Motivação ou disciplina? O segredo para manter os treinos mesmo nos dias sem vontade

Em algum momento da vida, especialmente após os 50 anos, quase todo praticante de atividade física se depara com a mesma situação: o dia está cheio, o corpo parece mais cansado e a vontade de treinar simplesmente não aparece. É comum acreditar que a motivação deveria surgir espontaneamente, mas a ciência do comportamento mostra que, na maioria das vezes, ela não vem antes da ação — ela surge depois. Entender essa diferença é fundamental para quem deseja manter uma rotina de exercícios consistente, saudável e prazerosa ao longo do tempo.

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A motivação é um estado emocional variável. Ela oscila conforme o humor, o nível de energia, o clima e até acontecimentos do dia. Já a disciplina está ligada a decisões conscientes e repetidas, mesmo quando a vontade não colabora. Para o público acima dos 50 anos, essa distinção é especialmente importante, pois o objetivo principal do exercício costuma ser qualidade de vida, autonomia e saúde a longo prazo — e não apenas estética ou desempenho.

Na prática, isso significa mudar a forma como o treino é encarado. Em vez de depender da animação do momento, o exercício passa a fazer parte da rotina, assim como escovar os dentes ou preparar uma refeição. Um exemplo simples é definir horários fixos para se movimentar. Quando o treino tem “hora marcada”, o cérebro entende aquela atividade como compromisso, não como opção negociável. Mesmo em dias de menor disposição, iniciar o movimento costuma ser suficiente para que o corpo responda melhor do que o esperado.

Outro ponto essencial é ajustar as expectativas. Muitas pessoas abandonam o treino porque acreditam que ele precisa ser longo ou intenso para valer a pena. No entanto, estudos mostram que sessões curtas e regulares trazem benefícios expressivos, especialmente quando realizadas de forma consistente. Em dias mais difíceis, uma caminhada leve, alguns exercícios de mobilidade ou um circuito simples em casa já cumprem o papel de manter o hábito ativo. O corpo responde positivamente à regularidade, não à perfeição.

Estratégias mentais também fazem grande diferença. Uma delas é reduzir a decisão ao mínimo possível. Deixar a roupa separada, escolher previamente os exercícios ou definir um local fixo para treinar elimina barreiras invisíveis que costumam gerar adiamento. Outra estratégia eficiente é o chamado “acordo mínimo”: prometer a si mesmo que fará apenas cinco ou dez minutos. Na maioria das vezes, após esse início, a tendência é continuar. E, quando não acontece, o compromisso ainda foi cumprido.

O prazer também precisa entrar na equação. Treinar não deve ser encarado como punição, mas como autocuidado. Atividades que combinam movimento com algo agradável — como música, luz natural ou até a companhia de outras pessoas — aumentam a adesão. Para muitos, alternar modalidades ao longo da semana ajuda a evitar a monotonia. Um dia mais focado em força, outro em alongamento ou equilíbrio, outro em atividades aeróbias leves cria variedade e mantém o interesse.

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Além disso, reconhecer os benefícios cotidianos do exercício fortalece a disciplina. Dormir melhor, sentir menos rigidez ao acordar, subir escadas com mais facilidade ou manter o equilíbrio em tarefas simples são sinais claros de progresso. Quando o exercício é associado a essas conquistas práticas, ele deixa de ser um esforço abstrato e passa a ter significado concreto.

Vale destacar que a autocompaixão é parte do processo. Haverá dias em que o treino não acontecerá, e isso não deve ser interpretado como fracasso. O que realmente importa é a capacidade de retomar a rotina no dia seguinte, sem culpa excessiva. A disciplina sustentável não é rígida, mas flexível e realista.

Manter o ritmo de treinos quando a vontade falta não depende de força de vontade constante, mas de estratégias inteligentes e hábitos bem construídos. Ao transformar o exercício em parte natural da rotina, reduzir barreiras, ajustar expectativas e buscar prazer no movimento, a prática se torna mais leve e duradoura. E, com o tempo, a motivação — aquela que parecia ausente — passa a surgir como consequência de um corpo mais ativo, confiante e funcional.

Autor

  • Rogerio K.

    O Prof. Rogerio K. é Personal Trainer, especialista em treinamentos para adultos com foco em longevidade e independência.
    Formado em Educação Física e Pós Graduado em Fisiologia do Exercício pela Faculdade de Educação Física de Santo André, Especialista em Treinamento pelo Comitê Olímpico Brasileiro, Pós Graduado em Treinamento Físico, Marketing e Vendas pela Faculdade FaCiência e Pós Graduando em Gerontologia.

    Além disso, é responsável pelo Canal Ativos para Sempre (https://www.youtube.com/@ativosparasempre), no Youtube, com dicas sobre envelhecer com qualidade, é colunista do Portal Ponto360 (https://portalponto360.com.br/), com textos sobre saúde e qualidade de vida para pessoas 50+, é proprietário do Canal do Mixão no YouTube (https://www.youtube.com/@canaldomixao), que fala sobre o universo da natação, esporte no qual o Prof. Rogerio K. atua por mais de 40 anos, com muitos resultados expressivos, escreve no blog Técnica de Nado (www.tecnicadenado.blogspot.com) voltado para professores e amantes da natação e faz o Podcast Fora D'água (https://open.spotify.com/show/2ZYX6P52wsr7iqHv1uZYjC) com entrevistas que envolvem a contribuição dos esportes de competição na vida adulta e como formação de cidadãos.

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