“Avatar: Fogo e Cinzas” eleva discurso ambiental, mas tropeça no maniqueísmo

James Cameron nunca escondeu que Avatar é, antes de tudo, um projeto ideológico embalado como blockbuster. Desde 2009, Pandora funciona como espelho distorcido da humanidade: um planeta exuberante usado para denunciar a ganância corporativa, o colonialismo e a destruição ambiental. Em “Avatar: Fogo e Cinzas“, essa proposta retorna mais agressiva, menos alegórica e decididamente mais polarizada. O subtexto, antes insinuado pela metáfora, agora ocupa o centro da narrativa, e Cameron parece pouco interessado em sutilezas.

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Ambientado imediatamente após os eventos de “O Caminho da Água“, o filme abandona saltos temporais e aposta na continuidade emocional. O luto de Jake Sully e sua família não é tratado como elemento periférico, mas como motor dramático. A morte de Neteyam paira sobre cada decisão, contaminando relações e aprofundando fissuras internas. Neytiri emerge como figura tomada pelo ódio e pela dor, e sua rejeição a Spider transforma o garoto em símbolo vivo daquilo que ela mais despreza: a herança humana que insiste em sobreviver em Pandora.

É nesse ponto que Fogo e Cinzas começa a operar sua lógica dicotômica. Humanos e Na’vi não são apenas povos distintos; são lados morais opostos. A introdução da tribo das cinzas, liderada por Varang, reforça essa separação ao deslocar o conflito para dentro da própria cultura Na’vi. Cameron tenta complexificar o universo, mas acaba caindo em um maniqueísmo visual e simbólico, no qual o fogo, a agressividade estética e a negação de Eywa funcionam mais como marcadores de vilania do que como traços culturais orgânicos.

Varang é a principal antagonista de "Avatar: Fogo e Cinzas" - Reprodução/20th Century Studios
Varang é a principal antagonista de “Avatar: Fogo e Cinzas” – Reprodução/20th Century Studios

A proposta é interessante, mostrar que o mal não pertence apenas ao invasor, mas a execução enfraquece a ambiguidade. O filme constantemente aponta quem deve ser temido e quem deve ser admirado, raramente permitindo que o espectador construa suas próprias conclusões. A fé em Eywa deixa de ser apenas espiritualidade e passa a funcionar como critério moral.

No núcleo humano, Fogo e Cinzas retoma o embate entre ciência e exploração corporativa, agora ampliado por um cenário apocalíptico. A Terra está condenada, e Pandora deixa de ser apenas alvo econômico para se tornar a última fronteira de sobrevivência humana. A crítica ambientalista é direta, quase didática, e Cameron não tenta disfarçar seus paralelos com o mundo real: o capitalismo é retratado como predador terminal.

Esse discurso encontra maior equilíbrio no núcleo jovem. Spider, Kiri e Lo’ak assumem posições centrais, representando futuros possíveis para Pandora e para a franquia. A sensação de passagem de bastão é clara, ainda que o roteiro, por vezes, force esses arcos a se encaixarem em uma estrutura excessivamente programática.

Avatar: Apelidado de Spider, o novo personagem se chama Miles Socorro e é interpretado pelo ator norte-americano Jack Champion, de 18 anos - Foto: Reprodução/20th Century Studios
Apelidado de Spider, o novo personagem se chama Miles Socorro e é interpretado pelo ator norte-americano Jack Champion, de 18 anos – Foto: Reprodução/20th Century Studios

Visualmente, Avatar: Fogo e Cinzas reafirma James Cameron como força singular do cinema de espetáculo. O nível de detalhamento, a fluidez dos movimentos e a integração entre atores e ambientes digitais atingem um patamar quase indistinguível do real. Pandora não é cenário: é organismo vivo.

As atuações sustentam esse mundo com surpreendente carga emocional. Zoe Saldaña entrega uma Neytiri mais brutal e instável, enquanto Sam Worthington constrói um Jake cansado, consciente do custo de cada escolha. O elenco jovem acompanha esse tom com segurança, evitando que a transição geracional soe artificial.

