Há dez anos, no dia 5 de novembro de 2015, a ruptura da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, lançou ao menos 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos sobre a bacia do Rio Doce. Dezenove pessoas morreram, comunidades inteiras foram varridas do mapa e a paisagem ambiental do vale foi transformada para sempre. Uma década depois, as marcas, humanas, sociais e ecológicas, seguem visíveis: casas soterradas, ecossistemas empobrecidos e vidas que não voltaram ao que eram.
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Quando a lama atingiu Bento Rodrigues e outras localidades, moradores viram construções centenárias soterradas e perderam parentes, bens e modos de vida. Das 19 mortes confirmadas, cinco ocorreram em Bento Rodrigues, entre elas duas crianças. Fragmentos de fachadas, paredes com lama incrustada e o silêncio que tomou as ruínas são lembranças físicas da catástrofe.
“Foi o momento da virada. Minha vida desmoronou em alguns segundos”, afirma Mauro Marcos da Silva, comerciante e morador histórico de Bento Rodrigues.
Nos anos seguintes, moradores foram alojados em imóveis alugados pela Fundação Renova, entidade criada pelo TTAC (2016) para conduzir as reparações. O cronograma de reconstrução, porém, sofreu inúmeros atrasos. Só em 2023 começaram a ser entregues as chaves do chamado “novo Bento Rodrigues”, erguido a cerca de 10 km do local original. Ainda assim, para muitos, as novas moradias não substituem o que se perdeu:
“Tem um mês e pouquinho que a gente mudou, mas é uma casa que ainda não tem a nossa identidade, não tem o nosso pertencimento. […] É uma casa que foi construída com muita dor”, disse Mônica dos Santos, antiga moradora de Bento.

A permanência de funcionários e operários nas proximidades, obras em andamento e a sensação de viver em um território marcado pelo reparador e pela empresa dificultam a sensação de lar:
“Parece que a gente está numa casa que não é da gente… para a gente levar a vida da forma mais normal possível, porque acho que normal não vai ser mais não”, comenta Maria Aparecida da Silva Gomes, costureira e dona de casa.
Outra comunidade profundamente afetada, Paracatu de Baixo, permanece com a memória física da lama, inclusive uma escola coberta de resíduos, e com famílias que não conseguiram reproduzir na nova localidade as condições de subsistência anteriores. O reassentamento, a cerca de 30 km de distância, trouxe custos e rotinas diferentes:
“Lá eu tinha minha sorveteria, minha casa, onde plantar. Tinha galinha, tinha tudo… Hoje estamos em área urbana. A conta de luz é cara, o IPTU é caro”, disse Romeu Geraldo de Oliveira, presidente da Associação dos Moradores da Comunidade de Paracatu.
Para aposentados como Vera Lúcia da Paixão, a perda é cotidiana: a terra fértil, as plantações, o sustento que se foi.
“Lá eu tinha cana, horta, fruta… Aqui eu tenho que começar tudo de novo”

Em outubro de 2024, foi assinada uma repactuação das obrigações de reparação, num pacote de R$ 170 bilhões (incluindo cerca de R$ 38 bilhões já gastos anteriormente). Com a homologação do acordo pelo STF, a Fundação Renova foi extinta e parte das responsabilidades passou ao poder público, União, Minas Gerais e Espírito Santo, que devem aplicar recursos em mobilidade, saneamento e projetos locais. À Samarco coube executar indenizações individuais, reassentamentos e medidas de recuperação ambiental.
Até o momento informado pela empresa, já foram pagos R$ 14 bilhões em indenizações individuais e auxílios a mais de 288 mil pessoas, e os gastos acumulados desde 2015 somam R$ 68,4 bilhões, segundo a mineradora. A Samarco afirma ainda ter concluído 100% das obras iniciadas antes da repactuação, entregando 389 construções nos novos distritos de Bento Rodrigues e Paracatu, com equipamentos públicos em funcionamento e 57 estabelecimentos comerciais registrados.
Autoridades e promotores destacam que nem todo prejuízo admite compensação financeira. A perda de vínculos comunitários, das memórias compartilhadas e das relações de convivência é uma ferida que o dinheiro dificilmente cura. Para o promotor Leonardo Castro Maia (MPMG):
“Muitos danos são irreparáveis, como a perda dos vínculos comunitários… Crianças agora já são adultos, já viveram em outra localidade de uma forma completamente diferente. Essa é uma perda irreparável”

