Transplante capilar para mulheres está em alta e taxa de sucesso é complexa

Começou devagar, com pequenos tufos de cabelo circulando pelo ralo do chuveiro. Até que a fisiculturista britânica Tracy Kiss começou a perceber que conseguia ver seu couro cabeludo quando o cabelo estava molhado. “Eu sempre tive cabelo muito grosso”, disse Kiss de sua casa no norte de Londres. “Era até inconveniente ter tanto cabelo”.

LEIA TAMBÉM: Anvisa autoriza Butantan-DV, primeira vacina de dose única contra dengue no mundo

Mas logo após o nascimento de seus dois filhos aos 25 anos, Kiss – que hoje tem 38 – não podia acreditar que sua “enorme cabeleira tinha se transformado em um sussurro”.

O relato de Kiss

Pela manhã, escolher um penteado tornou-se menos uma forma de expressão pessoal e mais uma tentativa de disfarce. Kiss frequentemente prendia o cabelo rente à cabeça para esconder a rarefação nas têmporas, ou alternava entre extensões, perucas e chapéus.

Seus exames de sangue mostraram deficiência de vitaminas como ferro. Ela esgotou as possibilidades com suplementos capilares, xampus especializados e até injeções de PRP (um procedimento dermatológico onde seu próprio plasma era injetado nos folículos capilares na tentativa de estimular o crescimento).

“Como mulher, você sente que seu cabelo é sua coroa. Então, quando isso é tirado de você, é como se perdesse sua identidade”.

De acordo com especialistas de Harvard, pelo menos um terço das mulheres experimenta alguma forma de perda capilar durante a vida. Embora existam inúmeras causas, a alopecia androgenética feminina – que pode resultar de uma complexa combinação de desequilíbrios hormonais e histórico familiar – é a mais comum, com um estudo sugerindo que afeta cerca de 40% das mulheres nos EUA até os 50 anos.

O transplante capilar é o único procedimento estético em que os pacientes do sexo masculino superam significativamente as mulheres em número, mas a quantidade de mulheres que optam por esse tratamento aumentou mais de 16% entre 2021 e 2024, segundo a ISHRS (Sociedade Internacional de Cirurgia de Restauração Capilar dos EUA).

Tracy Kiss conheceu o procedimento em 2011 após pesquisar opções de tratamento para seu namorado da época, que também enfrentava problemas de queda de cabelo. Interessada no que um transplante poderia fazer por ela, buscou informações – mas disse que foi rejeitada por ser mulher.

Foram necessários 11 anos de pesquisa, cerca de US$ 3.400 (cerca de R$ 18.000) e um médico disposto para finalmente permitir que ela fosse operada. Assim, em 2022 ela viajou rumo à Turquia para ter 2.500 folículos implantados ao longo da linha do cabelo e das têmporas, usando uma técnica comum chamada FUE (Extração de Unidade Folicular), na qual grupos de folículos pilosos são removidos diretamente de uma área doadora designada, geralmente na cabeça.

Kiss relatou uma recuperação rápida, saindo para jantar após a cirurgia e abandonando os medicamentos para dor apenas 24 horas depois.

Transplante capilar não vence genética

Segundo o cirurgião plástico e especialista em transplante capilar Greg Williams, a cirurgia possui diversas variações. Entre as mulheres que ele atende, estão aquelas que sofrem de alopecia por tração, uma condição às vezes causada por penteados repetidamente apertados que danificam os folículos, e mulheres trans que buscam baixar e “feminizar” a linha do cabelo.

No entanto, a principal causa de queda de cabelo para mulheres cisgênero tanto nos EUA quanto no Reino Unido é genética. Ainda assim, Williams afirma que este grupo “frequentemente não é ideal para transplante”. A condição, ele explica, pode piorar com o tempo se não for estabilizada.

Confira “Filhos do Silêncio” de Andrea dos Santos

“Quando converso com mulheres com queda de cabelo genética feminina sobre fazer um transplante capilar, trata-se mais de ganhar tempo do que uma solução duradoura”, disse ele.

