Esquema na Polícia Civil de SP transformava dinheiro vivo em vale-refeição para lavar propina, apontam MP e PF

Uma força-tarefa do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), com apoio da Polícia Federal (PF) e da Corregedoria Geral da Polícia Civil, prendeu nesta quinta-feira (5) nove pessoas suspeitas de integrar um esquema de corrupção sistêmica e lavagem de dinheiro instalado em setores estratégicos da Polícia Civil paulista. A operação ainda estava em andamento até a última atualização desta reportagem.

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A investigação é conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que apura a atuação coordenada de policiais civis, advogados e operadores financeiros. Entre os presos estão três policiais civis, incluindo um delegado, a doleira Meire Poza e outros investigados apontados como intermediários e beneficiários do esquema.

Segundo decisão do juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, o grupo teria transformado delegacias especializadas em verdadeiros centros de negociação para garantir a impunidade de investigados mediante pagamento de propina. A Justiça autorizou prisões preventivas, 23 mandados de busca e apreensão e o bloqueio de bens e valores dos alvos.

Como funcionava o esquema

De acordo com as investigações, o esquema operava de duas formas principais:

  • Policiais solicitavam Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) para identificar potenciais alvos de cobrança de propina. Após a análise dos dados financeiros, investigados eram intimados e pressionados a pagar valores para que procedimentos não tivessem andamento.
  • Doleiros que descobriam investigações em curso ofereciam pagamentos para interromper apurações. Em alguns casos, houve destruição de provas, como a substituição de discos rígidos (HDs) apreendidos por dispositivos vazios, sem conteúdo comprometedores.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública informou que a Corregedoria da Polícia Civil participa da operação e declarou que:

“A Polícia Civil não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades”.

Lavagem de dinheiro com vales-refeição e empresas de fachada

A apuração aponta que a organização criminosa utilizava métodos sofisticados para ocultar a origem dos recursos ilícitos. Entre os mecanismos identificados estão o uso de empresas de fachada, simulação de operações de importação e a conversão de dinheiro em espécie em créditos de vale-refeição.

Segundo o Ministério Público, estabelecimentos comerciais fictícios eram usados para “esquentar” valores provenientes de propina, transformando dinheiro vivo em créditos formais.

Dinheiro encontrado em gaveta de policial alvo de operação contra corrupção na Polícia Civil de SP - Foto: Divulgação
Dinheiro encontrado em gaveta de policial alvo de operação contra corrupção na Polícia Civil de SP – Foto: Divulgação

Os doleiros Leonardo Meirelles e Meire Poza, conhecidos por envolvimento na Operação Lava Jato, são apontados como operadores financeiros do grupo.

Meire Poza foi presa nesta quinta-feira (05). Já há mandado de prisão contra Meirelles, que não havia sido localizado até a última atualização. Ele já era considerado foragido em outro processo com condenação. As defesas não foram encontradas pela reportagem.

Departamentos de elite sob suspeita

O documento judicial detalha episódios ocorridos no Departamento de Investigações Criminais (Deic) e no Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC).

Em um dos relatos, investigados teriam tido acesso às dependências do DPPC para substituir um HD apreendido por outro sem dados incriminatórios.

Também há menção a pagamentos realizados no hangar do Serviço Aerotático da Polícia Civil, no Campo de Marte, além de supostas extorsões no 16º Distrito Policial, localizado na Vila Clementino, zona sul da capital paulista.

Em um dos episódios citados pela Promotoria, policiais teriam exigido R$ 5 milhões para não dar prosseguimento a um inquérito.

Ao fundamentar as medidas cautelares, o magistrado classificou os atos como “subversão ao dever funcional” e ressaltou que a gravidade e a reiteração das condutas justificam a intervenção judicial para interromper as atividades do grupo.

A operação desta quinta-feira (05) é um desdobramento da Operação Recidere, deflagrada em 2023, que investigou um esquema bilionário de envio de recursos ilícitos ao exterior.

Na ocasião, foi identificado que operadores movimentaram cerca de R$ 4 bilhões em dois anos por meio de dezenas de contas bancárias vinculadas a empresas de fachada. O grupo utilizava pessoas jurídicas abertas em nome de “laranjas”, obtinha habilitações para comércio exterior e firmava contratos de câmbio baseados em faturas comerciais falsificadas para ocultar remessas de terceiros que buscavam anonimato e escapar da fiscalização.

Leonardo Meirelles foi o principal alvo da Recidere.

A análise de celulares apreendidos naquela investigação revelou indícios de que operadores financeiros mantinham diálogo com policiais civis da ativa, incluindo delegados e investigadores, para obstruir apurações ou deflagrar operações que posteriormente seriam utilizadas como instrumento de cobrança.

Entre essas apurações está a Operação Fractal, que identificou lavagem de dinheiro por meio de empresas fictícias, uso de intermediários para aquisição de criptomoedas e outros ativos digitais, dificultando o rastreamento dos valores.

Durante o aprofundamento das diligências na Fractal, promotores apontaram tratativas ilícitas, fraude processual e corrupção sistêmica, especialmente envolvendo policiais vinculados ao Deic, ao DPPC e ao 16º Distrito Policial.

Diálogos extraídos dos aparelhos indicariam interferência direta nas investigações, frustrando diligências e blindando integrantes da organização criminosa.

No total, foram decretadas 11 prisões, além de bloqueios patrimoniais e buscas em residências, escritórios de advocacia e sedes das delegacias envolvidas.

O Ministério Público sustenta que o objetivo das medidas é desarticular o núcleo operacional e financeiro do esquema e preservar a integridade das investigações.

A operação segue em andamento e novas fases não estão descartadas.

Autor

  • Nicolas Pedrosa

    Jornalista formado pela UNIP, com experiência em TV, rádio, podcasts e assessoria de imprensa, especialmente na área da saúde. Atuou na Prefeitura de São Vicente durante a pandemia e atualmente gerencia a comunicação da Caixa de Saúde e Pecúlio de São Vicente. Apaixonado por leitura e escrita, desenvolvo livros que abordam temas sociais e histórias de superação, unindo técnica e sensibilidade narrativa.

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