Sam Smith encontra no country e no folk novo caminho em ‘Hazel Eyes’, mas perde força no percurso

Sam Smith chega ao quinto álbum de estúdio disposto a se afastar das fórmulas que ajudaram a construir sua carreira. Em Hazel Eyes, lançado nesta sexta-feira (21), o artista britânico troca parte do pop grandioso de trabalhos anteriores por violões, cordas, coros, elementos de country e referências ao folk norte-americano.

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A mudança é perceptível desde os primeiros minutos. O disco abre com “Everlasting Love”, conduzida por violão e uma interpretação mais contida, estabelecendo uma atmosfera distante das baladas pop que transformaram Smith em uma das vozes mais reconhecidas de sua geração.

O novo repertório é resultado de um processo que se estendeu por mais de três anos. Smith dividiu a produção com Simon Aldred, ex-integrante do Cherry Ghost, e David Odlum, além de trabalhar com músicos ligados ao folk, à música de câmara e à cena alternativa.

O resultado é um álbum que, em seus melhores momentos, permite que Smith explore a própria voz sem depender da potência vocal como principal atração. Em outros, porém, a tentativa de ampliar horizontes parece mais uma experiência inconclusa do que uma transformação plenamente realizada.

Um disco que procura outras raízes

A aproximação com o country e o folk não acontece apenas pela escolha dos instrumentos. Hazel Eyes procura recuperar uma tradição musical norte-americana em que diferentes gêneros se cruzam, do soul à música religiosa, passando pelo country e pelo folk.

Simon Aldred exerce papel importante nessa mudança. Amigo de longa data de Smith, o produtor e compositor ajuda a construir uma sonoridade menos associada ao pop eletrônico e às grandes baladas que marcaram etapas anteriores da carreira.

A participação da canadense Feist também contribui para esse deslocamento. Ela aparece em “Moondance” e “My Guy”, tanto como compositora quanto nos vocais de apoio. Sua voz, reconhecível pela característica aspereza, acrescenta ao álbum uma textura mais rústica e orgânica.

É justamente nesse contraste entre a voz aveludada de Smith e a instrumentação mais áspera que o projeto encontra parte de sua identidade.

O álbum ainda reúne nomes como o multi-instrumentista Shahzad Ismaily e o arranjador de cordas Rob Moose, conhecido por trabalhos com artistas ligados ao indie e ao folk contemporâneo. Parte das gravações foi realizada no Electric Lady Studios, em Nova York, onde Smith vive atualmente.

A escolha dos colaboradores deixa evidente a intenção: menos pista de dança, mais banda tocando ao redor do intérprete.

“When He’s Gone” é o ponto alto

Se Hazel Eyes possui uma faixa capaz de sintetizar sua proposta, ela é “When He’s Gone”.

A quinta música do álbum combina violão dedilhado, guitarras com reverberação, percussão, coros e uma condução típica do country, criando uma atmosfera cinematográfica. A faixa poderia facilmente acompanhar uma sequência de uma série policial ambientada no interior dos Estados Unidos ou dialogar com o country contemporâneo de grandes produções pop.

Smith, por sua vez, evita transformar a música em demonstração de alcance vocal.

Em vez de recorrer continuamente aos agudos e graves que ajudaram a definir sua assinatura, o cantor mantém uma interpretação mais controlada. A escolha é acertada porque permite que a emoção venha da construção da música, e não apenas da performance.

É o momento em que cantor, compositor, produtor e arranjo parecem finalmente perseguir a mesma ideia.

A gravação também preserva uma sensação de espontaneidade. A música foi registrada ao vivo, sem o uso de clique, em uma tentativa de manter a atmosfera da execução original.

O efeito é significativo: há movimento, espaço e imperfeição suficientes para que a faixa pareça menos fabricada do que boa parte do pop contemporâneo.

O problema é que “When He’s Gone” estabelece um padrão que o restante do álbum não consegue manter.

Depois do auge, o disco perde direção

A partir da segunda metade, Hazel Eyes começa a alternar momentos interessantes com escolhas que soam menos naturais.

“Sugar Rush” é um exemplo. A faixa incorpora corais de doo-wop e metais associados à tradição das big bands, mas a combinação não encontra o mesmo equilíbrio apresentado anteriormente. A interpretação de Smith se aproxima de uma caricatura de si própria, enquanto os elementos acrescentados à produção disputam espaço em vez de formar uma unidade.

“Constant Companion” segue outro caminho. Os violões criam uma aparência de novidade, mas a estrutura remete às baladas dos primeiros trabalhos de Smith. A produção sofisticada, com piano e cordas, acaba revelando mais a continuidade com o passado do que uma verdadeira ruptura.

É uma contradição que atravessa o álbum: Smith quer encontrar uma nova linguagem, mas nem sempre consegue abandonar completamente os mecanismos que já domina.

O resultado é particularmente evidente nas faixas finais.

“Hold On” e “To Be Free” adotam uma abordagem mais abertamente inspiracional. A intenção é compreensível, mas as duas canções se aproximam demais de um tipo de pop motivacional conhecido, com melodias grandiosas e mensagens de superação que diminuem a personalidade construída anteriormente pelo disco.

