Na noite desta segunda-feira (8), Armando Mendonça pediu afastamento do cargo de vice-presidente do Corinthians. A decisão ocorre em meio ao avanço das investigações sobre seu suposto envolvimento no desvio de materiais esportivos do clube. Além do afastamento voluntário, o dirigente já enfrenta um pedido de expulsão dentro do Conselho de Ética do Timão.
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A crise política, contudo, é ainda mais profunda. Recentemente, o Corinthians confirmou as expulsões de seus ex-presidentes Andrés Sanchez e Augusto Melo, além de receber o pedido de desfiliação de outro ex-mandatário, Duílio Monteiro Alves.
Para agravar o cenário, as investigações do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) colocaram o atual presidente, Osmar Stábile, na mira das autoridades. O mandatário é investigado por supostos escândalos financeiros envolvendo duas empresas de segurança privada.
O “Caso Nike” e a Queda da Vice-Presidência
O mais recente abalo na gestão alvinegra teve origem no gabinete do segundo vice-presidente. Armando Mendonça tornou-se o epicentro do chamado “Caso Nike”, que apura o desvio massivo de artigos esportivos do clube.
Segundo a auditoria interna e o MP-SP, Mendonça utilizava sua influência e autoridade para retirar sistematicamente camisas e agasalhos dos almoxarifados. O promotor Cássio Conserino apontou que o prejuízo gerado pelas mercadorias não contabilizadas chega a R$ 6,21 milhões.
A investigação concluiu de forma insofismável que todas as retiradas anômalas estavam vinculadas, direta ou indiretamente, à senha e à solicitação expressa do dirigente. Valendo-se de livre trânsito e acesso irrestrito aos almoxarifados do Parque São Jorge e do CT Dr. Joaquim Grava, o vice-presidente burlava os protocolos de segurança.
O argumento utilizado pelo dirigente para instruir os funcionários da rouparia baseava-se na suposta necessidade de obter “camisas para relacionamento institucional da diretoria” em dias de jogos. Sob esse pretexto, ele requisitava entre 6 e 11 camisas extras por partida do time profissional. Tais notas e saídas de estoque jamais eram lançadas no sistema de gestão financeira, criando um inventário paralelo.
O montante final subtraído reflete uma operação de pilhagem em larga escala de ativos de alto valor de mercado. O desvio, concentrado entre maio, junho e outubro de 2025, englobou o seguinte inventário:
| Inventário de Bens Subtraídos (Caso Nike) | Quantidade |
| Camisas Oficiais de Jogo/Torcedor | 100 unidades |
| Blusas (Treino/Viagem) | 9 unidades |
| Calças Esportivas | 9 unidades |
| Pares de Tênis | 6 unidades |
| Shorts | 4 unidades |
| Malas de Viagem | 2 unidades |
| Mochila | 1 unidade |
| Total de Itens Subtraídos | 131 itens |
O lote incluía, inclusive, tentativas de subtração de camisas exclusivas comemorativas da NFL. Denunciado por furto qualificado, apropriação indébita e coação de testemunhas, Mendonça capitulou diante da pressão interna e dos protestos da torcida organizada Gaviões da Fiel, solicitando o afastamento temporário de suas funções por 30 dias.
A Reviravolta do Ministério Público
Inicialmente, o caso foi conduzido pela Delegacia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva (Drade), sob a tutela do delegado Cesar Antonio Borges Saad. No final de maio de 2026, a Polícia Civil concluiu o inquérito recomendando o arquivamento por “ausência de materialidade probatória”.
Contudo, a intervenção do Ministério Público alterou radicalmente o rumo das investigações. O promotor Cássio Roberto Conserino revisou o caso e criticou duramente o relatório da Drade, classificando-o como meramente “descritivo e não conclusivo”. Para o MP, a polícia ignorou uma robusta auditoria interna conduzida pelos departamentos de TI e compliance do próprio Corinthians.
Apoiado no rastreamento de requisições, imagens de circuitos internos e cruzamento de dados do sistema gerencial, o MP-SP ofereceu denúncia formal à Justiça. Armando Mendonça responderá pelos crimes de:
- Apropriação indébita agravada e continuada;
- Furto qualificado por abuso de confiança;
- Tentativa de apropriação indébita qualificada;
- Coação no curso do processo.
