“Preguiça cognitiva” no trabalho vira debate, mas Inteligência Artificial apenas escancara falhas antigas nas empresas

A ideia de que a inteligência artificial estaria deixando profissionais mais “preguiçosos” mentalmente ganhou força no mercado de trabalho nos últimos meses. Em reuniões, processos seletivos e decisões estratégicas, cresce a percepção de que respostas automáticas substituíram o raciocínio crítico. Para especialistas, porém, o problema não nasce com a tecnologia, ele apenas fica mais visível.

Segundo o professor e especialista em estratégia e transformação digital Lacier Dias, a chamada preguiça cognitiva não é causada pela IA, mas exposta por ela.

A Inteligência Artificial não cria dependência intelectual. Ela evidencia fragilidades que já existiam, como ausência de método, dependência de respostas prontas e falta de pensamento estratégico, afirma.

De acordo com ele, o uso indiscriminado de ferramentas abertas, sem qualquer governança ou critério, amplia erros e acelera decisões mal fundamentadas. Organizações que não têm processos claros acabam usando a IA como atalho mental. O resultado é que falhas que antes ficavam ocultas passam a aparecer com mais rapidez, explica.

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Na prática, a tecnologia funciona como um espelho da maturidade organizacional. Em ambientes estruturados, a IA acelera análises, melhora a qualidade das decisões e libera tempo para atividades estratégicas. Em empresas desorganizadas, ocorre o oposto. A IA amplifica o nível de maturidade da organização. Onde há método, ela potencializa resultados. Onde não há, potencializa erros, resume Lacier.

É nesse contexto que ganha força o conceito de Business Artificial Intelligence (BAI), modelos de IA desenhados para operar dentro das regras do negócio, e não como ferramentas genéricas de consulta. Diferentemente das soluções abertas, o BAI funciona integrado a uma arquitetura de gestão, com controle de acesso, definição de perfis de usuários, trilhas de auditoria, histórico de interações e limites claros conforme o impacto das decisões.

Para o especialista, a grande diferença da IA corporativa não está no algoritmo, mas na governança. Modelos robustos de BAI permitem saber quem usou a IA, para qual finalidade e em que contexto. Isso reduz riscos jurídicos, reputacionais e operacionais e mantém a decisão final sob responsabilidade humana, destaca.

O debate sobre preguiça cognitiva também tem provocado mudanças na forma como empresas avaliam profissionais. Segundo Lacier, organizações mais maduras passaram a valorizar menos a rapidez da resposta e mais a qualidade do raciocínio. Treinar equipes para formular hipóteses antes de usar a IA, desenvolver alfabetização crítica em inteligência artificial e reforçar que a responsabilidade decisória é humana são passos fundamentais, afirma.

Na avaliação dele, a tecnologia não substitui o pensamento, ela separa quem pensa de quem apenas executa. Muito mais do que eliminar profissionais, a IA fortalece aqueles que sabem analisar cenários, explicar decisões e pensar estrategicamente, diz.

Doutorando pela Fundação Dom Cabral e atuando há anos com estratégia e dados, Lacier resume o dilema atual do mercado de trabalho:

O futuro não pertence a quem simplesmente usa IA, mas a quem sabe utilizá-la de forma integrada, responsável e estratégica. Sem isso, a tecnologia só expõe o vazio cognitivo que já estava ali, conclui.

Autor

  • Rowena Romagnoli

    22 anos de existência. Diretora das editorias de economia e tecnologia do portal Ponto360. Graduanda em jornalismo pela Estácio de Sá, atuando -também- em assessoria de imprensa há pouco mais de 1 ano.

    Apaixonada por tudo aquilo que traz felicidade à mente e ao corpo. Nas horas vagas, mãe de um lindo gato preto.

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