O encerramento é, portanto, menos uma conclusão natural do percurso e mais um retorno a uma zona de conforto.

Um álbum também marcado pelo amor

O próprio título do disco carrega uma dimensão pessoal. Hazel Eyes, expressão que significa “olhos cor de avelã”, é uma referência aos olhos de Christian Cowan, estilista e noivo de Smith.

A relação amorosa também atravessa a concepção temática do álbum. Smith descreveu o projeto como um trabalho interessado nas diferentes nuances de um relacionamento, inclusive em seus momentos de melancolia.

Há uma tentativa declarada de tratar o romantismo de maneira mais aberta. Para o artista, demonstrar vulnerabilidade não significa apenas falar sobre sofrimento ou perda, mas também assumir publicamente sentimentos amorosos.

Essa dimensão ajuda a compreender algumas das escolhas mais delicadas do disco. Em vez de apostar exclusivamente na dor, Smith procura trabalhar intimidade, afeto e vulnerabilidade como elementos centrais da composição.

É uma mudança importante para um artista cuja carreira foi frequentemente associada às grandes canções sobre desilusão amorosa.

Entre “Gloria” e uma nova fase

Hazel Eyes chega três anos depois de Gloria, álbum que marcou outra tentativa de Smith de ampliar os limites de sua música. O trabalho anterior teve em “Unholy”, colaboração com Kim Petras, um de seus maiores sucessos e levou o artista para uma direção mais próxima da música eletrônica e de uma estética pop provocadora.

Agora, a guinada é praticamente oposta.

O novo álbum prefere instrumentos acústicos, arranjos de cordas, coros e referências à música tradicional norte-americana. É uma transformação estética considerável, ainda que não seja completamente bem-sucedida.

A estratégia começou a ser apresentada antes do lançamento do disco. “Love Is a Stillness” e “To Be Free” foram divulgadas em 2025, enquanto “My Guy” chegou em junho deste ano, acompanhada do anúncio oficial do álbum. “Oh Mother” foi lançada em julho, ampliando as pistas sobre a nova direção musical.

O percurso até aqui mostra que Smith não está simplesmente tentando repetir o sucesso de trabalhos anteriores. Há uma busca real por outra identidade.

O problema de Hazel Eyes não está na ambição, mas na irregularidade.

Uma reinvenção que ainda está pela metade

O quinto álbum de Smith é mais interessante quando deixa de tentar provar que é diferente.

Nas melhores faixas, o artista encontra um equilíbrio entre sua voz e uma instrumentação que não havia explorado com tanta profundidade. “When He’s Gone” é a demonstração mais evidente disso, mas as participações de Feist e a atmosfera das primeiras músicas também apontam para um caminho promissor.

Nas piores, entretanto, o álbum parece experimentar referências sem transformá-las em uma linguagem própria.

Foto tirada para campanha de lançamento do novo álbum de Sam Smith, o "Hazel Eyes" - Foto: Collier Schorr
Foto tirada para campanha de lançamento do novo álbum de Sam Smith, o “Hazel Eyes” – Foto: Collier Schorr

Smith descobriu novas paisagens musicais, mas ainda não parece completamente à vontade dentro delas.

Isso não torna Hazel Eyes um fracasso. Pelo contrário: o disco é importante justamente porque revela um artista disposto a abandonar algumas certezas. A questão é que uma boa reinvenção precisa de mais do que novas referências; precisa de consistência para transformar essas referências em identidade.

Ao longo das 12 faixas, Smith demonstra que ainda possui uma das vozes mais marcantes do pop contemporâneo. O que falta é fazer com que essa voz pareça pertencer naturalmente ao universo musical que o álbum pretende construir.

No fim, Hazel Eyes funciona melhor como registro de uma transição do que como destino final. O country e o folk oferecem a Smith possibilidades que sua discografia ainda não havia explorado plenamente. Quando o artista se entrega a elas, o resultado é surpreendente. Quando tenta voltar às fórmulas conhecidas, o encanto desaparece.

É um álbum de altos e baixos, mas também um sinal claro de que a zona de conforto deixou de ser suficiente. A vontade de mudar está presente. Resta agora transformar essa vontade em uma obra que consiga sustentar a mudança do primeiro ao último acorde.

Faixas de Hazel Eyes

  1. “Everlasting Love”
  2. “Hazel Eyes”
  3. “Moondance” (feat. Feist)
  4. “My Guy”
  5. “When He’s Gone”
  6. “Thief”
  7. “Love Is a Stillness”
  8. “Sugar Rush”
  9. “Oh Mother” (feat. The TwoCity Chorus)
  10. “Constant Companion”
  11. “Hold On”
  12. “To Be Free”

Escute “Hazel Eyes” de Sam Smith

Autor

  • Nicolas Pedrosa

    Jornalista formado pela UNIP, com experiência em TV, rádio, podcasts e assessoria de imprensa. Atuou na Prefeitura de São Vicente durante a pandemia e atualmente gerencia a comunicação da Caixa de Saúde e Pecúlio de São Vicente. Apaixonado por leitura e escrita, desenvolvo livros que abordam temas sociais e histórias de superação, unindo técnica e sensibilidade narrativa.

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