Um dos arcos mais interessantes e explorados por Hollywood é o do protagonista que vende a alma para o diabo e se afunda na própria ganância. Isso rende filmes como: Cisne Negro (2010), Whiplash (2014), O Lobo de Wall Street (2013) e até mesmo Cidadão Kane (1941); rende prêmios de atuação e roteiros; rende uma bolada. Apesar de ser um tema bem explorado, não é difícil dizer que Marty Supreme, de Josh Safdie, é uma das obras que explora essa narrativa de um dos jeitos mais originais da história recente do cinema. Não é sobre a queda de Ícaro que o filme fala e sim sobre como ele se salva usando os outros para amortecê-la.
Marty Mauser, interpretado brilhantemente por Timothée Chalamet e vagamente inspirado no mesatenista Marty Reisman, é o protagonista dessa história ambientada principalmente em Nova York. O filme é uma miscelânea de aventuras imorais nas quais Marty se envolve para alcançar algo que ele não denomina como sonho, mas destino: tornar-se o melhor mesatenista do mundo.
Com um ritmo frenético e vários arcos que se ligam de um jeito que você tem dificuldade em dizer como, Josh Safdie consegue amarrar tudo isso sem deixar pontas soltas ou ser auto explicativo demais.

O ponto alto do filme é com certeza a atuação irretocável de Timothée, que parece estar atingindo a grandeza que ele disse aspirar no SAG Awards de 2025 e a grandeza que Marty Mauser almeja. O protagonista é um verdadeiro canalha que faz qualquer coisa em detrimento dos outros por achar que sua existência é simplesmente mais significativa que a dos outros. Timothée convence a gente a acreditar nessa tese tão absurda.
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Marty usa uma de suas amantes, Rachel Mizler (Odessa A’zion), e seu amigo de golpes, Wally (Tyler, the Creator), como degraus na sua escada para o sucesso. Marty dá em cima da atriz renomada Kay Stone (Gwyneth Paltrow) como se fosse irrecusável. São essas as interações que fundamentam o filme e só ganham tanto poder pela atuação de todo o elenco.
Timothée faz de Mauser a pessoa mais confiante do mundo, ou mais convencida de que ele é um ser extraordinário, como diria Raskolnikov. Quanto aos outros personagens, não são culpados por cair nessa presença tão envolvente que Chalamet cria, mesmo que isso os leve às ruínas.
Marty parece distribuir um pouco de sua essência autodestrutiva em cada um dos outros personagens de forma que ele não tem remorso algum ou apego a nada, muito menos sofra as consequências como os outros sofrem. Tudo o que lhe interessa é o tênis de mesa e no mesmo momento que ele acaba de sair de uma encrenca, sua cabeça já está de volta no esporte.
Os alívios cômicos, achados no meio do absurdo, contribuem para o olhar pouco preocupado de quem está assistindo em relação as enrascadas do filme, junto com o olhar do próprio Marty para suas ações.
A direção constrói um clima de tensão constante, com movimentos de câmera sufocantes, por duas horas e meia sem que isso enjoe. Um dos motivos para isso, além do personagem principal ser extremamente cativante, é o humor ácido, bem pontuado, que expõe ressentimentos da Segunda Guerra Mundial. O sonho de Supreme é derrotar Koto Endo (Koto Kawaguchi), o então melhor ranqueado do mundo no tênis de mesa e rival/antítese do protagonista.
Então, o jovem judaico-americano promete ser a “terceira bomba no Japão” e, para isso, humilha-se com vigor para conseguir um financiamento do empresário Milton Rockwell (Kevin O’Leary). Por outro lado, quando lhe convém, Marty zomba do filho de Rockwell que morreu na guerra lutando contra os japoneses. Marty mostra novamente que não se apega a nenhuma norma e só quer fazer o que for preciso para se provar o melhor mesatenista do mundo.
A narrativa vai, enfim, para Marty derrotando Endo, se livrando da necessidade do dinheiro de Rockwell e atingindo sua catarse final com a paternidade. Marty, apesar de representar uma minoria, prova que usar os outros como degrau às vezes funciona. Ele estraga a vida de várias pessoas, é um péssimo amigo/amante/familiar, causa milhares de dólares em prejuízo, pratica violência e crimes sem nenhum pudor, e, no final, ainda tem a redenção que ele tanto quer e precisa.
O épico sobre a América é coroado com uma trilha sonora contrastante dos anos 80 que pontua a obsessão de Marty, sua intensidade e a máscara que é representar os Estados Unidos no topo, quando na verdade ele só quer ser reconhecido como melhor.
É difícil entender como Rachel e sua família o perdoam depois de sua redenção, sem que ele nem peça. No entanto, Marty Supreme é um jeito diferente (e ótimo) de se ver como Ícaro poderia se salvar usando os outros para amortecedor sua queda. Cheio de camadas e críticas sobre a moral e ética do pós-guerra, Marty Supreme é inegavelmente um dos melhores filmes da temporada.









