Em agenda internacional realizada na capital indiana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou estar “aliviado” por não ter se precipitado nas negociações comerciais com os Estados Unidos, diante das incertezas provocadas pela disputa institucional entre a Suprema Corte americana e o presidente Donald Trump.
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Durante encontro com a imprensa em Nova Délhi, na Índia, Lula destacou que o governo brasileiro optou por uma postura prudente frente às mudanças tarifárias anunciadas por Washington. Segundo o presidente, a cautela evitou que o Brasil firmasse acordos que poderiam ter sido posteriormente prejudicados por revisões jurídicas ou políticas nos Estados Unidos.
“Tomamos a decisão correta ao agir com calma. Em alguns momentos, o próprio governo americano recuou em medidas que afetavam o Brasil, e agora houve também a decisão da Suprema Corte. Por isso, quero tratar diretamente com Trump de toda a relação bilateral”, afirmou.
O presidente brasileiro evitou comentar o mérito das decisões judiciais americanas, reiterando que não cabe ao governo brasileiro julgar decisões internas da Justiça de outro país. Ainda assim, reconheceu que o ambiente político em Washington tem dificultado avanços nas tratativas comerciais.
Lula afirmou que as conversas com o governo americano enfrentam obstáculos políticos.
“É uma negociação difícil porque parece que o lado de lá não demonstra tanta disposição para negociar”, declarou.
O presidente acrescentou que o diálogo avançou apenas quando houve contato direto entre os chefes de Estado, estratégia que o governo brasileiro pretende manter.
Integrantes da comitiva que acompanha o presidente relataram que a instabilidade institucional nos Estados Unidos reforçou a avaliação de que o Brasil deve concentrar as negociações no mais alto nível político, reduzindo a dependência de interlocutores intermediários da burocracia americana.
A expectativa do governo é que o tema seja tratado em reunião bilateral prevista para ocorrer em Washington, na Casa Branca, sede do governo dos Estados Unidos.
Brasil defende igualdade comercial e rejeita polarização global
Ainda durante a agenda internacional, Lula enviou um recado político ao governo americano ao afirmar que o Brasil não deseja uma nova divisão geopolítica global nos moldes da Guerra Fria.
“Queremos relações equilibradas com todos os países e tratamento igualitário. O Brasil não busca preferência, busca reciprocidade”, declarou.
O presidente também voltou a questionar a centralidade do dólar nas relações comerciais internacionais, defendendo a ampliação do debate sobre mecanismos alternativos de pagamento entre países parceiros.
As tarifas globais anunciadas por Washington passaram de 10% para 15%, após decisão judicial que limitou instrumentos econômicos utilizados pela Casa Branca. No governo brasileiro, a avaliação predominante é que a padronização da alíquota reduziu desvantagens competitivas enfrentadas pelo país.
Em declaração a jornalistas em Aparecida, o presidente em exercício Geraldo Alckmin afirmou que a uniformização tarifária teve efeito positivo ao eliminar diferenças que colocavam produtos brasileiros em posição menos favorável no mercado internacional.
Segundo ele, setores estratégicos da economia nacional foram beneficiados por reduções ou isenções tarifárias, incluindo combustíveis, café, carne, celulose, suco de laranja e aeronaves.
“Quando a tarifa é igual para todos, a competitividade brasileira é preservada. Antes havia distorções que nos prejudicavam”, avaliou.
Agenda internacional e próximos passos
A viagem presidencial à Ásia inclui acordos comerciais e cooperação tecnológica, além da ampliação das relações econômicas com parceiros estratégicos. Após cumprir compromissos na Ásia Meridional, Lula seguirá agenda diplomática na Ásia Oriental acompanhado de ministros e representantes do setor produtivo.
O encontro com Trump, previsto para março, deverá consolidar o principal eixo das negociações bilaterais em 2026: regras tarifárias, equilíbrio comercial e redefinição da relação econômica entre Brasil e Estados Unidos.
No entendimento do governo brasileiro, o cenário internacional exige pragmatismo diplomático, diálogo direto entre lideranças e defesa da autonomia econômica nacional.








