Janeiro Roxo acende alerta: hanseníase pode evoluir com mais gravidade em pessoas imunodeprimidas

Durante o Janeiro Roxo, campanha nacional de conscientização sobre a hanseníase, especialistas reforçam um alerta importante: pessoas com o sistema imunológico comprometido têm maior risco de desenvolver formas mais graves da doença, com maior chance de lesões nos nervos, diagnóstico tardio e incapacidades físicas quando o tratamento não é iniciado precocemente.

Segundo a dermatologista Elisabeth Lima, especialista em hanseníase pela Sociedade Brasileira de Hansenologia, a evolução da doença não depende apenas da presença da bactéria.

A hanseníase é causada pelo Mycobacterium leprae, mas a gravidade está diretamente relacionada à resposta do organismo do paciente. Quando a imunidade está enfraquecida, o bacilo se multiplica com mais facilidade, aumentando o risco de formas mais extensas e de comprometimento neural”, explica.

O acometimento dos nervos é um dos principais fatores de preocupação, pois pode levar à neuropatia, considerada a maior causa de incapacidades físicas associadas à hanseníase. De acordo com a especialista, o diagnóstico tardio em pessoas imunodeprimidas é frequente, o que agrava o risco de sequelas permanentes.

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Entre os grupos mais vulneráveis estão pessoas em uso de imunossupressores, pacientes oncológicos em quimioterapia ou radioterapia, pessoas vivendo com HIV/AIDS e idosos. No envelhecimento, ocorre a chamada imunossenescência, caracterizada pela redução da eficiência da resposta imunológica e pelo aumento de inflamação crônica, o que pode facilitar o adoecimento e atrasar o diagnóstico.

No caso de pacientes com câncer, Elisabeth Lima destaca que reações hansênicas podem mascarar os sintomas, dificultando a identificação da doença. Já em pessoas com HIV/AIDS, embora os sinais clássicos da hanseníase permaneçam, o contexto clínico pode confundir o diagnóstico, já que lesões cutâneas e neuropatias também são comuns nesse grupo.

A especialista também chama atenção para terapias imunossupressoras utilizadas em doenças autoimunes. “Há evidências de associação entre medicamentos como os anti-TNF e maior detecção ou ocorrência de hanseníase”, afirma. Por isso, ela reforça a importância de investigar sinais suspeitos antes e durante o uso dessas medicações, sem alarmismo e sem estigmatização.

Entre os sintomas que merecem atenção estão manchas na pele com perda de sensibilidade, formigamento ou dormência persistente, fraqueza nas mãos ou nos pés, dor ou espessamento dos nervos e nódulos infiltrados na pele. Muitos desses sinais, segundo a médica, acabam sendo atribuídos a outras condições, como diabetes ou efeitos colaterais de tratamentos, o que contribui para o atraso no diagnóstico

Apesar dos riscos, Elisabeth Lima reforça que a hanseníase tem cura. O tratamento padrão, com poliquimioterapia, é eficaz para eliminar o bacilo, interromper a evolução da infecção e reduzir a transmissão, inclusive nas formas mais graves, desde que iniciado a tempo e acompanhado de manejo adequado das reações inflamatórias.

Pacientes imunodeprimidos, no entanto, exigem acompanhamento mais próximo, com atenção a possíveis reações hansênicas e neurites, além da avaliação de interações medicamentosas e atuação integrada com outras especialidades médicas.

Mesmo com tratamento gratuito disponível no sistema público de saúde, o Brasil segue como o segundo país com maior número de novos casos de hanseníase no mundo, atrás apenas da Índia. Dados do Ministério da Saúde indicam que o país registra, em média, mais de 20 mil novos casos por ano, reforçando a importância da informação, da vigilância clínica e do diagnóstico precoce.

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