Na madrugada de sábado (3), o cenário político da América do Sul foi sacudido por um anúncio de forte impacto geopolítico. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que forças norte-americanas realizaram um ataque militar surpresa de grande escala contra a Venezuela, culminando na captura do ditador Nicolás Maduro e de sua esposa. Pouco depois, o secretário de Estado, Marco Rubio, confirmou que Maduro foi detido e será julgado criminalmente pelas cortes norte-americanas, sob a acusação central de narcoterrorismo.
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A ofensiva não ocorreu de forma isolada. Ela está diretamente ligada à atuação do chamado ‘Cartel de los Soles‘, organização que, segundo o governo dos EUA, opera a partir do interior do Estado venezuelano e envolve altas patentes do regime chavista. Desde pelo menos 2020, Maduro e membros de sua cúpula já figuravam como alvos formais da Justiça americana. O processo ganhou novo fôlego em julho de 2025, quando o Departamento do Tesouro dos EUA, em conjunto com o Departamento de Justiça, classificou oficialmente o Cartel de los Soles como uma “entidade terrorista global especialmente designada”.
Segundo Washington, o cartel funciona como um elo estratégico entre o regime venezuelano e o narcotráfico internacional, atuando em parceria com grupos como o ‘Tren de Aragua‘, organização criminosa originária da Venezuela, e o ‘cartel de Sinaloa‘, do México. Para o governo americano, trata-se de uma engrenagem criminosa que mistura Estado, forças armadas e crime organizado.
“A medida expõe de forma inequívoca a facilitação do narcoterrorismo pelo regime ilegítimo de Maduro, por meio de organizações terroristas como o Cartel de los Soles”, afirmou em julho o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent.
O que é o ‘Cartel de los Soles’?
De acordo com a organização internacional InSight Crime, especializada no estudo do crime organizado na América Latina, o termo “Los Soles” surgiu em 1993, quando dois generais da Guarda Nacional venezuelana passaram a ser investigados por envolvimento com o tráfico de drogas. O nome faz referência às insígnias em formato de sol presentes nos uniformes de oficiais de alta patente, que acabaram se tornando símbolo da rede criminosa.
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Desde então, a expressão passou a designar militares e autoridades acusados de facilitar, proteger ou operar diretamente o transporte de drogas através do território venezuelano. Diferentemente de cartéis tradicionais da Colômbia ou do México, o ‘Cartel de los Soles’ não possui uma estrutura única, hierarquizada ou publicamente identificável.

Segundo a InSight Crime, trata-se de uma rede difusa de células infiltradas nas principais forças armadas do país, Exército, Marinha, Aeronáutica e Guarda Nacional. Essas células estariam envolvidas não apenas com o narcotráfico, mas também com contrabando, lavagem de dinheiro e mineração ilegal de ouro, especialmente em regiões remotas da Amazônia venezuelana.
Como o cartel se expandiu e se consolidou
O fortalecimento do Cartel de los Soles ocorreu principalmente a partir dos anos 2000, após a implementação do Plano Colômbia, programa de segurança financiado pelos Estados Unidos com o objetivo de enfraquecer guerrilhas como as FARC e o ELN. Sob intensa pressão militar em solo colombiano, esses grupos passaram a migrar parte de suas operações para áreas de fronteira com a Venezuela.
Foi nesse contexto que setores das Forças Armadas venezuelanas passaram, segundo investigações internacionais, de simples facilitadores, que cobravam propina para liberar carregamentos, a operadores diretos das rotas do tráfico. Militares teriam assumido o controle de pistas clandestinas, aeroportos regionais e corredores estratégicos de exportação de cocaína, sobretudo com destino à América Central, ao Caribe e aos Estados Unidos.
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Casos emblemáticos reforçam essas suspeitas. Em 2013, uma investigação revelou que um voo da Air France partiu de Caracas transportando cerca de 1,3 tonelada de cocaína. Dois anos depois, em 2015, Leamsy Salazar, ex-chefe de segurança de Hugo Chávez, acusou publicamente Diosdado Cabello, então uma das figuras mais poderosas do chavismo, de ser o principal comandante do Cartel de los Soles.
As acusações formais contra Maduro
Em 2020, ainda durante o primeiro mandato de Donald Trump, o Departamento de Justiça dos EUA apresentou uma denúncia histórica contra Nicolás Maduro e membros centrais de seu governo, acusando-os de narcoterrorismo, conspiração internacional e tráfico de drogas em larga escala.
Segundo o documento, o regime chavista teria corrompido deliberadamente instituições do Estado venezuelano, incluindo setores das Forças Armadas, do serviço de inteligência, do Legislativo e do Judiciário, com o objetivo de facilitar a entrada de toneladas de cocaína em território americano.
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Para opositores do chavismo, não há dúvidas de que o próprio Estado venezuelano se tornou o centro operacional dessa rede criminosa. O ex-procurador venezuelano Zair Mundaray, atualmente exilado nos Estados Unidos, descreveu o ‘Cartel de los Soles’ como “uma das maiores perversidades institucionais criadas pelo chavismo”.
Segundo Mundaray, o fato de a Venezuela não registrar guerras violentas entre facções, como ocorre na Colômbia ou no México, se explica por um fator central:
“Na Venezuela, o próprio Estado controla as rotas. Não há disputa porque quem manda é a força armada. Quem tenta operar fora desse sistema é rapidamente neutralizado.”
Por que os EUA decidiram agir agora
Na avaliação de Washington, o Cartel de los Soles não é apenas um grupo criminoso, mas sim um pilar econômico e político do regime chavista, responsável por financiar sua permanência no poder e por alimentar redes internacionais de narcotráfico que impactam diretamente a segurança dos EUA.
Como resposta, o governo Trump intensificou sua presença militar no Caribe, deslocando navios de guerra e ampliando operações de vigilância. Além disso, a recompensa por informações que levem à captura de Nicolás Maduro foi elevada para US$ 50 milhões.
A ofensiva americana conta com o apoio explícito de países como Argentina, Paraguai, Equador e Peru, que também passaram a classificar o ‘Cartel de los Soles’ como organização terrorista. Em contrapartida, a Colômbia, sob o governo do presidente Gustavo Petro, nega a existência do cartel e acusa os EUA de utilizarem o tema como instrumento político para desestabilizar o governo venezuelano.
Com a captura de Maduro, o futuro da Venezuela entra em um território incerto, marcado por disputas diplomáticas, redefinições de poder e possíveis julgamentos históricos que podem expor, em detalhes, a ligação entre Estado, crime organizado e narcotráfico internacional.