Em nota oficial, Armando Mendonça, se defendeu das acusações do desvio de materiais e acusou que o Osmar Stábile e Leonardo Pantaleão teriam participado do desvio. Confira a nota oficial de Armando Mendonça:
“Manifesto-me em respeito à minha história, à minha família, aos conselheiros, aos associados, aos colaboradores do clube e, sobretudo, à torcida corinthiana. Faço isso com serenidade, mas também com a firmeza necessária de quem não pode permitir que sua honra seja atingida por narrativas incompletas, acusações precipitadas, mal-intencionadas e interpretações que não correspondem à verdade.
Sou advogado há mais de vinte anos. Mas, antes de tudo, sou filho, irmão, pai, corinthiano e tenho uma história construída muito antes de qualquer cargo. Uma história que jamais colocaria em risco por qualquer vantagem indevida.
Fico muito preocupado em ver que uma acusação dessa gravidade, baseada em um trabalho que, embora tecnicamente imprestável, não afirma que houve qualquer desvio de materiais por mim, distribuída no final do expediente de uma quarta-feira, às vésperas de um feriado prolongado, produziu efeito concreto: minha reputação ficou exposta por dias à interpretação pública, minha família sofreu todos esses dias, enquanto a defesa, pelo próprio funcionamento da Justiça, somente poderia atuar adequadamente após a regular distribuição e tramitação do feito.
Isso é grave. Não apenas pelo dano pessoal, mas pelo método. Quando uma acusação passa a circular antes do processo, a reputação de uma pessoa fica exposta antes mesmo que ela possa exercer plenamente sua defesa.
Reputação não é vaidade. É patrimônio moral. É aquilo que se constrói ao longo de uma vida e que deve ser defendido com serenidade, firmeza e verdade.
Por isso, considero meu dever esclarecer os fatos, reafirmar minha tranquilidade de consciência e deixar claro que jamais pratiquei qualquer ato ilícito contra o Sport Club Corinthians Paulista.
Por isso, afirmo com absoluta clareza: nunca desviei qualquer material do Sport Club Corinthians Paulista.
Não corresponde à verdade a narrativa de que eu teria me apropriado de 131 materiais do clube. A acusação sequer teve o cuidado de ver que desses 131 materiais, 62 itens sequer saíram do Corinthians; 6 itens foram destinados para o segurança de confiança do Presidente Osmar, Fernando; 2 malas foram destinadas para o Leonardo Pantaleão. Há equívocos que já foram explicados e continuarão sendo esclarecidos. O próprio documento interno produzido no âmbito do Corinthians não afirma que eu tenha praticado desvio, apropriação ou qualquer conduta dessa natureza. Também o inquérito policial não concluiu pela existência de desvio de materiais por minha parte.
Infelizmente, faltou firmeza da instituição, por meio de seu presidente, em esclarecer esse ponto para a torcida, sócios e conselheiros. Faltou vontade, de quem poderia fazê-lo, para encerrar de vez uma narrativa falsa, injusta e destrutiva. Uma acusação dessa merece uma posição do clube para toda a nação e não apenas em roda de sócios, amigos e alguns torcedores.
Ninguém que conheça minimamente minha trajetória pode acreditar, de boa-fé, que eu colocaria em risco minha vida, minha família, minha profissão, minha reputação e meu nome por materiais do clube. O Corinthians é grande demais para ser tratado com leviandade. E minha história é séria demais para ser reduzida a uma acusação que não corresponde à verdade.
Também é preciso dizer, com serenidade e firmeza, que não se pode atribuir a mim suposta “gestão temerária” sobre área que não estava sob minha responsabilidade direta e que não integrava minhas atribuições institucionais. A vice-presidência que exerço não se confundia com gestão operacional de almoxarifado, controle de estoque, distribuição ou baixa de materiais esportivos.
Responsabilidade não se presume por aproximação, conveniência narrativa ou necessidade de encontrar um nome. Responsabilidade exige fato, atribuição, competência, conduta e prova.
