Gisèle Pelicot, a vergonha precisa mudar de lado

Gisèle Pelicot se tornou um símbolo de coragem quando decidiu renunciar ao anonimato para denunciar os mais de cinquenta homens que a abusaram durante dez anos, com o consentimento de seu ex-marido, o Sr. Pelicot, enquanto ele gravava todos os duzentos estupros.

Durante 50 anos, vivi com um homem que nunca imaginei que pudesse ser capaz disso.”

Em 02 de novembro de 2020, Gisèle acompanhou seu marido a uma delegacia perto da casa onde moravam, em Mazan, uma comuna (pequena cidade) no sudeste francês. Dominique Pelicot estava sendo acusado de filmar por baixo da saia de três mulheres num supermercado na cidade de Carpentras.

Na delegacia, ela foi levada para um espaço reservado, onde um policial de nome Perret lhe mostrou imagens de uma mulher que estava deitada numa cama e desacordada, era a Sra. Pelicot, dopada pelo marido em duas das gravações dos cerca de 200 estupros sofridos por ela entre os anos de 2011 e 2020.

O delegado me diz: ‘é você’, e eu respondo: ‘não, não sou eu’. Coloco meus óculos pra tentar compreender, e ele me pergunta: ‘a senhora conhece esse homem?’. ‘Claro que não’. Nesse momento, meu cérebro já não processa mais nada. Eu me desconecto, não escuto mais nada“, relatou Gisèle ao Fantástico.

Em seu livro, Gisèle conta que refutou aquelas imagens dizendo serem montagens feitas por alguém para prejudicar seu Dominique, ela não acreditava na mulher inerte na cama. “Ontem mesmo, ao ver no noticiário uma mulher intubada por causa da covid, ele me disse que sofreria muito se me visse daquele jeito. Eu não reconhecia os homens. Nem a mulher. Sua bochecha era tão caída, a boca tão mole. Parecia uma boneca de pano.”

Dominique Pelicot foi condenado a 20 anos de prisão – Foto: Reprodução – BBC

Casada com Dominique desde 1973, Gisèle soube então que dezenas de homens violaram seu corpo a convite de seu marido para satisfazer o que ele próprio definiu como uma “crescente perversão”. Na garagem de casa, os policiais encontraram o disco rígido que continha centenas de arquivos em fotos e vídeos dos estupros sofridos por sua mulher, por homens recrutados por ele em uma plataforma de encontros. O Sr. Pelicot, como ela passou a chamá-lo por não conseguir usar mais os apelidos carinhosos que antes lhe atribuia, “Doumé ou Mino”, utilizava a “A son insu” (“Sem o conhecimento dela”, em francês), uma espécie de sala registrada na plataforma.

Depois de descobrir as monstruosidades cometidas por seu companheiro, com quem dividiu cinquenta anos de sua vida e com quem construiu uma família, teve três filhos e sete netos, Gisèle voltou pra casa atordoada, ligou para uma amiga, pediu que fosse a sua casa e só então, depois de cinco horas de interrogatório, conseguiu definir o que havia sofrido pelo marido como estupro.

Dominique acabou de ser preso. Ele me estuprou e me ofereceu a desconhecidos durante anos, para que me estuprassem”, disse Gisèle a sua amiga Sylvie.

Filha de Pelicot suspeita que também foi drogada e abusada pelo pai. Foram encontradas fotos íntimas dela nos arquivos, deitada e vestindo pouca roupa – Foto: Reprodução – Christophe Simon/AFP

Pra a Sra. Pelicot, as três ligações para contar a seus filhos, David, Caroline e Florian, o que seu pai fez com ela foi a tarefa mais difícil de sua vida. “Eu sabia muito bem que, para os meus filhos, seria imensamente difícil.

No julgamento, encerrado em setembro de 2024, que durou quatro meses, na cidade francesa de Avignon, Dominique admitiu ser um estuprador.

Eu sou um estuprador, como todos os réus neste tribunal, que sabiam da condição dela quando vieram.”

O Sr. Pelicot e mais 49 dos 80 agressores apontados pela investigação da polícia foram condenados. Eram homens com idades que variavam entre 24 e 70 anos. Um deles era um vizinho com quem Gisèle convivia. “Ele era um homem na casa dos quarenta, pai de quatro filhos. Mesmo assim, veio à minha casa e me estuprou. E eu, que não me lembrava de nada, respondia ‘olá, senhor’ na padaria”.

Gisèle Pelicot era cercada por simpatizantes do lado de fora do tribunal – Foto: Reprodução – Christophe Simon/AFP

O processo se tornou público por escolha de Gisèle como uma forma, segundo ela, de mudar o sentimento de culpa carregado pelas vítimas.

A culpa deve ficar apenas com os responsáveis, jamais com as vítimas e sobreviventes”, declarou ela.

Quase dois anos depois, Pelicot decide lançar sua biografia, Um Hino à Vida. O livro, que tem como subtítulo “a vergonha precisa mudar de lado”, foi lançado em 22 idiomas e escrito com a jornalista Judith Perrignon. Durante a turnê de dois meses, marcada por entrevistas e palestras, ela conta como sobreviveu e como escolheu a felicidade como vingança.

Para o futuro, Gisèle diz esperar reconstruir sua família e o relacionamento com seus três filhos. Dois deles se afastaram da mãe após o trauma causado pelo julgamento. Pelicot está apaixonada, Jean-Loup, seu novo companheiro, é comissário de bordo aposentado da Air France, e ela diz que se apaixonar novamente foi sua maior vitória.

“Quando escrevi este livro, queria que ele fosse útil. Ele também me permitiu olhar para dentro, fazer um balanço da minha vida e tentar me reconstruir a partir das ruínas.” Foto: Reprodução – Paola Kudacki

“Acho que é preciso confiar. Isso também é uma mensagem de esperança: dizer a si mesma que, aos 73 anos, ainda é possível viver uma história de amor.”

Publicado na França em 17 de fevereiro, sua biografia já é o livro mais vendido do país e tem, segundo Gisèle, como objetivo incentivar outras vítimas a recuperarem sua própria voz. Ela o encerra dizendo que renasceu de suas próprias cinzas.

Autor

  • Vinicius Amorim

    Vinicius Amorim é jornalista em formação e atualmente atua na área de comunicação institucional da Assembleia Legislativa de São Paulo, onde desenvolve estratégias de branding político, assessoria de imprensa e posicionamento público. Com passagem por projetos de comunicação interna, employer branding e campanhas digitais, traz um olhar apurado para os movimentos da política e da geopolítica, interesse que surgiu a partir da vivência e atuação no ambiente político da Alesp.

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