Três etapas, um objetivo: como os Estados Unidos planejam redesenhar poder na Venezuela

O governo dos Estados Unidos confirmou nesta quarta-feira (7) que trabalha com um plano estruturado em três fases para redefinir o futuro político da Venezuela, incluindo um processo de transição de poder que retire o chavismo do comando do país. A informação foi divulgada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, durante declaração oficial em Washington.

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Segundo Rubio, a estratégia foi desenhada para evitar um colapso institucional imediato e garantir que a mudança de comando ocorra de forma controlada. A proposta norte-americana prioriza, inicialmente, a estabilização do país, seguida de um período de recuperação econômica, e, apenas na etapa final, a transição política.

“O primeiro passo é impedir que a Venezuela mergulhe no caos. Precisamos estabilizar o país antes de qualquer outra medida”, afirmou o secretário.

De acordo com o chefe da diplomacia americana, a fase inicial do plano envolve medidas rigorosas de controle econômico e comercial, incluindo uma espécie de “quarentena” da Venezuela no mercado internacional. Esse isolamento, segundo Rubio, tem como objetivo enfraquecer financeiramente as estruturas que sustentam o chavismo no poder.

Entre as ações adotadas está a apreensão de petroleiros vinculados ao governo venezuelano, medida que passou a ser executada nos últimos dias. Para os EUA, a iniciativa impede que recursos provenientes da exportação de petróleo continuem financiando o regime.

“O petróleo venezuelano está retido. Ele não pode circular livremente por causa das sanções e da quarentena internacional”, explicou Rubio.

Segundo o secretário, os Estados Unidos pretendem confiscar entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo, revendendo o produto no mercado internacional a preços regulares, e não com os descontos praticados anteriormente por Caracas.

Rubio afirmou ainda que os valores arrecadados com a venda do petróleo não serão destinados diretamente ao governo venezuelano, mas administrados sob supervisão americana. O objetivo declarado é garantir que os recursos beneficiem a população, e não alimentem esquemas de corrupção.

“Esse dinheiro será distribuído de forma controlada, priorizando as necessidades do povo venezuelano, e não os interesses do regime”, declarou.

A segunda fase do plano está diretamente ligada à reconstrução econômica do país. Nessa etapa, segundo Rubio, os EUA pretendem reintegrar a Venezuela ao mercado internacional, permitindo o acesso de empresas americanas e estrangeiras de forma regulada.

“Queremos assegurar que empresas dos Estados Unidos, do leste europeu e de outras regiões tenham acesso justo ao mercado venezuelano”, disse o secretário.

Além da reabertura econômica, o projeto inclui um processo de reconciliação nacional, com medidas voltadas à anistia de lideranças opositoras, libertação de presos políticos e retorno de exilados ao país.

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Ainda segundo Marco Rubio, essa fase intermediária busca restabelecer a sociedade civil venezuelana, profundamente enfraquecida após anos de repressão política.

“É fundamental permitir que as forças de oposição voltem a atuar livremente, reconstruindo instituições e promovendo diálogo interno”, afirmou.

O secretário, no entanto, evitou mencionar eleições ou prazos específicos, alegando que detalhes sensíveis do plano ainda estão em discussão.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio — Foto: Nathan Howard/Pool/Reuters
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio – Foto: Nathan Howard/Pool/Reuters

A terceira e última fase do plano americano prevê a transição de poder, encerrando oficialmente o ciclo chavista no comando do país. Rubio reforçou que essa etapa só ocorrerá após a consolidação das fases anteriores.

“A transição virá no momento adequado, quando houver estabilidade e bases institucionais para isso”, afirmou.

Ele também descartou, por ora, a divulgação de informações sobre eventuais intervenções militares, nomeação de interventores ou imposição direta de um novo governo.

Nesta quarta-feira, os EUA anunciaram a apreensão do petroleiro Marinera, anteriormente conhecido como Bella 1, que operava sob bandeira russa, além do navio Sophia, ambos ligados à exportação de petróleo venezuelano.

A ação gerou forte reação do governo da Rússia, que classificou a medida como violação do direito marítimo internacional.

“Não havia qualquer jurisdição que justificasse o uso da força”, afirmou Moscou em nota oficial.

A Casa Branca, por sua vez, sustentou que os navios operavam sob bandeiras falsas, o que justificaria a abordagem e a apreensão conforme normas internacionais.

Cenário político após captura de Maduro

Desde a captura de Nicolás Maduro por forças militares dos EUA, em uma operação realizada em Caracas no último sábado (3), o comando do país passou para a vice-presidente Delcy Rodríguez.

Ela assumiu a Presidência de forma interina após decisão da Suprema Corte venezuelana, controlada por aliados do chavismo, que autorizou seu mandato por 90 dias, com possibilidade de prorrogação.

Rodríguez, de 56 anos, é advogada trabalhista, possui fortes vínculos com o setor empresarial e é considerada uma das figuras mais leais ao legado chavista. Sua posse ocorreu diante do irmão, Jorge Rodríguez, atual presidente da Assembleia Nacional.

A história da família Rodríguez é marcada pela política: o pai de ambos foi um líder revolucionário morto sob tortura nos anos 1970, durante um governo venezuelano que contava com apoio dos Estados Unidos.

Apesar das declarações de Marco Rubio, o futuro político da Venezuela permanece incerto. A ausência de informações sobre eleições, prazos ou acordos internacionais levanta dúvidas sobre a aceitação do plano dentro e fora do país.

Enquanto isso, a combinação de pressão econômica, isolamento internacional e controle de recursos estratégicos sinaliza que Washington pretende exercer influência direta no processo de reorganização venezuelana, um movimento que promete redefinir o equilíbrio político na América Latina nos próximos meses.

Autor

  • Nicolas Pedrosa

    Jornalista formado pela UNIP, com experiência em TV, rádio, podcasts e assessoria de imprensa, especialmente na área da saúde. Atuou na Prefeitura de São Vicente durante a pandemia e atualmente gerencia a comunicação da Caixa de Saúde e Pecúlio de São Vicente. Apaixonado por leitura e escrita, desenvolvo livros que abordam temas sociais e histórias de superação, unindo técnica e sensibilidade narrativa.

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