Esse fim de semana é um fim de semana de muita reflexão, muito amor, muita busca de nossas raízes porque é Páscoa e Páscoa é vida, vida é história e eu vou compartilhar com você um pouco da minha. Não pense que ela é diferente de milhões de outros seres humanos, que levaram suas raízes para serem fincadas em outras terras, cresceram, fortaleceram sua árvore e nunca se esqueceram do cheio do mato de onde vieram e, com sorte, um dia voltarão para sentir seus pés firmes na origem novamente.
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Para minha família, esse gostinho especial aconteceu ontem, num sábado de aleluia, quando meu pai voltou à sua terra natal, a pequena cidade de Ouro Velho, na Paraíba, de onde saiu há 70 anos, segurado pela mãozinha de criança, por seus pais, rumo às terras mineiras.
Esse era um sonho antigo meu, que minha irmã realizou, e é isso que as famílias fazem, uns vivem e se alegram pelos sonhos e realizações dos outros. Com esse momento tão especial, eu só posso dizer que sou grata demais por poder ver essa realização.
Você deve estar se perguntando se esse não era o sonho do meu pai, mas meu e das minhas irmãs, e eu vou te dizer uma coisa que é muito mais comum do que pensamos ser. Talvez não fosse mais o sonho dele, porque a vida vai nos engolindo e nós vamos passando por cima do que de fato importa e somente seguimos, seguimos porque precisamos, vivemos porque é assim que tem que ser, mas quando existe um presente da vida para nós, que nos mostra que tudo valeu a pena, é hora de brindar com a sua melhor taça, a da gratidão, que é a primeira lei da construção da felicidade.
Meu pai saiu da Paraíba com uns 7 anos de idade, rumo ao norte de Minas. Era ele, os pais, uma irmã e um irmão. Nunca pode voltar para se despedir do seu avô Moisés, que ele chamava de pai Tebéis, que trazia um docinho para ele, moleque, todos os dias, e ainda dividiam a fumaça de um enrolado de folhas de zabumba sendo queimadas para aliviar os sintomas da asma que ambos carregavam. Ontem, ele foi se despedir do avô dele, conseguiu dizer adeus para um homem que o ensinou o cuidado que se tem com quem se ama.
Meu avô se estabeleceu no norte de Minas, arrendou terra e lá ficou por mais de uma década. Nasceram outros filhos e filhas, muita batalha, mas muitas conquistas, e meu pai, o primeiro dos primeiros da nova geração, como eu, sofreu com meu avô e toda a família as consequências de uma chuva devastadora, que de fato lavou tudo, a lavoura, os sonhos e a permanência.
O jovem rapaz veio na frente para abrir caminho e preparar, em São Paulo, um lugar para o restante da família vir para a terra da garoa. Década de 1960, muitas dificuldades de comunicação e locomoção, mas o sujeitinho, com a fé que move nossa família há gerações, não se amedrontou. Ficou três dias parado na rodoviária, com uma caixinha de madeira na mão, como aquelas que vendem com uvas perto do Natal, fazendo as vezes da mala, que carregava tudo o que ele tinha, inclusive esperança e sonhos.
Sua missão era encontrar um tio, ele conseguiu encontrar o lugar onde esse tio trabalhava, na Lapa, mas o tio estava de férias. Um colega de trabalho do tio disse que um terceiro colega era vizinho do tio, mas naquele dia estava de folga, meu pai voltou a rodoviária, passou mais uma noite por lá e somente no outro dia conseguiu encontrar o amigo do tio. Foi para Pirituba, uma vila bem próxima de onde ele fincou suas raízes, e encontrou a sua família.
Teve medo? Sim. Perdeu a fé? Jamais… E seguiu!
Trabalhou duro, segurou nas mãos de Deus, foi apoiado por seu tios e tias e conseguiu trazer sua família de Minas para São Paulo. Tempos depois, conheceu minha mãe, em um encontro de corais das igrejas evangélicas da região, e como uma história preparada com todo o cuidado, eles casaram, já em 1973. Um ano depois, eu nasci, magrela, branca como papel e espevitada como sempre, afinal, espinho que vai furar já traz a ponta (risos).
E assim, eu entro nessa história. Essas conversas e lembranças de família são tão malucas para o entendimento raso, que sempre que se abre um baú, um fio puxa o outro, e sem explicação e não fazendo o menor sentido, as histórias brotam.
Olha só a minha felicidade, meu pai, nessa aventura de “vingar em São Paulo”, antes de ser gráfico, muito antes de ser radialista, montou uma perfumaria. Uma das minhas tias era funcionária dele, vendia esmaltes, e hoje, 50 anos depois, eu descobri que a perfumaria se chamava Claudia, em minha homenagem, nome esse dado a mim, também pelo meu pai, porque sempre foi nome de mulher linda e inteligente, segundo ele mesmo. E eu sou, mesmo que seja só para mim, só para ele e para os meus, mas sim, eu sou especial.
E você sabe que você também é, né? Porque aos olhos do amor, somos sempre especiais.
Mas por que eu estou te contando tudo isso? Porque se você sonha em realizar alguma coisa, de recontar a sua história a partir das suas raízes, de reencontrar o seu lugar, a sua origem, espere, confie, sinta no seu coração o desejo arder… Um dia, Deus vai permitir que você realize esse sonho e você lembrará de mim e eu farei parte dessa história contigo.
No mais, sejamos gratos em tudo, Ele renasceu dos mortos, imagine o que faz por nós, porque nos ama.
Em tudo, lembre-se que FELICIDADE é uma construção e precisa de um tijolinho todos os dias para ela acontecer.
Beijo da Linda para você, até a próxima.









2 Comentários
Bonita história Cláudia
Você bem sabe que seus textos mexem com minha mente né.
Então aí vai meu comentário https://open.substack.com/pub/meucarpediem/p/quando-um-bau-se-abre-as-historias?utm_source=share&utm_medium=android&r=40j835