A coluna era para sair hoje (31) às 08h08 da manhã, mas não consegui. Muitos “não consegui” vieram nessas últimas semanas; por isso, decidi hoje tentar responder uma pergunta simples: “O que é o fracasso?” É um elefante na sala para muitas pessoas, já que vivemos em uma sociedade viciada em produtividade e desempenho. Há um ditado que diz que errar é humano e persistir no erro é burrice. Será mesmo?
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Segundo o dicionário, essa palavra tão dolorosa significa falta de êxito, malogro ou derrota. Etimologicamente, a palavra significava “quebrar” ou “romper” algo físico. Com o passar do tempo, o sentido passou a ser, metaforicamente, a quebra ou ruptura de expectativas, planos ou objetivos.
Fora da gramática, o fracasso tem outro significado. A psicologia diz que não é um estado permanente, e sim uma percepção subjetiva e emocional que gera sentimentos de frustração, vergonha ou insuficiência.
FRACASSAR É DIFERENTE PARA CADA UM
Você precisa de validação para tudo o que faz? Alfie Kohn, um autor focado em educação, fala muito sobre como as expectativas dos pais criam um sistema de recompensa onde o afeto só vem por meio do desempenho.
O argumento que ele traz é que, quando o valor de uma criança é medido pelo que ela faz — como notas, comportamentos e conquistas — e não por quem é, ela enraíza o sentimento de que o erro se traduz em “serei abandonada” ou “não me amam mais”. Na vida adulta, isso se manifesta em um perfeccionismo paralisante: se eu não for perfeito, não sou digno de ser amado.
Fonte: Unconditional Parenting (2005)
Diretamente relacionado ao que Kohn diz, existe a Teoria do Apego Inseguro-Ansioso (Bowlby e Ainsworth), que gera adultos ansiosos. As expectativas exageradas geralmente vêm acompanhadas de críticas duras demais, criando um modelo onde o mundo é um lugar de julgamento 24 horas por dia, 7 dias por semana. Para quem vive sob essa lente, parece melhor ir para o inferno do que fracassar.
De boas intenções, o inferno está cheio!
Essa busca por performance muitas vezes atinge seu ápice em dinâmicas familiares complexas. Pais narcisistas, por exemplo, costumam dizer que “fazem tudo pelo bem”, usando como argumento a carta do “eu sei o que é melhor para você”. Não me entenda mal, devemos sim respeitar os pais e considerar o que dizem. De fato, a maior parte deles tem boas intenções. Contudo, aprender a pensar com a própria cabeça é um passo vital para a maturidade.
Dante Alighieri, em sua descida pelo Inferno, descreve a transição para as regiões de maior suplício através da perda da visão e da esperança, afirmando: “Chegados somos onde luz não brilha”. Provavelmente você se perguntou o que uma frase escrita no começo dos anos 1300 tem a ver com o fracasso?
Suponha que “onde a luz não brilha” seja a vida adulta. Aquela fase em que nos desprendemos dos nossos pais é onde começamos a perceber o que a falta de ambiente saudável nos causou. Sair da casa dos pais não é fácil, mas imagine como deve ser para quem foi moldado a vida inteira para depender emocionalmente deles.
Assim como Dante, você desce até o inferno, mas seu destino final é o paraíso. Por experiência própria, lhes digo que passar por esse processo é profundamente doloroso, mas é aí onde se molda o seu caráter; o seu de verdade, não o imposto a você.
Claro que a vida não é um poema (nem um morango); o “inferno”, o “purgatório” e o “paraíso” são periódicos e recorrentes. Pode estar tudo bem e, de repente, está tudo horrível. A partir do momento em que você entende em qual “lugar” você está, fica mais simples seguir o caminho. Tudo passa, inclusive a sensação de fracasso.
COMO SOBREVIVER À CAMINHADA PELO INFERNO?
Sinto dizer-lhes, mas nem eu nem Dante temos uma resposta concreta. Lá no começo, eu comentei sobre o ditado de que errar é humano e persistir no erro é burrice. Apesar de ser uma frase quase tão antiga quanto Dante (exagero poético), eu afirmo que ela ignora o processo de aprendizado.
Depois que passei a estudar ciência e tecnologia, aprendi dois conceitos simples que se aplicam a todas as áreas da vida:
Conceito #1: A máquina aprende errando. Como todo mundo usa IA agora, vale entender o que é Machine Learning (aprendizado de máquina). Basicamente, a máquina aprende conforme recebe dados e identifica padrões. E adivinhem só? Se a máquina erra, o caminho é a correção. Exemplo bobo: você pergunta para uma IA se o céu é rosa. Digamos que ela responda que sim. Se você devolver dizendo: “Não, na verdade é azul”, a máquina aprende que o padrão anterior estava incorreto. Simples assim. O erro é o dado necessário para o acerto.
Conceito #2: Tudo começa no zero. Em boa parte das linguagens de programação, como Python, as sequências se iniciam no 0 e não no 1. O índice 0 representa a posição exata do início (ponteiro) da lista. Ou seja: nem o computador começa já no 1. Existe um caminho do 0 até o 1 e, como a matemática nos diz, existem infinitos números entre eles. Em nada do que você começar agora você será excelente de imediato. Isso não é falha, é apenas a forma correta de iniciar algo.
Se as máquinas aprendem errando, quem somos nós para exigir perfeição desde o “dia zero”?
Talvez você não tenha medo de errar, e sim medo de ser visto errando. Pense sobre isso.
Eu não consegui programar este texto para o horário combinado. Falhei? Tecnicamente, sim. O que eu fiz? Escrevi agora e estou publicando, mesmo que depois. O “certo” cronológico, às vezes, não é o seu certo humano.
Erre. Aprenda. Faça de novo.
Um beijo e um queijo!
Vejo você semana que vem!










