Operação Bazaar mira doleiros da Lava Jato por corrupção dentro da Polícia Civil de SP

Personagens conhecidos da força-tarefa da Operação Lava Jato voltaram ao noticiário policial nesta quinta-feira (5). Leonardo Meirelles e Meire Poza passaram a ser investigados na Operação Bazaar, que apura um suposto esquema de corrupção e lavagem de dinheiro dentro da Polícia Civil paulista.

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A ofensiva mira um grupo formado por empresários, policiais civis, advogados e operadores financeiros suspeitos de integrar uma organização criminosa que atuava para lavar dinheiro, destruir provas e obstruir investigações internas. Meire Poza foi presa preventivamente. Já Leonardo Meirelles é considerado foragido.

Leonardo Meirelles e Meire Bonfim da Silva Poza ganharam notoriedade durante a Lava Jato por sua ligação com o doleiro Alberto Youssef, apontado como um dos principais operadores financeiros do esquema de corrupção que envolveu a Petrobras e a BR Distribuidora.

À época, Meirelles foi descrito como operador de remessas ilegais ao exterior e sócio de empresas utilizadas para movimentar recursos oriundos de propinas. Ele acabou condenado a 5 anos e 6 meses de prisão, em regime semiaberto, por lavagem de dinheiro. Posteriormente, firmou acordo de delação premiada homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Na colaboração, Meirelles relatou ter realizado mais de quatro mil operações financeiras no exterior, movimentando cerca de US$ 140 milhões a pedido de Youssef. O acordo detalhou mecanismos de envio de recursos ilícitos e pagamentos a agentes políticos.

Meire Poza, contadora, também teve papel relevante na apuração da Lava Jato. Entre 2014 e 2015, prestou depoimentos e apresentou documentos que ajudaram a esclarecer a estrutura de movimentação financeira do grupo de Youssef.

Novo foco: corrupção dentro da Polícia Civil

A Operação Bazaar, deflagrada em São Paulo, apura a existência de um esquema de corrupção instalado dentro da própria Polícia Civil, envolvendo pagamento de propinas para arquivamento ou manipulação de investigações.

Segundo as apurações do Ministério Público e da Polícia Federal, Meirelles teria participado da organização criminosa mascarando valores provenientes de corrupção policial e pagando agentes públicos para evitar investigações no Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) e no Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic).

Desde outubro de 2022, ainda de acordo com os investigadores, pagamentos teriam sido feitos por intermédio de advogados para garantir proteção dentro do Deic. Meirelles era alvo da chamada Operação Fractal, que em agosto de 2025 revelou um esquema milionário de fraudes bancárias e ocultação de patrimônio.

Essa investigação identificou o uso de empresas de fachada e transações com criptomoedas para simular operações comerciais, ocultar a origem ilícita de recursos e dificultar o rastreamento de valores associados ao tráfico de drogas e outras atividades criminosas.

No caso de Meire Poza, as investigações indicam que ela teria atuado tanto no pagamento de propinas quanto na contabilidade do grupo criminoso.

Em conversas interceptadas com um empresário investigado, identificado como Robson Martins de Souza, ela afirma que “já está tudo acertado com os caras lá dentro”, em referência a procedimento instaurado no DPPC.

A decisão judicial que autorizou sua prisão preventiva sustenta que ela mantém contato com diversos policiais e indivíduos suspeitos de adulterar provas e destruir elementos que poderiam fundamentar futuras denúncias.

De acordo com a Polícia Federal, as movimentações financeiras do empresário citado seriam incompatíveis com sua atividade formal declarada.

Ao todo, nove pessoas foram presas na operação.

Nota oficial da Polícia Civil

Em nota, a Polícia Civil do Estado de São Paulo afirmou que determinou a abertura de apurações administrativas:

“A Polícia Civil do Estado de São Paulo determinou, nesta quinta-feira (5), a realização de rigorosas apurações administrativas em todas as unidades onde foram cumpridos mandados de busca e apreensão relacionados à Operação Bazaar, conduzida pelo Ministério Público do Estado em conjunto com a Polícia Federal e com a Corregedoria Geral da própria Polícia Civil.

A Corregedoria da Polícia Civil também realizará verificações extraordinárias nos atos de polícia judiciária em que esses agentes públicos atuaram. As diligências começaram pelo 35º Distrito Policial, na região do Jabaquara, zona sul da capital.

A Polícia Civil de São Paulo não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades.”

O caso reacende o debate sobre mecanismos de controle interno nas forças de segurança e sobre a reincidência de personagens da Lava Jato em novos esquemas investigados.

Até momento, as defesas de Leonardo Meirelles e Meire Poza não se manifestaram sobre o caso. Tão logo haja uma resposta, esta reportagem será atualizada.

As investigações seguem sob sigilo parcial e novas diligências não estão descartadas pelas autoridades.

Autor

  • Nicolas Pedrosa

    Jornalista formado pela UNIP, com experiência em TV, rádio, podcasts e assessoria de imprensa, especialmente na área da saúde. Atuou na Prefeitura de São Vicente durante a pandemia e atualmente gerencia a comunicação da Caixa de Saúde e Pecúlio de São Vicente. Apaixonado por leitura e escrita, desenvolvo livros que abordam temas sociais e histórias de superação, unindo técnica e sensibilidade narrativa.

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