“Emenda Master” revela troca de mensagens entre Vorcaro e senador Ciro Nogueira

Uma troca de mensagens revelada em documentos sob análise da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS expôs a reação do banqueiro Daniel Vorcaro à apresentação de uma emenda do senador Ciro Nogueira (PP-PI) que poderia beneficiar diretamente o Banco Master. O material integra um conjunto de conversas que passaram a ser examinadas no âmbito das investigações conduzidas no Congresso Nacional.

LEIA TAMBÉM: Câmara aprova PEC da Segurança Pública e cria Sistema Único com atuação descentralizada

Segundo os registros, Vorcaro celebrou de forma efusiva a proposta apresentada pelo parlamentar à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Autonomia Financeira do Banco Central. A emenda, que não tinha relação direta com o núcleo da PEC, prática conhecida no meio legislativo como “jabuti”, previa mudanças no limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

Em mensagem enviada à companheira, Martha Graeff, Vorcaro escreveu:

“Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes! Está todo mundo louco”.

A emenda foi protocolada em 13 de agosto de 2024. Documentos indicam que o texto foi criado às 17h57 e sofreu sua última modificação às 18h09. Pouco mais de uma hora depois, às 19h44, o banqueiro já comentava a iniciativa em conversa privada, o que chamou a atenção de investigadores pela rapidez com que tomou conhecimento do conteúdo.

Três meses antes dessa troca de mensagens, outra conversa atribuída a Vorcaro sugere relação próxima com o senador. Em diálogo com a esposa, ele afirmou:

“Ciro Nogueira. É um senador. Muito amigo meu. Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida”.

O senador mencionado é Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas (PP) e representante do estado do Piauí no Senado Federal.

O ponto central da proposta era a ampliação do teto de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, elevando o limite de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ. O FGC é uma entidade privada mantida pelos próprios bancos, responsável por assegurar depósitos e aplicações financeiras em caso de quebra de instituições.

À época, o Banco Master já estava sob escrutínio de autoridades por adotar um modelo considerado agressivo de captação de recursos, baseado principalmente na emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com garantia do FGC. Ao elevar o teto de cobertura, a emenda aumentaria a proteção oferecida a investidores e poderia fortalecer a estratégia de captação da instituição.

A proposta ficou conhecida nos bastidores como “emenda Master”, em referência ao potencial impacto direto sobre o banco. No entanto, o texto não avançou no Congresso Nacional. A própria PEC da Autonomia Financeira do Banco Central permanece parada no Senado e ainda não foi aprovada.

O diálogo entre Vorcaro e Martha Graeff integra documentos que estão sendo analisados pela CPMI do INSS, colegiado responsável por investigar suspeitas de irregularidades envolvendo descontos indevidos em benefícios previdenciários.

A inclusão das mensagens no conjunto probatório ampliou o alcance das apurações, que passaram a observar possíveis conexões entre agentes políticos e o setor financeiro.

Em nota, a assessoria do senador afirmou:

“Ciro Nogueira mantém diálogos por mensagens com centenas de pessoas, o que não o torna próximo apenas por, eventualmente, interagir com elas.”

A equipe do parlamentar acrescentou:

“Ciro Nogueira volta a destacar que está tranquilo quanto às investigações da Polícia Federal nas denúncias que envolvem o empresário, uma vez que não mantém nem nunca manteve qualquer conduta inadequada relacionada ao caso em apuração.”

Até o momento, não há decisão judicial que relacione formalmente o senador à elaboração da emenda em benefício específico de qualquer instituição financeira. O material segue sob análise dos parlamentares que integram a CPMI.

A proposta foi apresentada em meio a debates sobre o papel do Banco Central e a autonomia da autoridade monetária. A inclusão de um dispositivo alterando regras do FGC em uma PEC com outro objeto reforçou críticas recorrentes sobre a inserção de temas paralelos em projetos de maior alcance.

Enquanto isso, no Senado Federal, a tramitação da PEC continua sem previsão de votação em plenário. A análise das mensagens pode influenciar o rumo das discussões políticas, dependendo das conclusões a que chegar a CPMI.

O caso acrescenta um novo capítulo à relação entre o setor financeiro e o poder político, levantando questionamentos sobre transparência, timing de informações e eventuais interesses cruzados no processo legislativo.

Autor

  • Nicolas Pedrosa

    Jornalista formado pela UNIP, com experiência em TV, rádio, podcasts e assessoria de imprensa, especialmente na área da saúde. Atuou na Prefeitura de São Vicente durante a pandemia e atualmente gerencia a comunicação da Caixa de Saúde e Pecúlio de São Vicente. Apaixonado por leitura e escrita, desenvolvo livros que abordam temas sociais e histórias de superação, unindo técnica e sensibilidade narrativa.

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *