IA já consegue identificar sinais de depressão pela voz, aponta estudo brasileiro

Um estudo liderado por pesquisadores da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo aponta que características acústicas da voz humana podem ajudar a identificar sinais de depressão com o apoio da inteligência artificial. A pesquisa analisou áudios curtos enviados por WhatsApp e demonstrou que modelos de aprendizado de máquina são capazes de reconhecer padrões vocais associados a níveis elevados de sintomas depressivos, sem avaliar o conteúdo das falas.

O trabalho foi liderado pelo psiquiatra Ricardo R. Uchida, chefe do Departamento de Saúde Mental da instituição, e teve seus resultados publicados no periódico internacional PLOS Mental Health. Segundo o estudo, aspectos como ritmo, entonação, energia e variações espectrais da voz podem funcionar como indicadores relevantes para triagem precoce em saúde mental.

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A pesquisa envolveu 160 participantes brasileiros, incluindo pacientes com diagnóstico clínico de Transtorno Depressivo Maior e indivíduos sem o transtorno. Os modelos foram treinados com mensagens de voz espontâneas e testados em um conjunto independente de dados. Em tarefas mais próximas do cotidiano, como a descrição da semana anterior, a acurácia ultrapassou 91% entre mulheres e ficou em torno de 75% entre homens, índices comparáveis aos de instrumentos de triagem já utilizados na prática clínica.

Os autores ressaltam que a tecnologia não substitui o diagnóstico médico, mas pode atuar como ferramenta complementar. A proposta é utilizar a voz como um marcador digital acessível, de baixo custo e baixo esforço, com potencial para apoiar estratégias futuras de triagem, monitoramento e pesquisa em saúde mental, especialmente em contextos de telemedicina e políticas públicas.

O estudo foi desenvolvido no Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, em parceria com a empresa internacional de saúde digital Infinity Doctors. A equipe contou ainda com a participação dos docentes Victor H. O. Otani e Lucas Murrins Marques, além do doutorando e especialista em inteligência artificial Felipe O. Aguiar.

Os resultados reforçam o papel da ciência aplicada no enfrentamento dos desafios atuais da saúde mental, a integração entre avaliação clínica rigorosa e inteligência artificial pode gerar soluções inovadoras, seguras e baseadas em evidências, capazes de ampliar o acesso à identificação precoce de transtornos mentais em um cenário de alta demanda por cuidados especializados.

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