A presença de uma dobra diagonal no lóbulo da orelha, conhecida como “sinal de Frank”, tem sido estudada há décadas como um possível marcador visível de risco cardiovascular.
O tema ganhou atenção após a morte do empresário e influenciador Henrique Maderite, aos 50 anos, por um infarto fulminante; ele apresentava uma dobra semelhante nas orelhas.
Com isso, a dúvida que surgiu foi: tenho um sinal parecido na orelha, devo me preocupar?
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De onde veio este sinal?
O sinal de Frank é uma prega na pele do lóbulo da orelha, inclinada mais ou menos 45 graus. Há décadas médicos estudam se essa marca pode estar ligada a problemas no coração.
O nome dessa marca surgiu do médico americano Sanders T. Frank, que descreveu o sinal pela primeira vez em 1973, em uma carta publicada na revista científica New England Journal of Medicine.
Ele observou 20 pacientes, entre 20 e 60 anos, que tinham essa dobra nas duas orelhas e também apresentavam sinais de doença nas artérias do coração, como dor no peito e alterações em exames.
A maioria dessas pessoas tinha fatores de risco conhecidos para problemas cardíacos, como pressão alta ou colesterol elevado. A partir de então, surgiu a questão: será que a dobra na orelha poderia ser um sinal de que algo não vai bem com o coração?
Os estudos
Desde então, vários estudos tentaram responder a essa pergunta. Por exemplo, uma revisão de estudos da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, que avaliou resultados de pesquisas de todo o mundo e concluiu que a ferramenta pode ser útil para diagnósticos.
Entre as análises apresentadas, em um estudo de 2004, pesquisadores avaliaram mais de 400 pacientes que passaram por exames detalhados das artérias do coração. O resultado mostrou que pessoas com o sinal de Frank tinham mais chances de apresentar doença coronariana, ou seja, entupimento das artérias que levam sangue ao coração.
No teste, a sensibilidade encontrada foi de 51,3% e a especificidade de 84,8%.
A sensibilidade mostra a capacidade do sinal de identificar quem realmente tem a doença. Nesse caso, pouco mais da metade dos pacientes com problema no coração apresentava a dobra na orelha.
Já a especificidade indica a capacidade de reconhecer quem não tem a doença. Ou seja, entre as pessoas sem problemas coronarianos, a maioria não apresentava o sinal de Frank.
A associação
Um outro estudo, feito na Universidade Estadual Paulista (Unesp), analisou 110 pessoas e comparou dois grupos: um com doença nas artérias do coração e outro sem a doença (o grupo controle).
Os pesquisadores observaram que a prega diagonal no lóbulo da orelha apareceu em 60% das pessoas com doença coronariana, enquanto estava presente em apenas 30% das pessoas sem a doença.
Esses dados, porém, ainda não comprovam que exista relação entre orelha e coração.
Segundo especialistas, a marca de Frank é, de fato, um sinal – isto é, algo sugestivo – embora não feche diagnóstico.
Assim, pacientes com sintomas já seriam investigados com exames mais detalhados, mas mesmo pessoas sem queixas podem ser estimuladas a avaliar seus fatores de risco se apresentarem a dobra lobular.
Pessoas mais velhas
Durante muito tempo, médicos consideraram que a dobra podia aparecer simplesmente porque a pessoa está ficando mais velha. Com o tempo, a pele da orelha perde colágeno e fica mais flácida, formando a dobra.
Como pessoas mais velhas também costumam ter mais problemas no coração, poderia ser só coincidência, o que os cientistas chamam de associação espúria.
Associação espúria descreve uma correlação entre duas variáveis que parece indicar uma relação de causa e efeito mas, na verdade, não existe tal conexão. Neste caso, isso é observado pela associação de doenças coronarianas com pessoas mais velhas.
Afinal, à medida que envelhecem, as pessoas podem apresentar essa prega no lóbulo sem que necessariamente tenham algum problema.
Por outro lado, alguns estudos de autópsia já encontraram, após a morte de pacientes, danificações de vasos e tecido nervoso nessa região da orelha. Por sua vez, viram que essas alterações podem levar à perda de colágeno local e à formação da prega.
Significa dizer que as mudanças na orelha podem ser um reflexo de algo que está acontecendo em outras partes do corpo. Se os pequenos vasos da orelha estão comprometidos, talvez algo semelhante esteja ocorrendo nas artérias que irrigam o coração.
Outra dobra
Além do próprio sinal de Frank, existe outra dobra, com um nome mais estranho, que chama a atenção: a prega anterotragal. Ela fica localizada na parte anterior da orelha. Alguns estudos já avaliaram que pessoas com o sinal de Frank costumam apresentar, também, essa segunda prega.
Aliás, na pesquisa da Unesp, a verificação simultânea da prega lobular diagonal e a prega anterotragal foi ligada a uma probabilidade de 90% chances de uma pessoa ter problema nas artérias do coração.
Portanto, observar a orelha pode ajudar a levantar suspeitas, mas é o coração que precisa ser avaliado com exames adequados.









