Redes Sociais & IA: Acho que estou ficando burra

Após um burnout, escolhi tentar me desenvolver em todos os aspectos possíveis. Se fosse um Pokémon, poderia dizer que evoluí níveis consideráveis. Embora o avanço interno e externo, nos últimos dias, um pensamento vem me atormentando: acho que estou ficando burra. E sinto que a culpa é das redes sociais e da inteligência artificial (IA).

Na busca para subir de nível, entre minhas empreitadas, estavam assistir documentários sobre filosofia, estudar política e finanças, investir em uma vida mais saudável e ler dezenas de livros. Após o meio do ano, a “crise dos 27″ me derrubou por uns instantes, mas voltei aos eixos após perceber meu tempo de tela. Algo clicou em mim naquele 13 de novembro de 2025.

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O que está acontecendo comigo?

Dizem que “cabeça vazia é oficina do diabo” e na minha oficina o problema era o vício em vídeos curtos, timeline infinita e a dispensabilidade de utilizar minha inteligência, o que me levou a um tédio existencial. Porém, isso, por si só, não tem um CID (Classificação Internacional de Doenças), apesar de que a psicologia define como um estado de espírito caracterizado pela falta de interesse, estímulo ou desafio. O qual se manifesta como inquietação ou apatia, e as causas são das mais diversas, entre elas o senso de propósito.¹

Propósito meu até estão desconhecido. Então, independente da tarefa, a sensação era a mesma: estou presa em uma rotina monótona ou de que “o tempo não está passando”. E, pior, expectativas foram criadas, mas não foram atendidas.² E toda vez que eu sentia tédio, para onde eu corria? Sim, para as redes sociais e para a IA me ajudar a pensar em algo legal para fazer.

Meu maior problema, em especial, era aquela dedicada a vídeos curtos que, em quinze segundos, produz uma quantidade surpreendente de dopamina, aquele neurotransmissor que é associado ao que chamo carinhosamente de ‘Sistema de Transporte ao Prazer’ (STP). Uma de suas funções é dar um certo tipo de feedback de recompensa (ou punição) para adaptar o cérebro à atividade na qual está envolvido.

E, quando não estava scrollando, estava no chat de uma IA qualquer para perguntar até se eu iria gostar daquele filme.

Vício em Redes Sociais & Inteligência Artificial

Há poucas décadas, quando pensávamos em vício, pensávamos em drogas, já que podem ‘sequestrar’ o STP, levando à dependência. Antes de julgar, pare e pense: como negar algo que lhe dá um prazer inigualável? 

Meu caso, não tão particular assim, minha droga era a internet. Não é necessariamente uma hipérbole, quando percebi que aproveitava qualquer breve intervalo para abrir o aplicativo, nem que fosse por dez segundos, me senti como uma dependente química. Passava duas, três horas ali e não tinha a menor intenção de sair, afinal, não sabia que havia passado tanto tempo.

Foi em novembro do ano passado que decidi fazer um detox de sete dias sem utilizar. Nunca mais voltei. Não vou mentir, me senti bem melhor. Comecei a conhecer cultura de todo tipo e de todos os cantos do mundo. Literalmente, meu Pokémon subiu de nível. Sentia-me melhor comigo mesma, menos insegura e gastando bem menos dinheiro.

Como consequência da exclusão, acabei utilizando ainda menos outras plataformas. Uma delas, que mudou de dono há ‘pouco’ tempo, foi a próxima vítima. Certo dia, abri o aplicativo para olhar a publicação que meu time de futebol fez e, ao rolar o feed por menos de cinco minutos, vi três vídeos de mulheres sendo agredidas em plena luz do dia (e noite) por seus parceiros. Me senti tão mal e acabei por excluir esse também.

Conteúdos de IA vs. Tigrinho

Até o momento, infelizmente, ainda tenho uma rede social. Porém, apesar de ter feito meu melhor para educar meu algoritmo, não escolhemos totalmente o que consumimos. Frequentemente aparecem conteúdos feitos totalmente por IA e influenciadores nunca vistos antes (por mim) movimentando bilhões em uma linha de cosméticos polêmica. Criadores que o ‘conteúdo’ se limita ao poder aquisitivo ou totalmente produzido por robôs. Se tirar o dinheiro — e a IA — do seu influenciador favorito, o que sobra?

Pense nisso.

