Camelos ganham protagonismo no Quênia diante da pior seca em quatro décadas

Em meio à pior seca registrada nos últimos 40 anos, comunidades do norte do Quênia estão substituindo cavalos e bovinos por camelos como principal fonte de sustento. A mudança, impulsionada pela resiliência dos camelos às condições extremas, revela uma adaptação forçada pelas mudanças climáticas que assolam a região desde abril de 2025.

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Desde abril, não há registro de chuvas significativas em Samburu, uma das regiões mais áridas do Quênia. O leito dos rios secou, a vegetação rareou e o gado bovino, antes símbolo de riqueza e sobrevivência, foi dizimado. Segundo autoridades locais, cerca de 70% do gado bovino morreu em decorrência da escassez de água e alimento.

Chapan Lolpusike, membro da comunidade seminômade Samburu, relata o impacto direto da crise: “Já não temos mais gado em casa. Criamos apenas camelos agora”. Sentado à beira de um poço seco, ele observa o rebanho de camelos que substituiu suas vacas e bois. “Eles sobrevivem com pasto seco, passam até uma semana sem água e ainda produzem mais leite”, explica.

Por que os camelos?

A escolha pelos camelos não é apenas cultural, mas estratégica. Segundo dados do governo do condado de Samburu, os camelos produzem até 6 litros de leite por dia, contra os 2 a 3 litros das vacas em condições normais. Além disso, sua capacidade de resistir à desidratação e de se alimentar de vegetação escassa os torna ideais para o clima atual.

O veterinário e pesquisador climático Dr. Joseph Lekuton, da Universidade de Nairobi, destaca: “O camelo é um animal adaptado ao deserto. Com o avanço da desertificação no norte do Quênia, ele se torna não apenas uma alternativa, mas uma necessidade”. Lekuton também alerta para o risco de insegurança alimentar: “Sem essa transição, muitas comunidades enfrentariam fome severa”.

A resposta governamental à crise começou ainda em 2015, quando o condado de Samburu lançou um programa de distribuição de camelos para famílias afetadas por secas recorrentes. Em 2025, com a intensificação da crise, o programa foi ampliado. Mais de 3.000 camelos foram distribuídos nos últimos seis meses, segundo dados do Ministério da Agricultura do Quênia.

A secretária de Agricultura, Beatrice Nyambura, afirma: “Estamos investindo em treinamentos para manejo de camelos, produção de leite e comercialização. É uma mudança de paradigma para o setor agropecuário do norte do país”. Nyambura também anunciou a criação de cooperativas locais para facilitar o escoamento da produção de leite de camelo para centros urbanos.

Impactos sociais e culturais

A transição para os camelos também tem implicações culturais. Em muitas comunidades, o gado bovino é símbolo de status e riqueza. A substituição por camelos exige uma reconfiguração de valores e práticas tradicionais. “No início, houve resistência. Mas agora, os camelos são vistos como salvadores”, comenta Lemayian Ntaate, líder comunitário em Sereolipi.

Além disso, o leite de camelo, antes pouco consumido, passou a integrar a dieta diária. Rico em ferro e vitamina C, ele ajuda a combater a desnutrição infantil, que aumentou 30% na região desde o início da seca.

A crise no Quênia é um reflexo das mudanças climáticas que afetam o continente africano. Segundo relatório da ONU publicado em setembro de 2025, mais de 20 milhões de pessoas na África Oriental enfrentam insegurança alimentar devido à seca prolongada. O Quênia, por sua localização e dependência da agropecuária, está entre os países mais vulneráveis.

Para o climatologista Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, que acompanha a situação africana, “O caso do Quênia é emblemático. Mostra como a adaptação local pode salvar vidas, mas também como é urgente uma resposta global ao aquecimento do planeta”

Estes animais conseguem suportar o calor extremo
Estes animais conseguem suportar o calor extremo. Foto: reprodução National Geographic

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