Processo criminal: absolvição em primeira instância e recurso do MPF
Apesar da dimensão da tragédia, não houve condenações penais até o momento. Em 14 de novembro de 2024, a Justiça Federal proferiu decisão que absolveu a Samarco e todos os réus do processo criminal. A juíza substituta entendeu que os elementos produzidos no processo (documentos, perícias e testemunhos) não permitiam identificar condutas individuais que possam ser robustamente vinculadas ao desastre, e, por princípio, a dúvida beneficia o réu.
O Ministério Público Federal (MPF), por sua vez, recorreu da absolvição, argumentando que a responsabilidade decorre de omissões multiplicadas numa estrutura organizacional complexa. O procurador Eduardo Henrique de Almeida Aguiar ressaltou:
“É fundamental que a gente tenha o mais rápido possível um julgamento pelo Tribunal Regional Federal da 6ª Região para que possamos fazer justiça nesse caso”
O recurso do MPF foi acompanhado, em parecer de segunda instância, pelo procurador regional Darlan Airton Dias, que afirmou que gestores da Samarco tinham plena ciência técnica dos riscos e que suas omissões aumentaram o risco de colapso.
Entretanto, quase um ano após o recurso, a análise ainda não havia sido concluída e vários crimes denunciados prescreveram em razão da demora processual. Para o MPF, a lentidão da Justiça prejudica a responsabilização e cria sensação de impunidade.
Movimentos de atingidos, como o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), criticam a absolvição e alertam que a falta de punição abre brecha para que tragédias semelhantes se repitam. Letícia Oliveira, da coordenação nacional do MAB, afirma:
“É um grande absurdo… A empresa não fez nada para dar segurança para a barragem, não avisou à comunidade e também não fez a reparação em 10 anos. Essa total impunidade deixou aberto o caminho para que um crime desse se repetisse em Brumadinho”
Paralelamente, atingidos moveram ações no exterior, notadamente uma ação coletiva contra a BHP na Justiça inglesa, iniciada em 2018 e que pretende apurar responsabilidade e reparar danos para milhares de atingidos.

A primeira fase do julgamento, sobre a responsabilidade da empresa, foi concluída em março deste ano, mas a sentença final da juíza Finola O’Farrell ainda não foi publicada; a segunda fase, que avaliará o impacto sobre cada atingido e os montantes a serem pagos, está em preparação. Advogados que representam atingidos no Reino Unido estimam que a decisão sobre responsabilização pode sair ainda neste ano.
Entre números e memórias: a vida após a lama
Enquanto acordos bilionários são costurados e processos se arrastam nas cortes, as rotinas das famílias continuam sendo reconstruídas na marra. Novas ruas, escolas e comércios existem, mas, em muitos relatos, não substituem a história interrompida. O processo de adaptação convive com a sensação de injustiça, a perda de modos de vida e a dificuldade de reconhecer um novo lar como “seu”.
“A gente reconstrói paredes, mas não reconstrói o tempo”, disse Mauro Marcos da Silva.
O que fica — e o que ainda falta
- Fica: a lembrança das vidas e das comunidades soterradas; registros fotográficos e perícias; um novo tecido urbano com casas entregues a milhares de famílias; fundos e repasses bilionários destinados à reparação.
- Falta: respostas penais definitivas; celeridade na tramitação dos recursos; reparações que resgatem vínculos comunitários e meios de subsistência; e, para muitos atingidos, a sensação de justiça.
Dez anos depois, Mariana é um nó entre tragédia, memória e luta por responsabilização. A lama levou pessoas e lugares, mas deixou em pé a cobrança, das vítimas, do Ministério Público e da sociedade, para que a responsabilização e a reparação não sejam apenas números em acordos, mas efeitos concretos que devolvam dignidade e garantias de não repetição.