Em um país com milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade, milhares de desempregados e de pessoas que dão um jeito de sustentar a família com um salário mínimo, é quase intragável assistir alguém mostrando uma bolsa de R$ 500.000,00 que se deu de presente, pura e simplesmente porque quis. Como se não bastasse, há aqueles, quando não os mesmos, que divulgam casas de apostas e é aqui onde o calo mais aperta, ao menos para esta que vos escreve.

Se soubéssemos que o Jogo do Bicho iria evoluir até chegar no ‘Tigrinho’, talvez algumas medidas preventivas poderiam ter sido tomadas. Apostar em si é ‘afirmar com alguma certeza: aposto que não virá’, ou seja, é a habilidade de fazer previsões. O que, segundo a neurociência, de fato, o ser humano tem em seus genes algum poder de previsão vinculado à nossa inteligência. 

Contudo, considere que estamos dependentes de uma inteligência artificial: qual o sentido de apostar em algo que você não é mais capaz de ‘prever’ sozinho? Aproveite a pergunta e tente se lembrar da última vez que aprendeu algo por pesquisar e não tenha perguntado a um robô.

Até onde vai algo artificial?

computadores do Google que dirigem carros sozinhos. Embora as inovações sejam extraordinárias, um próprio cientista do Google, quando questionado sobre como o carro responderia a uma situação em que precisasse decidir se vai bater em duas pessoas ou em uma mulher grávida, ele apenas respondeu que o computador só consegue ver borrões. 

Não sei vocês, mas eu gostaria que a resposta fosse desviar de ambos. O professor Frank Amthor, da Universidade do Alabama, em seu livro “Neurociência para Leigos”, diz:  “Quando um computador faz algo […] que um cérebro humano faz com 100 bilhões de neurônios, […] o computador está simulando um humano. Um carro simula uma pessoa andando?”. Então quer dizer que é possível um computador fazer controle de embreagem e baliza, mas não desviar de pessoas?

Fadados ao fracasso?

Confesso que poderia trazer uma centena de motivos científicos do porquê as redes sociais e a inteligência artificial estão corroendo o nosso cérebro. Claro, ter o conhecimento é importante, mas a prática, fazer outra coisa, acaba sendo mais difícil. Não tenho tempo, você pensou? 

Eu também pensava, mas comecei a duvidar dessa questão quando notei que meu tempo de tela era uma média de 7 horas diárias. Até que uma simplória regra de três me mostrou que eu ficava no celular 29% do meu dia, 49 horas por semana, mais do que uma carga horária de trabalho convencional.

A ironia de procurar no celular como sair do celular, por si só, deveria ser um lembrete debochado do quão perdidos estamos. Pense que houve tempos sem nenhuma das tecnologias que temos hoje, e não ficávamos encarando necessariamente a parede o dia todo.

O que fazer sobre isso?

Por isso, decidi dar um hiato na coluna. A ideia inicial era falar de como a vida não é um morango, mas que às vezes podia ser. E, sinceramente, com o mundo de hoje, não vejo muitas formas de fazer da vida um morango, ao menos não sem críticas ou insultos. Não faz sentido escrever sobre assuntos ruins ou desconfortáveis, já que é basicamente só isso que temos na internet hoje.

E um dos meus valores mais enraizados é que, se não tenho nada de bom para falar, e minha opinião não foi solicitada, eu preciso mesmo falar?

Não quero fazer da ‘Morangos da Vida’ mais uma coluna de assuntos indigestos ou alienada ao mundo alheio. Por hora, paro de escrever até reencontrar o sentido em tudo isso. Não utilizei inteligência artificial nenhuma para escrever, pesquisar, editar, corrigir esse texto. Garanto ser 100% humano e inspirado em livros acadêmicos, algumas edições tive o prazer de folhear e marcar as partes importantes.

Desse lado aqui, posso lhes dizer que estou me esforçando para construir algo positivo e honesto para agregar nem que seja um pouco, mas, além da vida não ser um morango, a rapadura é doce, mas não é mole.

Se leu até aqui, meu muito obrigada. Espero lhe encontrar em breve.

[1] NDETEI, David M.; NYAMAI, Pascalyne; MUTISO, Victoria. Boredom–understanding the emotion and its impact on our lives: an African perspective. Frontiers in Sociology, v. 8, e1213190, 2023. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10342197/. Acesso em: 12 mai. 2026.

[2] (Eastwood et al., 2012 ; Van Tilburg e Igou, 2017 ; Raffaelli et al., 2018 ).

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