Polícia deflagra operação contra suspeita de venda ilegal de camarotes no estádio do São Paulo

A Polícia Civil de São Paulo realizou, na manhã desta terça-feira, uma operação de busca e apreensão contra investigados por um suposto esquema de venda ilegal de camarotes no estádio do São Paulo Futebol Clube, o Morumbis, na zona sul da capital paulista. A ação é mais um desdobramento de uma investigação que vem ganhando força nas últimas semanas e que atinge figuras ligadas à antiga cúpula diretiva do clube.

LEIA TAMBÉM: Flamengo e Vasco se enfrentam pelo primeiro clássico do Cariocão 2026

De acordo com as autoridades, quatro mandados judiciais foram cumpridos em endereços distintos, todos relacionados a pessoas citadas no inquérito que apura possíveis crimes praticados a partir da exploração irregular de camarotes em jogos e eventos realizados no estádio são-paulino.

A operação foi conduzida por equipes da 3ª Delegacia de Polícia de Investigações sobre Desmanches Delituosos (DICCA), por determinação do Juízo das Garantias da Capital, responsável por autorizar as medidas cautelares no âmbito da investigação.

Segundo informações oficiais, foram apreendidos documentos, equipamentos eletrônicos e valores em dinheiro, materiais que, de acordo com o Ministério Público, poderão esclarecer a extensão e a duração do suposto esquema.

“Nós temos uma documentação bastante farta arrecadada hoje. Neste momento, não iremos nos manifestar sobre o conteúdo específico, pois a investigação ainda está em curso”, afirmou José Reinaldo Carneiro Guimarães, promotor de Justiça do Estado de São Paulo.

“O que já é possível afirmar é que os elementos reunidos indicam a gravidade dos fatos e uma abrangência temporal maior do que inicialmente se imaginava”, completou.

Dos quatro mandados expedidos, dois investigados não foram encontrados em seus endereços no momento da diligência, o que, segundo o promotor, não impediu o cumprimento das ordens judiciais nem a coleta de materiais considerados relevantes.

Entre os nomes citados na operação estão Douglas Schwartzmann, afastado do cargo de diretor adjunto das categorias de base do São Paulo; Mara Casares, ex-esposa do presidente afastado Julio Casares e que atuava como diretora feminina, cultural e de eventos do clube; além da empresária Rita de Cássia Adriana Prado.

Na residência de Mara Casares, localizada em São Paulo, os policiais apreenderam R$ 20 mil em dinheiro vivo, além de uma CPU de computador e grande volume de documentos. Já no endereço ligado à empresária Adriana Prado, a investigada não foi localizada, mas anotações consideradas relevantes foram recolhidas.

No caso de Douglas Schwartzmann, as equipes constataram que ele se encontra em viagem ao exterior. O imóvel foi acessado com autorização dos familiares, e as buscas no local foram realizadas normalmente.

As autoridades apuram indícios da prática de coação no curso do processo, associação criminosa e corrupção privada no esporte, crimes que, segundo a Polícia Civil, teriam sido cometidos ao longo de um período prolongado.

“As diligências foram muito bem-sucedidas. Em todos os endereços houve apreensão de materiais que interessam diretamente à investigação”, reforçou o promotor Guimarães.

“É uma investigação robusta, que ainda não chegou ao seu estágio final”, completou.

Posição do São Paulo Futebol Clube

Em nota oficial, o São Paulo Futebol Clube afirmou que é vítima no caso e garantiu que prestará total colaboração às autoridades para o esclarecimento dos fatos.

A investigação teve início após uma denúncia encaminhada pelos Correios à Polícia Civil, relatando possíveis irregularidades na comercialização de camarotes do estádio. No mesmo inquérito, Julio Casares, presidente afastado do clube, e integrantes de seu núcleo familiar também aparecem como investigados, embora, segundo a polícia, o clube seja tratado formalmente como vítima.

O delegado Tiago Fernando Correia, responsável pelo caso, destacou que o procedimento guarda semelhanças com outra investigação de grande repercussão envolvendo o Corinthians e contratos milionários com casas de apostas, conduzida pela mesma autoridade policial.

Polícia: Camarote "3A" do Morumbis - Foto: ge
Camarote “3A” do Morumbis – Foto: ge

Defesa de Douglas Schwartzmann

Por meio de nota, a defesa de Douglas Schwartzmann afirmou que o investigado sempre esteve à disposição das autoridades. Segundo os advogados, assim que tomou conhecimento da apuração pela imprensa, no fim do ano passado, ele procurou a delegacia para se colocar à disposição.

A defesa também informou que a viagem internacional foi comunicada previamente à Polícia Civil, com apresentação de passagens aéreas e documentos que comprovariam compromissos profissionais no exterior.

“A busca realizada no dia de hoje, quando a autoridade já tinha ciência de que Douglas estaria fora do país, teve caráter constrangedor e foi inócua”, diz o comunicado.

O que diz Mara Casares

A defesa de Mara Casares também se manifestou, afirmando que ela foi surpreendida com o cumprimento da medida de busca e apreensão. Segundo os advogados, Mara sempre manteve postura colaborativa, nunca se recusou a prestar esclarecimentos e sequer havia sido intimada formalmente antes da operação.

“A medida teve como único objetivo a exposição midiática indevida da investigada e de seus familiares”, afirma a nota.

A defesa ressaltou ainda que aguarda acesso à íntegra da decisão judicial que autorizou a diligência.

Crise política no clube

A investigação ocorre em meio a uma grave crise política no São Paulo Futebol Clube. Em dezembro, conselheiros protocolaram um pedido formal para a abertura de processo de impeachment de Julio Casares, após denúncias e reportagens revelarem supostas irregularidades administrativas.

A destituição do presidente foi aprovada pelo Conselho Deliberativo, resultando em seu afastamento temporário. Uma nova votação, desta vez envolvendo os sócios do clube, deverá decidir de forma definitiva o futuro da presidência.

A pressão aumentou após a divulgação de áudios que indicariam a exploração clandestina de um camarote do Morumbis, inclusive durante o show da cantora Shakira, realizado em fevereiro de 2025.

Além do caso dos camarotes, a Polícia Civil apura movimentações financeiras suspeitas envolvendo o clube e o presidente afastado. Entre os pontos investigados estão depósitos em dinheiro que somam R$ 1,5 milhão nas contas de Julio Casares e 35 saques realizados nas contas do São Paulo entre 2021 e 2025, totalizando cerca de R$ 11 milhões.

As autoridades afirmam que as apurações seguem em andamento e que novos desdobramentos não estão descartados nos próximos dias.

Autor

  • Nicolas Pedrosa

    Jornalista formado pela UNIP, com experiência em TV, rádio, podcasts e assessoria de imprensa, especialmente na área da saúde. Atuou na Prefeitura de São Vicente durante a pandemia e atualmente gerencia a comunicação da Caixa de Saúde e Pecúlio de São Vicente. Apaixonado por leitura e escrita, desenvolvo livros que abordam temas sociais e histórias de superação, unindo técnica e sensibilidade narrativa.

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *