas e um jogo de câmera simples, o filme nunca força o sentimento e dá espaço para ele ser o centro da narrativa.
O filme chega no país em 15 de janeiro e promete fazer história no circuito de premiações, que tem início neste domingo (11/01) com o Globo de Ouro.










Um comentário
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