O atraso de fala costuma ser um dos primeiros sinais a gerar preocupação em pais e mães, mas não deve ser interpretado automaticamente como autismo, alertam especialistas. Embora esteja entre os sinais mais observados nos primeiros anos de vida, o atraso isolado da linguagem não fecha diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e precisa ser analisado dentro de um conjunto mais amplo do desenvolvimento infantil.
Um estudo internacional publicado em 2025 no periódico Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health, que analisou dados de 574 crianças diagnosticadas com autismo, aponta que marcos específicos da linguagem, especialmente ligados à comunicação funcional e pragmática, ajudam a identificar sinais precoces do TEA. No entanto, os próprios pesquisadores reforçam que o atraso de fala, sozinho, não é suficiente para caracterizar o transtorno.
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Para a neuropsicopedagoga especialista em autismo Silvia Kelly Bosi, o principal equívoco é associar diretamente a ausência de fala ao diagnóstico. “O atraso de fala é um dos sinais mais comuns que levam os pais a procurar ajuda, mas o autismo não se define apenas pela linguagem. Avaliamos como a criança se comunica, se há intenção comunicativa, interação social, troca de olhares e resposta ao outro”, explica.
Segundo a especialista, a ciência tem reforçado a necessidade de uma análise mais qualitativa do desenvolvimento. “Não é apenas quando a criança começa a falar, mas como ela se comunica. Esse conjunto é que orienta uma avaliação mais precisa”, afirma.
A fonoaudióloga Angelika dos Santos Scheifer, especialista em atraso de fala, ressalta que existem múltiplas causas para dificuldades na linguagem, que não estão relacionadas ao espectro autista. “Há atrasos ligados à maturação neurológica, dificuldades articulatórias, alterações motoras, questões emocionais ou até falta de estímulo adequado. Nem todo atraso indica autismo, e esse esclarecimento evita diagnósticos precipitados”, destaca.
De acordo com Angelika, o estudo internacional ajuda a equilibrar o alerta com tranquilidade para as famílias, ao mesmo tempo em que reforça a importância da intervenção precoce. “O atraso de fala precisa ser acompanhado e estimulado o quanto antes. Quando a intervenção acontece cedo, os ganhos no desenvolvimento da criança são significativos, independentemente do diagnóstico final”, explica.
A pesquisa também indica que crianças diagnosticadas precocemente com TEA tendem a apresentar atrasos de linguagem mais evidentes, o que acelera a busca por avaliação especializada. Para Silvia Kelly Bosi, o recado às famílias é direto. “Não é motivo para pânico, mas também não é algo para ser ignorado. Se a comunicação da criança chama atenção, o caminho é buscar uma avaliação multidisciplinar. Informação e acompanhamento fazem toda a diferença”, conclui.









