Gláucia Silva e Taylor Swift: O método brasileiro que a Espanha “descobriu”

Scrollando nas redes sociais, descobri a história da bióloga brasileira que inventou o “Método Taylor Swift” para ensinar botânica a alunos que não demonstravam interesse por plantas. Embora exista uma reportagem de 2023 sobre o tema, no dia 24 de fevereiro deste ano uma universidade da Espanha publicou uma foto apropriando-se da ideia. Na legenda, lia-se: “[…] inovação no ensino desenvolvida no curso de Ciências Ambientais da UMH.”

Desde o ano passado, quando comecei a ler os livros da Ali Hazelwood, passei a ter consciência de quanto o mundo académico pode ser hostil para as mulheres. Ao ouvir a história de Gláucia Silva, uma faísca de indignação deu-me a ousadia de enviar uma mensagem despretensiosa para perguntar se poderia escrever sobre a sua trajetória. Para minha surpresa, ela gentilmente respondeu e hoje conto essa história para vocês.

MAS O QUE ACONTECEU?

Em 24 de fevereiro de 2026, a Universidad Miguel Hernández (UMH), na Espanha, fez uma publicação mencionando um “projeto pedagógico inovador desenvolvido no curso de Ciências Ambientais da UMH.”

Em entrevista, ao ser perguntada sobre o que sentiu ao descobrir a publicação, Gláucia desabafa: “Senti uma mistura de indignação e revolta. Como podem chamar de ‘inovador’ algo que criamos há tanto tempo?”

“Se o projeto já foi publicado, apresentado e saiu em diversas mídias nacionais e internacionais, ele deixa de ser inédito”, aponta a bióloga. Ela pondera que estão fazendo é “apenas uma aplicação do meu trabalho”. A professora considera que inovação é o que nunca foi feito antes, a nova metodologia por definição. E o dicionário não discorda.

Print de definição do dicionário para a palavra “Inovação”, destacando o significado de algo novo e sem precedentes.

Embora Gláucia alegue que “não há como dizerem que não sabiam, pois o professor espanhol estava presente na minha apresentação no congresso, em Madrid”, devemos considerar que existem coincidências e todos têm o benefício da dúvida.

Contudo, houve, de facto, publicações na mídia internacional anteriores à da universidade, datadas de dezembro de 2025. Como o da maior biblioteca biomédica do mundo, o National Institutes of Health (NIH), nos EUA. Ainda assim, é importante ressaltar que, já em 2023, no G1, Júlia Galvão entrevistou e escreveu sobre o método criado por Gláucia.

TAYLOR SWIFT NA BIOLOGIA?

Aparentemente, não é comum ou “bem-visto” que um professor utilize a cultura pop para facilitar a aprendizagem. Gláucia aponta que houve resistência de pares em relação ao estudo; muitos desacreditaram da metodologia. Porém, o reconhecimento internacional ajudou na validação interna, inclusive na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Embora inicialmente o sentimento oscilasse entre o estranhamento e a descrença, o método não funcionou apenas em Natal; o mundo inteiro teve acesso a esse conhecimento. O material foi publicado na New Scientist, uma das revistas de divulgação científica e tecnológica mais lidas do mundo, na Annals of Botany da Universidade de Oxford e na Sociedade Real de Horticultura do Reino Unido.

O desafio da professora era o desinteresse dos alunos pela disciplina: “Eles deixaram muito claro para mim que não curtiam plantas. (…) Os alunos acham que as plantas são muito chatas. Enfim, foi um ‘meu Deus, o que vou fazer para dar aula?’”.

Pensando em como introduzir o assunto, Gláucia decidiu começar com o conceito de cegueira botânica (ou impercepção botânica): a incapacidade de notar o valor das plantas no ambiente cotidiano. Como dever de casa, pediu que assistissem ao clipe de Blank Space. Na aula seguinte, questionou-os sobre o que viram.

Os alunos comentaram sobre a Taylor, o carro, a mansão e o modelo, mas ignoraram as plantas. A professora perguntou se não tinham notado a quantidade enorme de flora no vídeo. Por curiosidade, fui rever o clipe (lançado em 2014) e, realmente, nunca havia reparado na diversidade botânica ali presente. Convido-vos a assistir também:

Gláucia aproveitou o “choque” para ensinar a matéria. A estratégia era simples: ela não revelava o tema da aula, pedia que assistissem a um clipe específico e discutiam na aula seguinte. O vídeo seguinte foi cardigan, onde as plantas sobre o piano serviram de base para a aula de briófitas e pteridófitas. Os alunos abraçaram a ideia e o interesse genuíno despertou.