Esse é o visual do líder da 'Tribo do vento' em "Avatar: Fogo e Cinzas" - Foto: Divulgação/Disney
Esse é o visual do líder da ‘Tribo do vento’ em “Avatar: Fogo e Cinzas” – Foto: Divulgação/Disney

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Narrativamente, porém, o filme não escapa de problemas estruturais. A progressão é previsível, os conflitos seguem padrões já conhecidos e o desfecho, embora grandioso, carece de impacto dramático real. Cameron parece mais interessado em preparar o fim da saga do que em fechar plenamente este capítulo.

Ainda assim, Avatar: Fogo e Cinzas é um passo relevante dentro da franquia. Mais sombrio, mais político e menos conciliador, abandona qualquer pretensão de neutralidade. Pode tropeçar no didatismo e na repetição, mas permanece fiel à essência de Avatar: o cinema popular como espaço de confronto ideológico.

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No fim, Cameron não está apenas contando uma história sobre um planeta fictício. Está, mais uma vez, usando Pandora para lembrar que o verdadeiro risco de extinção nunca veio de fora.

Veja trailer do filme

MAS, E A NOTA?

Avatar: Fogo e Cinzas se consolida como o capítulo mais combativo e ideologicamente explícito da franquia. James Cameron transforma Pandora em campo de batalha político, onde o conflito não é apenas territorial, mas moral. A guerra é entre modelos de mundo: exploração versus coexistência, fé coletiva versus domínio corporativo.

Narrativamente, o longa ganha força ao permanecer colado às consequências emocionais do filme anterior, mesmo quando insiste em dicotomias excessivamente rígidas. A tribo das cinzas amplia o universo, mas também expõe os limites simbólicos da abordagem.

Avatar: O terceiro longa da história apresenta duas novas tribos - Foto: Twitter/Disney D23
O terceiro longa da história apresenta duas novas tribos – Foto: Twitter/Disney D23

Tecnicamente, o filme é irrepreensível. A sofisticação visual reafirma Cameron como referência absoluta do espetáculo cinematográfico. O problema não está na forma, mas na previsibilidade estrutural e no excesso de explicações.

Ao final, Fogo e Cinzas não quer agradar. Quer confrontar. Pode não ser o capítulo mais equilibrado da saga, mas é o mais honesto em suas intenções.

NOTA: 7,5/10Avatar: Fogo e Cinzas impressiona pelo espetáculo e pela clareza temática, mas perde força ao insistir em soluções narrativas previsíveis e em um maniqueísmo que limita sua ambição dramática. Ainda assim, segue sendo um épico relevante, visualmente arrebatador e incômodo, consciente de que o verdadeiro apocalipse não vem do espaço, ele é produzido aqui mesmo.

Ficha Técnica

  • Título: Avatar: Fogo e Cinzas.
  • País: EUA.
  • Estreia: 2025.
  • Direção: James Cameron.
  • Roteiro: James Cameron, Rick Jaffa, Amanda Silver.
  • Elenco: Kate Winslet I Oona Chaplin I Britain Dalton I Stephen Lang I Sigourney Weaver I Zoe Saldana I Jemaine Clement I Cliff Curtis I Jack Champion I Sam Worthington I Giovanni Ribisi I entre outros.
  • Duração: 3h17min.
  • Gênero: Ação I Ficção Científica I Aventura.
  • Classificação: 14 anos.

Autor

  • Nicolas Pedrosa

    Jornalista formado pela UNIP, com experiência em TV, rádio, podcasts e assessoria de imprensa, especialmente na área da saúde. Atuou na Prefeitura de São Vicente durante a pandemia e atualmente gerencia a comunicação da Caixa de Saúde e Pecúlio de São Vicente. Apaixonado por leitura e escrita, desenvolvo livros que abordam temas sociais e histórias de superação, unindo técnica e sensibilidade narrativa.

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