Além disso, hormônios, gravidez, complicações pós-lactação, estresse, doenças e nutrição são múltiplos fatores que afetam mais o cabelo feminino do que o masculino, segundo Williams.

As clínicas e o transplante capilar

Para muitas mulheres que enfrentam perda capilar genética, encontrar uma solução pode ser como perseguir um alvo em movimento. A conscientização sobre a cirurgia de transplante capilar disparou na última década, com a ISHRS relatando que os procedimentos apenas na Europa aumentaram 240% entre 2010 e 2021.

Porém, o especialista capilar Greg Williams está preocupado que novas clínicas de transplante, estabelecidas para atender à crescente demanda, estejam explorando o desespero que acompanha a perda capilar feminina.

“Pacientes com perda de cabelo, tanto homens quanto mulheres, são psicologicamente muito vulneráveis e suscetíveis a serem explorados”, comenta Greg.

Sam Evans, 40 anos, de Northampton, Inglaterra, acredita que foi mal avaliada para o transplante capilar que recebeu em 2024. Evans começou a notar afinamento e pontos calvos há uma década, mas por muito tempo ignorou sua perda de cabelo devido à vergonha que sentia.

Em 2019, Evans consultou um especialista em saúde capilar e do couro cabeludo – também conhecido como tricologista – que informou que ela poderia estar lidando com alopecia feminina padrão. Após uma série sem sucesso de injeções de PRP em 2022, ela conta que a enfermeira a encaminhou para uma clínica de transplante capilar em Londres.

Ela pagou aproximadamente US$ 8.500 (cerca de R$ 45.000) pelo transplante, que levou mais de 10 horas para ser concluído. Evans também relata que a anestesia não eliminou totalmente a dor.

“Fiquei chorando o tempo todo. Foi um dia realmente muito difícil”, relatou Evans.

Nas duas semanas imediatamente após a cirurgia, ela se sentiu muito insegura com as feridas em cicatrização para sair de casa. Sam achou a recuperação estressante devido às múltiplas regras que precisava seguir para dar aos enxertos a melhor chance de sucesso – e, como resultado, teve dificuldades para dormir.

O médico de Evans disse que ela provavelmente precisaria realizar dois ou três transplantes devido ao seu cabelo fino. Agora, ela acredita que tem um afinamento geral devido à sua condição genética de perda de cabelo – significando que não havia nenhuma área do couro cabeludo saudável o suficiente para extrair cabelo para o implante inicialmente.

Conforme seu corpo se recuperava do trauma da cirurgia, Evans começou a perder ainda mais cabelo. Ela conta que seu cirurgião, embora tenha deixado claro que sempre existe risco de falha, garantiu que sua linha capilar seria reforçada pelo transplante.

Atualmente, ela depende de perucas diariamente e até lançou sua própria marca.

As dificuldades no tratamento de perda capilar

Greg Williams acredita que algumas mulheres estão sendo aprovadas para a cirurgia sem receberem um diagnóstico adequado da causa principal da perda capilar ou são operadas mesmo não sendo boas candidatas. Ele considera que, para alguns cirurgiões inescrupulosos, pode ser difícil dizer não a uma paciente.

Ele faz campanha por uma melhor regulamentação e conscientização pública sobre transplantes que, em sua opinião, estão em uma “área cinzenta” entre procedimentos “cirúrgicos e não cirúrgicos”, não exigindo credenciamento ou treinamento para realizá-los.

“A cirurgia de transplante capilar é interessante porque está na intersecção entre cuidados de saúde e gestão empresarial. Na maioria dos casos, é realizada em clínicas particulares, a portas fechadas. Ninguém sabe o que acontece lá dentro. Ninguém fiscaliza”, explica Greg.

Williams recomenda às pessoas que procuram tratamento para perda capilar primeiro receberem um diagnóstico de um especialista e que nunca paguem por um transplante sem conversar diretamente com o cirurgião que realizará o procedimento.

Fonte: CNN Brasil

Autor

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *