A patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic, cairá em 20 de março no Brasil. Mas a expectativa de comprar a caneta emagrecedora por um preço mais baixo não deve se concretizar neste mês, devido a dificuldades regulatórias e industriais.
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A esses fatores somam-se os planos da Novo Nordisk, criadora do Ozempic, para se manter relevante no Brasil, seu oitavo maior mercado no mundo. A farmacêutica dinamarquesa passará a produzir em Minas Gerais suas canetas, hoje importadas.
Escolha da empresa
A Novo Nordisk avalia recorrer da decisão judicial que negou a extensão de sua patente, solicitada sob a justificativa de compensar os anos levados para conceder o registro – no Brasil, o prazo de 20 anos começa a contar a partir do pedido, e não da concessão.
Após derrotas no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o laboratório pode levar a discussão ao Supremo Tribunal Federal (STF). Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, porém, consideram improvável uma vitória, já que a medida poderia afetar não apenas o Ozempic, mas toda legislação de patentes do país.
De toda forma, é um cenário que pode resultar em um nível de concorrência ainda limitado entre as empresas brasileiras, o que levaria à prática de preços não muito abaixo do que já é visto hoje, segundo analistas do setor.
Alguns entraves para a produção do “Ozempic brasileiro” – como a versão similar tem sido chamada -, se apresentam em meio a um dos pivôs do mercado das canetas emagrecedoras, que viu seu faturamento dobrar no ano passado e movimentou R$ 12 bilhões no Brasil.
Os entraves
As aprovações para a produção da semaglutida no Brasil devem começar a ser concedidas nas próximas semanas, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas a falta de regulação às vésperas da queda da patente pode levar a atrasos nos lançamentos.
Ao todo, 14 pedidos para a produção de semaglutida são avaliados pela agência reguladora, que concederá no máximo três autorizações por semestre — um trabalho, portanto, que deve se estender até meados de 2028.
A EMS, maior farmacêutica do país e uma das primeiras que receberá o aval, diz que suas canetas chegarão às farmácias, na melhor das previsões, três meses após a obtenção do registro. A empresa, portanto, espera iniciar as vendas no segundo semestre.
O segundo motivo que pode dificultar a chegada breve de um Ozempic mais barato é que nenhuma das canetas brasileiras será genérica, categoria que impõe aos laboratórios a obrigação de oferecer um desconto de ao menos 35% em relação ao medicamento de referência.
Os registros submetidos à Anvisa são, em sua maioria, de produtos similares. Essa classe permite que a farmacêutica conceda um desconto mais baixo, de cerca de 20%.
Ambos têm o mesmo princípio ativo. A diferença é que o genérico não tem marca comercial e é identificado pelo nome da substância, enquanto o similar tem nome próprio e embalagem personalizada.
As versões brasileiras, que ainda não tiveram seus nomes divulgados, poderão, portanto, ser vendidas a partir de R$ 1.039,76, considerando que o Ozempic hoje sai por R$ 1.299,70.
Dificuldades na produção e venda
A terceira razão pela qual a queda de preços deve ser baixa a princípio é a dificuldade de produzir as canetas emagrecedoras.
As fábricas desses medicamentos, cuja construção pode custar bilhões de reais, enfrentam exigências mais rigorosas do que as que produzem comprimidos, cápsulas ou soluções líquidas não injetáveis.
Além de cuidados com envase e monitoramento ambiental e microbiológico, para garantir a esterilidade de lote a lote, as canetas passam por uma série de testes para que possam ser transportadas em condições mais adversas do que as do laboratório sem perder qualidade. O transporte, aliás, é um desafio à parte, por exigir refrigeração.
Poucos laboratórios são aptos para esse tipo de produção no Brasil. Entre as exceções estão a Biomm e a EMS, que diz ter investido R$ 1,2 bilhão na construção de sua planta fabril em Hortolândia, a 100 km da capital paulista.
A Biomm solicitou à Anvisa autorização para produzir suas canetas, mas não quis detalhar seus planos à reportagem. A Novo Nordisk está construindo uma fábrica em Montes Claros, no interior de Minas Gerais, com investimento de R$ 6,4 bilhões, mas ainda não produz canetas emagrecedoras no Brasil.
Laboratório brasileiro já visa mercado americano
O valor empenhado na produção de canetas emagrecedoras pode ser tamanho que a EMS, por exemplo, diz que precisará investir no mercado estrangeiro para atingir seu ponto de equilíbrio financeiro — o chamado “break-even point“.
Mesmo assim, a fábrica só deve se pagar em 2030, segundo o vice-presidente do laboratório, Marcus Sanchez. A venda de Olire e Linux (liraglutida) para os Estados Unidos, a partir de 2027, é primordial para isso, com faturamento esperado de US$ 60 milhões, ele diz.
Mas o cenário é instável. Apesar de concentrar metade do mercado mundial das canetas emagrecedoras e ser um alvo fértil para as exportações, os Estados Unidos têm imposto sobretaxas ao Brasil, o que pode pôr o plano da EMS em risco.
Com isso, a expectativa recai ainda sobre a semaglutida, cuja patente cai em 2032 nos EUA. Será um período, em tese, mais tranquilo para as negociações, visto que o mandato atual do presidente Donald Trump — que não pode se reeleger — já terá terminado.
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“Fomos ‘first to file‘ nos Estados Unidos, como eles chamam a primeira empresa a protocolar um pedido de medicamento similar. Isso nos concede prioridade para vender nossa semaglutida seis meses antes da queda da patente. É uma legislação que existe lá”, afirma Sanchez.
Crescimento do mercado sustenta interesse industrial, apesar das dificuldades
Apesar das dificuldades, as canetas emagrecedoras têm crescido exponencialmente no Brasil. No ano passado, a venda dobrou em relação ao ano anterior, segundo a Close-Up.
Em janeiro de 2026, houve um crescimento de 34% nas vendas em relação à média mensal registrada em 2025, um indicativo de que haverá mais crescimento — segundo o Itaú BBA, este ano deve terminar com faturamento de R$ 24,6 bilhões.
Até 2030, o faturamento deve ser de R$ 50,8 bilhões, diz Rodrigo Gastim, do Itaú, que conta ter feito a estimativa a partir das vendas dos anos anteriores e da ampliação do uso dos fármacos para o tratamento de outras patologias, como as cardiológicas, algo já em estudo.
Há ainda o interesse estético, ele diz. “Temos uma população obesa ou com sobrepeso relevante, mas este não é o único público. Somos o segundo país que mais realiza procedimentos estéticos no mundo, então o interesse inclui o uso eventual, de quem quer perder alguns quilos para o verão, por exemplo.”