Sempre defendi uma apuração profissional, séria, independente e tecnicamente responsável. Pedi que o Corinthians contratasse empresa especializada para realizar esse trabalho. Também pedi auditoria contábil. Meus pedidos não foram atendidos pelo presidente, quem, de direito e de fato, é responsável pelo SCCP. Por conta disso, pedi por conta própria, por meio de empresa renomada e especializada, que fosse analisado o trabalho que o presidente pediu para quem não tinha capacitação técnica fazer. A conclusão é desastrosa. Chega de amadorismo. Chega de tratar o Corinthians com tanto desrespeito.
Repudio, ainda, a divulgação seletiva de trechos de supostas conversas privadas, gravadas clandestinamente, ocorridas há muitos meses, em setembro de 2025, e trazidas a público apenas agora, sem que se conheça sua integralidade, seu contexto, sua cadeia de custódia e sua validação técnica. Conversas privadas, quando registradas sem ciência dos envolvidos, fragmentadas e apresentadas em recortes convenientes, podem servir menos à verdade e mais à destruição de reputações.
Se alguém, há mais de oito meses, registrou uma conversa privada às escondidas, guardou esse material, selecionou trechos e somente agora o trouxe a público, esse método, por si só, revela muito sobre sua real intenção. Quem busca a verdade procura esclarecer os fatos no momento próprio. Quem grava, guarda, recorta e divulga apenas quando isso se torna politicamente conveniente não contribui para a Justiça. Contribui para o linchamento moral.
Não temo a verdade. Nunca temi. O que me preocupa é que este episódio já deixou de ser apenas sobre mim. Ele passou a representar uma reflexão maior: se pessoas honestas, profissionais qualificados, empresários, conselheiros e associados que desejam ajudar o Corinthians passarem a acreditar que qualquer divergência política pode resultar em campanhas de desgaste, acusações precipitadas e julgamentos públicos antes mesmo da produção de provas, quem continuará disposto a servir ao clube? Os Romeus, Leonardos, Marcelos da vida?
Fazer o bom combate é difícil quando alguns escolhem brigar na lama. Eu não me sujeito a esse tipo de disputa. Não descerei ao nível de quem prefere a insinuação à prova, o recorte ao contexto, a lama ao debate leal.
Em momentos difíceis, fiz escolhas difíceis. Ao levar à tona a gravidade dos fatos envolvendo o caso Vai de Bet, sei que fiz inimigos. Quando tomei conhecimento daqueles fatos, minha consciência não me permitiu outro caminho. Rompi imediatamente.
Cada pessoa sabe o tempo de suas decisões e o peso de seus silêncios. Não me cabe julgar a consciência de ninguém. Mas é importante lembrar que nem todos se posicionaram no mesmo momento. Houve quem demorasse, houve quem permanecesse próximo e houve até quem aceitasse funções depois de fatos graves já conhecidos. Hoje, alguns falam em moralidade como se sempre tivessem estado no mesmo lugar desde o primeiro instante.
Digo isso sem arrogância e sem pretensão de superioridade. Apenas registro um fato: minha posição foi tomada quando precisava ser tomada, não quando passou a ser conveniente tomá-la. E sei que hoje pago um preço caro por isso.
A política faz parte da vida em sociedade e dos clubes associativos. O problema não está na política em si, mas na forma como ela é praticada. A boa política constrói, aproxima, dialoga e serve. A má política destrói, generaliza, acusa e tenta vencer pelo desgaste moral do outro.
O Corinthians não pode ser usado como trampolim para interesses pessoais, projetos externos, disputas de poder ou narrativas que reduzam sua grandeza institucional.
Nunca acreditei em salvadores individuais. Nem dentro, nem fora do clube. O Corinthians não será salvo por uma pessoa, por um grupo ou por uma narrativa. A saída para o Corinthians será sempre coletiva: dirigentes, conselheiros, associados, profissionais e torcedores trabalhando com responsabilidade, transparência e respeito.
Minha luta por aquilo que considero correto continuará. Não aceitarei que este tipo de jogo, cujo objetivo é afastar pessoas que podem ajudar o Corinthians, prevaleça. Quem tem reputação a preservar tem muito mais a perder do que a ganhar ao se expor. Mas há momentos em que o silêncio pode ser confundido com conformismo, e a serenidade precisa vir acompanhada de clareza.
Tenho absoluta convicção de que ficará demonstrado outra vez que nunca cometi qualquer ilícito contra o Sport Club Corinthians Paulista.
