Durante séculos, a água foi entendida como origem da vida, força de purificação e promessa de continuidade. No século XXI, ela ganhou um novo papel silencioso: alimentar a nuvem. Não aquela que se forma no céu, mas a que armazena memórias, move bancos, responde perguntas e sustenta a inteligência artificial. Invisível para bilhões de usuários, essa nuvem depende de rios, poços e aquíferos reais e, em algumas comunidades, seu avanço já é sentido gota a gota.
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Em Mansfield, no Estado da Geórgia, nos Estados Unidos, esse choque entre o natural e o digital deixou de ser metáfora. Tornou-se rotina doméstica.
Quando se aposentou, em 2016, Beverly Morris acreditava ter encontrado um lugar onde o tempo correria mais devagar. A casa simples, cercada por árvores e silêncio, parecia o cenário ideal para uma vida tranquila após décadas de trabalho. Ali, a água vinha do próprio poço, clara, abundante e confiável. Como sempre fora.
Quase dez anos depois, a paisagem mudou. E o fluxo também.
A pouco mais de 360 metros da varanda de sua casa, ergue-se agora um prédio monumental, sem janelas, iluminado dia e noite por luzes artificiais. Dentro dele, milhares de servidores trabalham sem descanso. É um data center, uma dessas catedrais modernas erguidas para sustentar desde transações financeiras até sistemas de inteligência artificial, como o ChatGPT.
Para Morris, a presença da tecnologia não se traduz em conveniência, mas em privação.
“Não consigo viver na minha própria casa com metade dela inutilizável e sem água“, afirma. “Não posso beber a água”.
Segundo ela, após o início das obras do data center, pertencente à Meta, controladora do Facebook e do Instagram, o poço que abastece sua residência passou a apresentar sedimentos em excesso, reduzindo a pressão e comprometendo a qualidade da água.

Hoje, Morris transporta água em baldes para dar descarga no banheiro, como se o recurso mais básico tivesse se tornado um bem escasso. Mesmo depois de reparos no encanamento da cozinha, a água que sai da torneira ainda carrega resíduos visíveis.
“Tenho medo de beber essa água, mas ainda cozinho e escovo os dentes com ela“, diz. “Isso me preocupa todos os dias”.
A Meta nega qualquer ligação entre o funcionamento do data center e os problemas enfrentados pela moradora. Em nota enviada à BBC News, a empresa afirmou que “ser um bom vizinho é uma prioridade” e que encomendou um estudo independente sobre as águas subterrâneas da região.
De acordo com o relatório, a operação do data center não teria causado impactos negativos nos aquíferos locais. Ainda assim, para Morris, o dano não se mede apenas em laudos técnicos.
“Este era o meu lugar perfeito. Agora, não é mais“, resume.
A nuvem não flutua: ela ocupa espaço e consome recursos
Costumamos imaginar a nuvem digital como algo etéreo, suspenso no invisível. Mas ela é concreta, pesada e territorial. Atualmente, mais de 10 mil data centers estão espalhados pelo mundo, concentrados principalmente nos Estados Unidos, seguidos por Reino Unido e Alemanha.
Com a explosão da inteligência artificial, essas estruturas se multiplicam, e, junto com elas, crescem também as queixas de comunidades vizinhas.
Nos Estados Unidos, o avanço acelerado do setor já enfrenta resistência significativa: US$ 64 bilhões em projetos de data centers estão atrasados ou bloqueados, segundo levantamento do grupo Data Center Watch, devido a protestos locais e entraves regulatórios.
O ponto mais sensível desse debate não está apenas no impacto visual ou sonoro, mas no consumo massivo de água.
Servidores de alta performance geram calor intenso e precisam ser resfriados continuamente. Muitos data centers utilizam sistemas de resfriamento evaporativo, nos quais a água absorve o calor e evapora, um processo semelhante ao suor humano.
“Esses processadores esquentam muito. É necessária uma quantidade enorme de água para resfriá-los“, afirmou Mark Mills, do Centro Nacional de Análise de Energia, durante audiência no Congresso americano.
Em períodos de calor extremo, uma única instalação pode consumir milhões de litros de água por dia. Estimativas apontam que, até 2027, data centers impulsionados por inteligência artificial poderão consumir entre 4,2 bilhões e 6,6 bilhões de metros cúbicos de água em escala global.
Geórgia: abundância que atrai (e se desgasta)
Poucos lugares simbolizam tão bem esse paradoxo quanto o Estado da Geórgia. O clima quente e úmido oferece uma fonte natural e relativamente barata de água, tornando a região altamente atrativa para desenvolvedores de data centers.
Mas o que parece abundância esconde fragilidade.
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Gordon Rogers, diretor executivo da organização ambiental Flint Riverkeeper, acompanha de perto os impactos dessas construções. À jusante de um canteiro de obras da empresa Quality Technology Services (QTS), ele observa um riacho alterado.

