Trocas de áudios e mensagens extraídas de celulares apreendidos revelam um suposto esquema de corrupção que envolveria policiais civis na cobrança de até R$ 33 milhões para encerrar investigações criminais. O material integra apuração conduzida pelo Ministério Público Federal (MPF), pela Polícia Federal (PF) e pela Corregedoria da Polícia Civil do Estado de São Paulo.
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A ofensiva, batizada de Operação Bazzar, foi deflagrada nesta quinta-feira (5) e resultou, até a última atualização, na prisão de nove suspeitos. Entre os detidos estão um delegado, investigadores, um escrivão, uma doleira e um advogado, apontados como integrantes de um esquema estruturado de corrupção e lavagem de dinheiro dentro de setores estratégicos da corporação.
Em um dos áudios analisados pelos investigadores, um dos alvos menciona valores milionários:
“Eu fui até a delegacia, tá? É referente a uma transferência de [R$] 33 milhões. Ali naquela delegacia o delegado é ‘parceiraço’ meu, tá? Você quer que eu faça alguma coisa lá? Tô… Vou aguardar a orientação tua, tá bom?”

Segundo os investigadores, o conteúdo sugere negociações para interromper ou arquivar inquéritos envolvendo suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro.
Em outra mensagem, há referência a um delegado que teria recebido parte expressiva dos valores:
“Segundo o Dr aqui: recebeu mais de [R$] 20 milhões.”

De acordo com a apuração, “Dr” seria a forma de se referir a um delegado da ativa.
Outro trecho de áudio aponta a suposta exigência de R$ 5 milhões para interromper uma investigação:
“Tem como a gente falar com esse pessoal, pra… pra… para saber ‘que pé’ que está esse negócio? Que os cara pediram [R$] 5 milhões. Negócio… assim… absurdo… pra quem foi lá. E a gente precisava saber do problema.”
As conversas também citam pagamentos fracionados, com valores que variam entre R$ 10 mil, R$ 40 mil, R$ 100 mil e R$ 700 mil.
Em outro diálogo, um investigado relata repasses sucessivos:
“Anota aí para mim que eu dei [R$] 100 mil pro Deic esses dias, eu não sei se você anotou… e ontem foi mais [R$] 110 [mil]… são [R$] 220 mil que eu dei pro Deic aí, anota aí, tá?”
A investigação, conduzida com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), identificou a participação de policiais lotados no Departamento de Investigações Criminais (Deic) e no Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC).
Segundo as autoridades, as extorsões ocorriam em diferentes pontos da capital paulista, incluindo o hangar do Serviço Aerotático da Polícia Civil, no Campo de Marte, e o 16º Distrito Policial, na Vila Clementino.
A Justiça aponta que o grupo teria transformado delegacias especializadas em verdadeiros balcões de negociação para garantir a impunidade de investigados.
Em uma troca de mensagens, um dos alvos afirma:
“O cara vai trazer aqui um inquérito para a gente ver que falaram que a gente tá fodido lá no 16º [DP].”
De acordo com os investigadores, o esquema operava basicamente de duas maneiras:
- Policiais solicitavam Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) sobre alvos em potencial. Após a análise dos dados, investigados eram intimados e passavam a ser pressionados a pagar para que as apurações não avançassem.
- Doleiros que descobriam investigações em andamento ofereciam propina para interromper os procedimentos, incluindo a suposta destruição ou substituição de provas, como a troca de HDs apreendidos por dispositivos vazios.
Ainda segundo a investigação, o grupo utilizava métodos sofisticados para ocultar a origem do dinheiro, como empresas de fachada, simulações de importação e conversão de dinheiro vivo em créditos de vale-refeição por meio de estabelecimentos fictícios.
Quem são os presos?
Foram cumpridos 11 mandados de prisão preventiva e 23 de busca e apreensão, além do bloqueio de bens.
Entre os presos estão:
- José Eduardo da Silva (delegado do 35º DP, no Jabaquara);
- Roldnei Eduardo dos Reis Baptista (investigador do DPPC);
- Rogério Coichev Teixeira (investigador do Serviço Aerotático);
- Ciro Borges Magalhães Ferraz (escrivão do 35º DP);
- Meire Bonfim da Silva Poza (doleira);
- Cléber Azevedo dos Santos;
- Robson Martins de Souza;
- Antônio Carlos Ubaldo Júnior;
- Marlon Antonio Fontana (advogado).
Nota da Secretaria de Segurança Pública (SSP)
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que a Corregedoria da Polícia Civil participa da operação e declarou:
“A Polícia Civil não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades.”
A investigação segue em andamento e não está descartada a possibilidade de novas prisões. As autoridades apuram se o esquema tinha ramificações em outros departamentos e se os valores movimentados podem superar as cifras inicialmente identificadas.