E tenho, acima de tudo, a consciência tranquila de quem pode olhar para sua família, para sua história, para os conselheiros e para a torcida corinthiana e afirmar: jamais colocaria meu nome, minha vida e minha honra em jogo por qualquer vantagem indevida, muito menos por materiais de um clube que sempre procurei respeitar.
Por coerência, em respeito ao Corinthians, aos corinthianos, aos meus amigos de Conselho, aos colaboradores do clube e à minha família, informo que solicitei perante os órgãos internos minha licença do cargo de 2º vice-presidente do Sport Club Corinthians Paulista.
Não por reconhecer qualquer culpa. Porque não há culpa a reconhecer. Não por medo. Porque não tenho nada a temer. Mas porque acredito que, em determinados momentos, servir ao Corinthians significa colocar o clube acima de si mesmo.
Não tenho apego ao cargo. Tenho apego aos meus princípios e aos meus ideais.
Ao Corinthians devo respeito. À minha família devo proteção. À minha consciência devo fidelidade. E é com ela absolutamente tranquila que sigo adiante.
A vida exige coragem. Para servir ao Corinthians, é preciso ter coragem. E eu não estarei ao lado de quem tenha medo de arapongas. Para liderar essa nação, há necessidade de firmeza e convicção.
São Paulo, 08 de junho de 2026.
Armando Mendonça”

Presidente na mira do Impeachment
Eleito sob a promessa de moralizar o clube após a tumultuada gestão de Augusto Melo, Osmar Stábile agora enfrenta um forte pedido de impeachment no Conselho Deliberativo. A denúncia central envolve a contratação emergencial de duas empresas de segurança privada (Bear Security e Mega Assessoria) com recursos do clube, voltadas para a proteção pessoal do mandatário e de sua família.
O Caso Bear Security Ltda.
Sediada em Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a Bear Security foi fundada em 10 de janeiro de 2025 e apresenta uma peculiaridade: o Corinthians é o seu único cliente.
O clube passou a custear os serviços de proteção de Stábile por meio da empresa a partir de julho de 2025. Dos quatro funcionários da Bear, dois são policiais militares que já atuavam como guarda-costas particulares de Stábile antes de sua eleição. Ao assumir o cargo, o presidente institucionalizou os vencimentos de sua segurança pessoal utilizando o caixa do clube.

Atual presidente do Corinthians, Osmar Stábile – Foto: Reprodução/Instagram
A gravidade da contratação reside em dois pontos críticos:
- Ilegalidade Operacional: A Bear Security não possui licença ou alvará expedido pela Polícia Federal para operar no setor de segurança armada, atuando na clandestinidade regulatória.
- Ocultação Patrimonial: O CNPJ da empresa está registrado no nome da esposa de um dos policiais militares que prestam o serviço de proteção.
Os fluxos financeiros também chamaram a atenção dos auditores: a empresa emitiu, de forma estritamente sequencial, apenas 12 notas fiscais em sua história — todas direcionadas ao Corinthians —, totalizando um montante que varia entre R$ 586 mil e R$ 587 mil.
A gestão Stábile afirmou em nota que o contrato passou pelos sistemas internos de governança do Parque São Jorge. O presidente assumiu a pessoalidade da escolha “por relação de confiança”. Sobre a emissão sequencial das faturas, a diretoria alegou que houve uma “confusão burocrática” decorrente da transição para o sistema nacional de Notas Fiscais de Serviço eletrônicas (NFS-e), após a reforma tributária.
O Caso Mega Assessoria Operacional Ltda.
A segunda empresa sob investigação prestava serviços ao clube sem qualquer lastro ou vínculo contratual formal. A falta de transparência ganha contornos de dolo ao constatar-se que a contratação não passou pelo crivo obrigatório do Conselho de Orientação (Cori).
O elo entre a empresa e os cofres alvinegros é Fernando José da Silva, o “Nandão”, gerente operacional do clube e homem de extrema confiança de Osmar Stábile. Assim como a Bear Security, a Mega Assessoria não possui autorização da Polícia Federal para atuar em segurança patrimonial e carrega fortes indícios de empregar “funcionários fantasmas”.mpregar “funcionários fantasmas”.