O voluntário George Dietz coleta uma amostra da água. Ela está turva, marrom, pesada.
“Ela não deveria ter essa cor“ afirma. Para ele, o aspecto indica escoamento de sedimentos e possivelmente de floculantes, produtos químicos usados para conter erosão em obras, mas que podem formar lodo e comprometer ecossistemas aquáticos.
A QTS afirma que seus empreendimentos seguem padrões ambientais rigorosos e destaca os milhões de dólares gerados em arrecadação tributária local. Ainda assim, Rogers questiona a lógica do progresso.
“Um proprietário rico não tem mais direitos do que alguém com menos recursos” diz. “E são os moradores que ficam com as consequências”.
Cada pergunta consome água
Pesquisas indicam que uma única solicitação feita a uma ferramenta de inteligência artificial, como o ChatGPT, pode consumir o equivalente a uma pequena garrafa de água. Isoladamente, o dado parece irrelevante. Mas multiplicado por bilhões de interações diárias, revela uma escala alarmante.

As gigantes da tecnologia reconhecem o problema e afirmam buscar soluções.
“Nossa meta é devolver mais água às comunidades do que retiramos até 2030“, afirma Will Hewes, responsável global pela gestão hídrica da Amazon Web Services (AWS), maior operadora de data centers do mundo.
A empresa investe em reparos de vazamentos, captação de água da chuva e uso de águas residuais tratadas. Em regiões como Virgínia, Índia e África do Sul, iniciativas buscam melhorar o acesso e a qualidade da água, mesmo onde ela não é usada para refrigeração.
Segundo a AWS, a água é utilizada apenas em cerca de 10% dos dias mais quentes do ano no continente americano.
Para o professor Rajiv Garg, da Universidade Emory, em Atlanta, os data centers não são uma moda passageira, mas a espinha dorsal da vida contemporânea.
“Não há como voltar atrás“, afirma. “O desafio é pensar no longo prazo”.
Ele defende sistemas de resfriamento mais inteligentes, melhor planejamento urbano e infraestruturas mais eficientes. Ainda assim, reconhece que, no curto prazo, a pressão sobre os recursos naturais será intensa.
Enquanto isso, os data centers já ocupam espaço no centro do debate político. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu recentemente o maior projeto de infraestrutura de inteligência artificial da história, descrevendo-o como um futuro “impulsionado por dados americanos”.
Sob o sol intenso e a umidade espessa da Geórgia, o contraste é evidente: o mesmo clima que atrai investimentos tecnológicos ameaça o equilíbrio hídrico de comunidades inteiras.
Para moradores como Beverly Morris, o futuro digital já chegou. Ele não flutua no céu. Ele bebe água, faz barulho e, muitas vezes, torna difícil permanecer onde antes era possível viver em paz.
À medida que a inteligência artificial avança, o dilema se impõe com clareza crescente: como sustentar o mundo conectado de amanhã sem esgotar o recurso mais antigo e essencial de todos: a água?
*Com informações da BBC News









