Encontro marcado para sexta-feira, 30 de janeiro, das 8h às 8h45 da noite. Um clube do livro que não cobra presença, ele oferece espaço. Por isso, havia colocado apenas quarenta e cinco minutos de duração: um tempo relativamente curto, quase simbólico. O suficiente para aparecer, dizer “oi”, talvez ouvir mais do que falar e ir embora com a sensação de que algo existiu ali.
Crônica sobre o primeiro encontro de um clube de leitura feminino, criado para troca, afeto e liberdade entre mulheres leitoras
Não era obrigatório. Nunca foi e não vai ser. Quem quisesse, entrava. Quem não pudesse, tudo bem.
Só que a vida — essa entidade que adora testar cronogramas — decidiu intervir com um detalhe técnico: o salão de beleza estava sem água.
Eu tinha marcado de fazer o cabelo naquele mesmo dia, durante a tarde, mas tudo demorou bem mais do que o previsto. Quem pode me julgar? Eu queria estar linda; afinal, sou a presidente (figurativamente). Galões de água, lavagens improvisadas, espera. O tipo de espera que não se vence com pressa.
LEIA TAMBÉM: Mulher, abre logo tua empresa!
E foi ali, sentada numa cadeira de salão, que quase terminei um livro que estava me acompanhando desde o primeiro dia do ano. Literalmente desde 1º de janeiro. Enquanto o relógio avançava, eu avançava páginas. Não era o plano, mas era coerente.
Às sete, percebi que não chegaria a tempo. Avisei no grupo. Pedi desculpas. Expliquei. E, no nosso pequeno universo, fazer o cabelo é um motivo absolutamente justificável para se atrasar para uma reunião. Seja por vaidade ou por ritual, não importa. Às vezes, a gente precisa se arrumar para existir melhor no mundo. Como diziam os mais antigos: uma mulher com o cabelo feito não quer guerra com ninguém.
Cheguei em casa quase às nove. Tinha deixado tudo meio pronto. Peguei os livros que separei para mostrar. Copiei o link. Mandei no grupo:
“Demorou, sim. Mas finalmente.”
O primeiro encontro oficial do clube começou assim: atrasado, improvisado e, curiosamente, muito fiel à sua essência.
A primeira a entrar foi G*. Amiga de longa data, dessas que atravessam fases com a gente sem pedir legenda. Começamos conversando sobre como o clube surgiu, quase sem perceber que ele já estava acontecendo. Falamos da ideia, do desejo de criar algo diferente, de como um espaço só de mulheres acabou fazendo mais sentido do que parecia no início.
Depois entrou A**. E ali ficamos nós três, intimamente conversando sobre livros e tudo o mais que quiséssemos. Pode parecer pouco, mas foi o suficiente para ser incrível e especial. Como somos quase uma sociedade secreta, não posso divulgar o nome das integrantes ou a ata confidencial da reunião por uma questão de segurança — ficcional, claro. Só nós sabemos.
A ideia do clube nunca foi exigir leitura, nem performance, nem erudição. A ideia era — e sempre vai ser — simples: criar um espaço seguro para mulheres falarem sobre o que estão lendo, o que abandonaram, o que fingem que vão terminar, o que amaram sem saber explicar. Um lugar onde uma mulher de 18 anos e uma de 60 tenham o mesmo peso. Onde tanto faz se você está lendo a Bíblia, um mangá, Shakespeare, Dostoiévski ou um romance cheio de hot constrangedor. Aqui, toda leitura vale.
Aqui, ninguém precisa provar nada.
Voltando ao salão: enquanto esperava o tempo de ação do produto, estava lendo A Noiva (Ali Hazelwood) e cheguei a uma cena clássica — o momento em que o personagem masculino diz uma frase tão direcionada a personagem quanto a garotas apaixonadas que precisei mandar no grupo.
“Gente, estou no meio do salão e olha o que esse homem me fala. Misericórdia, será que alguém viu?”
Vergonha? Um pouco. Surto? Com certeza. E exatamente isso: esse é o propósito. Ter um lugar para surtar, comentar, pedir indicação, perguntar se vale a pena insistir ou largar sem culpa.
Outro dia, coloquei um livro no meu aplicativo de leituras. Ainda era um “talvez”. Pouco depois, uma das integrantes comentou que estava lendo exatamente aquele livro. Pensei: depois eu pergunto se é bom. O clube vive disso. Do trânsito. De gostos que se cruzam sem alarde.
Descobri que teria, em São Paulo, um bloco literário no carnaval. As vagas já tinham acabado. Então perguntei: por que a gente não faz o nosso na Quarta-feira de Cinzas? Um bloco sem rua, no conforto de casa. Cada uma com sua bebida, alcoólica ou não. Um livro na mão e uma boa conversa para se recuperar da folia. Fantasia opcional. Maquiagem belíssima ou cara lavada. Bolo, confete, silêncio, riso. Sem pressão. Sem performance. Um ambiente seguro para absolutamente todas as mulheres do grupo.
O clube nasceu rápido. De um dia para o outro. Uma ideia que virou nome, grupo, convite. E, no meio disso, minha vida também começou a mudar. Estou numa transição grande, tanto profissional, emocional, quanto de prioridades. Por um momento, pensei em transformar tudo isso em empresa, produto físico, planilhas, estrutura. Algumas ideias eram boas. Muito boas. Mas a burocracia exige fôlego, e percebi que ainda não era hora. (Isso rende outro texto.)
Decidi, então, focar no clube. Tudo o que era bom da ideia da empresa fica: a estética, o cuidado, as frases. A empresa espera. O clube acontece.
Antes do encontro, avisei que quem quisesse receberia um convite especial por e-mail. Porque a gente já recebe e-mail demais — quase todos chatos. Faltava um e-mail legal e divertido. G* disse que amou o convite. E foi ali que nasceu outra ideia: uma newsletter exclusiva. Um espaço de correspondência. Acontecimentos do grupo, livros, dicas, promoções, segredos leves. Informações extremamente confidenciais, enviadas com carinho.
Talvez seja isso. Um clube que começou atrasado, mas no tempo certo. Um encontro pequeno, mas verdadeiro. E, às vezes, isso já é mais do que suficiente. 🍓✨
Obrigada a todas as moranguinhas que fazem parte desse clube tão especial para mim.
Até semana que vem!
Agora toda Terça-feira às 08h08!











Um comentário
Eu amei!!! 🍓💓