Há um problema inerente a obras que se tornam eventos: elas deixam de pertencer apenas à narrativa e passam a carregar o peso da indústria, da marca e da memória afetiva de uma geração inteira. Stranger Things chegou à sua quinta e última temporada como a série mais longeva e simbólica da Netflix, um pilar do streaming moderno.
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O que se esperava, portanto, não era apenas um encerramento competente, mas um final à altura de sua importância histórica. O que se entrega, no entanto, é algo bem mais tímido: uma conclusão tecnicamente irrepreensível, emocionalmente calculada e dramaticamente aquém do que poderia, e deveria, ser.
Dividida em volumes, a temporada final já nasce fragmentada, e isso compromete sua força como obra coesa. O Volume 1 funciona quase como um grande prólogo estendido, reposicionando personagens, retomando traumas e reafirmando vínculos emocionais. Tudo é correto, funcional e até envolvente, mas também excessivamente seguro. Já o Volume 2, vendido como amadurecimento narrativo, opta por desacelerar e resolver conflitos pessoais antes do confronto final, uma escolha defensável em tese, mas que reforça a sensação de adiamento constante.

A palavra que melhor define Stranger Things 5 é cautela. Os Irmãos Duffer sabem exatamente o que o público espera, e entregam isso sem grandes desvios. Há emoção, espetáculo e discursos sobre amizade, pertencimento e crescimento. O problema é que quase tudo soa protocolar. Conflitos antigos são resolvidos porque precisam ser, não porque emergem organicamente da dramaturgia. Confissões surgem em momentos cirurgicamente calculados, e relações se reorganizam de forma conveniente, como se o roteiro estivesse mais preocupado em “fechar arcos” do que em permitir que eles colidissem de maneira honesta.
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O terror, outrora um dos pilares da série, perde força justamente quando deveria atingir seu auge. Vecna continua visualmente imponente, mas dramaticamente diluído. Sua ameaça é anunciada como definitiva, mas raramente sentida como irreversível. O Mundo Invertido, que já foi um espaço de estranhamento genuíno, agora parece excessivamente mapeado, explicado e domesticado. Stranger Things troca o medo pelo espetáculo, e, ao fazer isso, esvazia parte essencial de sua identidade.

Outro problema estrutural evidente é o inchaço narrativo. Mesmo na reta final, a série insiste em manter núcleos pouco interessantes, como o arco militar e a presença de Kali, que funcionam mais como obstáculos mecânicos do que como forças dramáticas reais. A Dra. Kay é mais um antagonista institucional genérico, repetindo um modelo que a série já explorou melhor no passado. Essas distrações quebram o ritmo e diluem o impacto emocional de uma história que deveria estar completamente focada em seus protagonistas.
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Talvez a maior contradição da temporada seja esta: Stranger Things quer ser madura, mas não quer ser dura. Quer falar sobre perdas, mas evita consequências definitivas. Quer emocionar, mas raramente confronta o espectador. Mesmo quando flerta com decisões mais radicais, recua rapidamente para soluções ambíguas ou reconfortantes. A série prefere preservar sua aura de aventura acessível a assumir o peso trágico de um verdadeiro encerramento.
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Eleven, o coração simbólico da narrativa, acaba sendo a maior vítima dessa indecisão criativa. Sua trajetória sempre foi marcada pela solidão, pela instrumentalização e pela busca por identidade. O desfecho de sua jornada, porém, soa mais como uma manobra estratégica do que como um ponto final emocionalmente coerente. Em vez de catártico, é hesitante. Em vez de libertador, é funcional. A personagem não é encerrada, é arquivada, pronta para ser revisitada se necessário.

Tecnicamente, não há muito a criticar. A produção é impecável, os efeitos especiais são de alto nível, a direção sabe conduzir grandes cenas e o elenco segue carismático. Mas forma não substitui substância. Stranger Things termina com a grandiosidade de um blockbuster e a alma de um produto que tem medo de se despedir.
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No fim, o saldo é agridoce, e mais doce do que deveria. A série que começou pequena, estranha e intimista encerra sua trajetória de forma inflada, confortável e surpreendentemente inofensiva. Não é um desastre, mas para uma obra que redefiniu o streaming e marcou uma geração, terminar como um espetáculo correto e facilmente digerível é uma decepção proporcional ao seu tamanho.
Stranger Things se despede sem falhar, e justamente por isso decepciona. Um final que não ousa, não arrisca e não sangra. Um picolé de chuchu narrativo: bonito, gelado, fácil de consumir… mas sem gosto e rapidamente esquecido.
Veja trailer do temporada final
MAS, E A NOTA?
Stranger Things chega ao fim como um produto consciente demais do próprio tamanho. A temporada final abandona qualquer pretensão de reinvenção e opta por um encerramento seguro, que privilegia o conforto emocional do público em detrimento de riscos narrativos reais. Hawkins volta a ser palco de uma guerra que não é apenas contra Vecna, mas contra o próprio amadurecimento da série, presa entre a nostalgia que a consagrou e a necessidade de concluir sua história.
Narrativamente, a temporada acerta ao reafirmar a amizade como eixo central, mas enfraquece ao transformar conflitos complexos em resoluções protocolares. A ameaça do Mundo Invertido é grandiosa em escala, porém curiosamente pouco opressiva, diluída por explicações excessivas, subtramas descartáveis e uma recusa constante em lidar com consequências definitivas. O mal existe, mas raramente deixa cicatrizes irreversíveis.
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Tecnicamente, Stranger Things 5 é irrepreensível. A produção é de alto nível, os efeitos visuais são sólidos e o elenco segue carismático. O problema não está na forma, mas na previsibilidade estrutural e na sensação de que a série prefere encerrar portas com cuidado, para não fechá-las por completo, do que assumir um ponto final honesto e corajoso.
Ao final, Stranger Things não falha. Mas também não ousa. Não é o encerramento trágico que poderia ser, nem o épico transformador que sua relevância cultural sugeria. É um adeus educado, funcional e emocionalmente calculado, que preserva a memória afetiva, mas evita o desconforto de um verdadeiro fim.
NOTA: 6,5/10 – Stranger Things termina como começou: evocando amizade, imaginação e pertencimento. Impressiona pelo espetáculo e pelo carinho com seus personagens, mas perde força ao insistir em soluções fáceis, vilões diluídos e decisões narrativas excessivamente cautelosas. Um encerramento correto para uma série gigantesca, e decepcionante justamente por isso.
Ficha Técnica

- Título: Stranger Things 5.
- País: EUA.
- Estreia: 2025.
- Direção: Matt Duffer e Ross Duffer.
- Roteiro: Matt Duffer e Ross Duffer.
- Elenco: Winona Ryder I David Harbor I Finn Wolfhard I Millie Bobby Brown I Gaten Matarazzo I Caleb McLaughlin I Natalia Dyer I Sadie Sink I Noah Schnapp I entre outros.
- Duração: 50/120 minutos por episódio.
- Gênero: Drama I Ficção Científica I Fantasia.
- Classificação: 14 anos.