ATÉ QUANDO A HISTÓRIA SE REPETIRÁ?

“Infelizmente, muitos pesquisadores europeus acham que têm o direito de vir caçar ideias, plantas e animais aqui, e apropriar-se das nossas ideias (…). Como se não acreditassem que o brasileiro, o latino-americano, tem capacidade de produzir ciência de qualidade.” — Gláucia Silva.

Não seria a primeira vez que vemos a Europa apropriar-se do conhecimento do Hemisfério Sul. O Brasil, durante o período colonial, foi explorado e, diria até, usurpado. Também não é a primeira vez que um homem se apossa do estudo de uma mulher no mundo académico – seja na realidade, seja na ficção.

Lembram-se dos livros que mencionei? Em A Hipótese do Amor, de Ali Hazelwood, a protagonista tem a sua pesquisa roubada por um homem que era seu ex-namorado. A autora denuncia esse tipo de injustiça em quase todas as suas obras.

Assim como a protagonista de Hazelwood, Gláucia quer justiça. Ela entrou em contato com o departamento de inovação da UMH, mas a resposta foi protocolar. Enviaram o link de uma matéria onde o e-mail afirma que “o projeto inovador do nosso professor cita o seu trabalho”. Ao verificar, notei que ele cita o nome dela apenas como uma “inspiração” num congresso de 2024.

Captura do artigo publicado pela UMH onde o nome de Gláucia Silva aparece em menção secundária como “inspiração”.

Observem a escolha das palavras: “É importante também reconhecer a inspiração de Glaucia Silva […]”.

INSPIRAR E COPIAR TÊM SIGNIFICADOS DIFERENTES

Naturalmente, o tema teve espaço na mídia espanhola. Através de uma VPN, tive acesso a publicações internacionais. Uma delas foi no EurekAlert!, onde o nome de Gláucia nem sequer aparece.

Print do site EurekAlert! exibindo a notícia sobre o método de ensino com Taylor Swift, focando no professor espanhol e omitindo qualquer menção à pesquisadora brasilei

O Información, jornal regional de Alicante, também publicou a notícia sem citar a brasileira.

Já o Diário de Alicante traz uma fala do coordenador do projeto, Joaquín Moreno Compañ, elogiando a ferramenta estratégica dos videoclipes, mas tratando as descobertas de Gláucia como algo que apenas “coincide” com os resultados deles.

Recorte da matéria do Diário de Alicante onde o coordenador Joaquín Moreno Compañ explica o projeto. O texto cita Gláucia L. Silva como “investigadora” cujos dados “coincidem” com o projeto atual.

Ainda assim, nos créditos finais, a brasileira é omitida. Tentei contacto com o professor Joaquín Moreno Compañ e com a Universidad Miguel Hernández, mas até a publicação deste texto, não houve resposta.

Assim como no Brasil, na Espanha o plágio é crime! A ciência brasileira resiste, mas precisa de ser reconhecida, não apenas “citada como inspiração” por quem chega depois.

A vida (acadêmica) não é um morango mesmo!

Nota 1: Após a redação do artigo recebi um posicionamento da Universidad Miguel Hernández. Uma mensagem no LinkedIn e a resposta do e-mail enviado.

1.1 Na mensagem do LinkedIn a UMH se defende ao dizer:

“A redação do capítulo do livro do Prof. Moreno é anterior à publicação do artigo na Annals of Botany: o manuscrito do capítulo passou pela revisão por pares em março de 2025; o artigo na Annals of Botany da Profa. Silva foi publicado em dezembro de 2025. Portanto, as semelhanças percebidas no texto só podem ser uma consequência natural da referência ao trabalho anterior e do uso dos mesmos conceitos em contextos semelhantes.”

1.2 No e-mail a UMH afirma que o ‘manuscrito do capítulo do livro do professor Moreno foi enviado à editora Octaedro em março de 2025. Naquele momento, a única referência disponível da metodologia original era a comunicação de congresso da professora da Silva, que está citada corretamente (…)’. Reforçam que o não houve ausência de reconhecimento. Tanto a nota de imprensa quanto a notícia televisiva e o artigo de divulgação mencionam a pesquisadora da UFRN como criadora da metodologia.

Nas respostas às perguntas diretas, a univerdade afirma que não foi desenvolvido pela UMH. Reforça que o manuscrito do artigo do professor Moreno foi enviado em março de 2025, e que o artigo na Annals of Botany foi publicado em agosto. Sobre reconhecimento, afirmam já ter o feito desde o início. E mais uma vez reforça que houve tentativa de contato com a autora, mas não obteve respostas.

Um beijo e um queijo!

Vejo você semana que vem!

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