A Polícia Federal (PF) abriu um novo inquérito para apurar suspeitas adicionais de gestão fraudulenta envolvendo o Banco de Brasília (BRB), instituição financeira vinculada ao governo do Distrito Federal. A investigação amplia o escopo das apurações já em curso relacionadas às negociações entre o banco público e o Banco Master, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro.
LEIA TAMBÉM: Operação Barco de Papel leva ex-chefe do Rioprevidência à prisão
De acordo com informações obtidas por fontes ligadas à investigação, há indícios de práticas irregulares que vão além da tentativa de aquisição do Banco Master, operação anunciada em março do ano passado e posteriormente barrada pelo Banco Central (BC). Esses novos elementos motivaram a abertura de um procedimento específico para apurar possíveis falhas graves de governança, análise de risco e tomada de decisões dentro do BRB.
Em nota oficial, o BRB confirmou que a primeira etapa da auditoria independente contratada pela própria instituição identificou “achados relevantes”, considerados suficientes para justificar o aprofundamento das investigações. O relatório preliminar foi encaminhado à Polícia Federal no dia 29 de janeiro, e no dia seguinte, sexta-feira (30), o novo inquérito foi formalmente instaurado.
A abertura da investigação foi autorizada pelo ministro Dias Toffoli, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), e o procedimento foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR), que acompanha o caso por envolver uma instituição financeira pública.
As investigações em curso apontam que o BRB desembolsou cerca de R$ 12 bilhões na compra de carteiras de crédito supostamente pertencentes ao Banco Master, mas que, segundo os investigadores, não pertenciam efetivamente à instituição de Daniel Vorcaro e não apresentavam garantias reais. Estimativas preliminares indicam que o prejuízo potencial para o banco público pode chegar a R$ 5 bilhões.
Apesar do impacto financeiro estimado, o BRB sustenta que mantém estabilidade econômica. Em manifestação pública divulgada ainda em janeiro, o banco informou que o governo do Distrito Federal já sinalizou a possibilidade de um “aporte direto”, caso seja necessário cobrir eventuais prejuízos decorrentes das operações sob suspeita.
No próximo mês, a instituição deverá apresentar seu balanço financeiro oficial, documento que deve detalhar com maior precisão o tamanho do rombo provocado pelas transações com carteiras consideradas fraudulentas.
Ao longo de 2025, o BRB tentou adquirir uma participação relevante no Banco Master. A operação contou com forte apoio político do governo do Distrito Federal, acionista controlador do banco público, mas acabou vetada pelo Banco Central, que apontou riscos à solidez financeira da instituição.
Além da tentativa de compra, a Polícia Federal investiga se o BRB adquiriu conscientemente carteiras de crédito problemáticas, sem lastro adequado, durante o mesmo período. O foco dos investigadores é identificar possíveis falhas nos processos internos de análise, aprovação e governança corporativa.
Em novembro, uma operação conjunta da PF e do Ministério Público resultou no afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que posteriormente foi demitido de forma definitiva. Paralelamente às investigações criminais, a nova diretoria do banco e uma auditoria forense independente também conduzem apurações internas, cujas conclusões ainda não foram divulgadas.
Nas últimas semanas, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, declarou à imprensa que se reuniu ao menos quatro vezes, entre 2024 e 2025, com Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. Segundo o governador, os encontros não trataram da compra do banco, embora ocorram no mesmo período em que as negociações estavam em andamento, o que levantou questionamentos entre investigadores e órgãos de controle.
Outro eixo central da investigação envolve a emissão de aproximadamente R$ 50 bilhões em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) pelo Banco Master. Segundo apurações da Polícia Federal e do Banco Central, os títulos ofereciam juros muito acima da média do mercado, sem comprovação de que o banco possuía liquidez suficiente para honrar os pagamentos futuros.
Para sustentar artificialmente essa impressão de solidez, o Banco Master teria investido parte dos recursos em ativos inexistentes, adquirindo créditos de uma empresa chamada Tirreno. Posteriormente, esses mesmos créditos foram repassados ao BRB, que teria pago R$ 12,2 bilhões pela operação sem documentação adequada, em uma tentativa de socorrer o caixa do Master.

As transações ocorreram simultaneamente às tentativas de venda do Banco Master, em um contexto marcado por pressões políticas, falta de transparência e questionamentos regulatórios. O banco também era conhecido por comprar precatórios e investir em empresas em situação financeira delicada, ampliando sua exposição a riscos.
Diante do cenário, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master em novembro, após identificar alto custo de captação e exposição excessiva a investimentos considerados arriscados, com remuneração muito acima do padrão de mercado.
Nota oficial do BRB
Em nota enviada às autoridades, o BRB afirmou que:
“Encontrou achados relevantes” na auditoria forense conduzida pelo escritório Machado & Meyer, com suporte técnico da Kroll, e que encaminhou integralmente o relatório à Polícia Federal e ao Banco Central.
A instituição declarou ainda que vem adotando medidas administrativas, extrajudiciais e judiciais para preservar seus interesses, recuperar créditos e buscar ressarcimento de eventuais prejuízos, parte delas sob sigilo, e que novas ações serão implementadas com a maior brevidade possível.
Por fim, o banco reforçou que permanece sólido e reiterou seu compromisso com a proteção de seus clientes, de seu patrimônio e com o desenvolvimento econômico e social de Brasília e região.









